A intervenção do «carola» – seu significado
O dirigente desportivo benévolo a que chamamos, em termos tradicionais, de «carola», situa-se, na sua problemática actual, no interior da dinâmica estabelecida entre a monetarização das relações sociais e o desenvolvimento das actividades que não assumem qualquer carácter mercantil mas que possuem um valor fundamental referido à comunidade no seu todo.
O «carola» não pode ser compreendido em toda a sua extensão no exterior desta problemática. Aliás, a própria crise do associativismo só surge com a indispensável clareza no interior da oposição que se estabelece, na sociedade actual, entre aquelas duas perspectivas. Predominando, como predomina a primeira delas, é natural que, quer este, quer aquele, vivam dificuldades conhecidas. A questão não se coloca, por isso, somente no maior ou menor apoio que os governos fornecem, mas situa-se num ponto fulcral do próprio «funcionamento» da sociedade que estes impõem e da crise que provocam. Na verdade, não é mais do que um dos aspectos da «crise» global em que a sociedade neoliberal se encontra mergulhada.
A função essencial do dirigente desportivo benévolo, ou seja do «carola», é semelhante àquela que caracteriza todos os outros voluntários benévolos. Consiste em expressar a sua capacidade em investir o tempo «libertado» em benefício da comunidade, na perspectiva de uma utilização mais rendível da riqueza social colectiva, quer através da criação das estruturas relacionais adaptadas ao presente, quer procurando detectar os serviços em que elas melhor se exprimem. É este conjunto que irá determinar a evolução do clube futuro, como acontecerá com as outras estruturas associativas que exprimem solidariedades e intervêm em lutas, mais ou menos abertas, intensas e claras, para fazerem frente aquele empobrecimento geral que traduz, de facto, a existência de um sentimento de revolta e inaceitação do estado de coisas actual. E isto, independentemente da visão ideológica dos «actores» e das suas motivações políticas.
A intervenção do «carola» assume, por isso, três aspectos distintos mas absolutamente integrados: por um lado ela refere-se ao campo social em que as novas condições de vida social criadas pela urbanização concentracionária, a desertificação dos campos, o aumento do desemprego e por outros fenómenos igualmente importantes e graves, impõe a estruturação de novos tipos de resposta em relação ao passado. O que quer dizer que, talvez mais do que nunca, a sua presença se torne indispensável. Por outro lado, este tipo de intervenção provoca um notável enriquecimento pessoal, uma autêntica «mais valia humana», como referem certos autores.
Finalmente, mesmo no campo económico, aspecto normalmente pouco considerado, a sua intervenção assume um peso inegável. É certo que este aspecto, em termos quantitativos é ainda muito difícil de determinar. A avaliação de acções que não criam mais valias financeiras é ainda impossível entre nós (ainda que seja possível fazer um exercício aritmético simples que consistiria em multiplicar o número estimado de dirigentes pelo número de horas «médias» por eles fornecidas; em seguida bastaria atribuir um valor a cada hora e teríamos um quantitativo final que, segundo alguns, ultrapassaria várias dezenas de milhões de euros anuais).
Mas não é esta última perspectiva que nos interessa. É indiscutível que serviços, actividades, bens, empregos, etc., são gerados pela actividade das muitas dezenas de milhar de dirigentes desportivos benévolos. Portanto, apesar de nos encontrarmos num sector não mercantil, existem importantes fluxos financeiros em jogo. Por outro lado, um valor financeiro muito significativo é, também, gerado pelas repercussões das práticas dos clubes por eles postos e mantidos a funcionar, em termos de prevenção da saúde, integração social, sociabilização e formação da juventude, etc.
A função do dirigente desportivo benévolo e suas consequências, quer para o desporto, mas, sobretudo, para a própria sociedade ficam, assim, definidas de uma forma clara. Resta à sociedade reconhecê-las em toda a sua dimensão.
Ora, este reconhecimento tem muito que se lhe diga. Antes de tudo ele impõe-se pela simples razão de que quanto mais facilitada for a sua acção mais produtivo (naquele triplo sentido) se torna. Isto significa que, mesmo ao próprio Estado capitalista de matriz neoliberal, é do maior interesse reconhecer, pelo menos, a última daquelas funções. Simplesmente ele bem sabe que ao fazê-lo estará a contribuir para a emergência das outras duas, coisa que não pode tolerar. Daí a falta de reconhecimento, a difusão permanente de que o voluntário benévolo está «moribundo» e a criação de obstáculos ao desenvolvimento da sua acção.