Notas sobre a greve dos ferroviários

Manuel Gouveia

Está a decorrer uma greve dos ferroviários ao trabalho prestado em horas extraordinárias e dias de folga. Decorre esta forma de luta das medidas que estão a ser aplicadas na CP e CP Carga, decorrentes do Acordo PS/PSD sobre o OE2011, que suspendeu unilateralmente um vasto conjunto de regras da contratação colectiva.

Estamos perante uma ilegal acção do Governo. Mais uma. Mas o que justifica esta chamada de atenção é tudo o que esta greve está a deixar exposto.

Tratando-se de uma greve ao trabalho extraordinário e em dias de folga, a empresa solicitou a definição de serviços mínimos, e o «tribunal» arbitral concedeu-lhos! Ou seja, Estado e «Tribunal» não só prosseguem a violação sistemática do direito à greve como não têm vergonha em escrever que para garantir os «serviços mínimos» a empresa necessita de mais que o período normal de trabalho de todos os seus trabalhadores!

Este facto, associado à realidade de que, mesmo com serviços mínimos, uma greve ao trabalho extraordinário está a provocar a supressão de cerca de 20% das circulações e a desorganizar completamente a circulação ferroviária, deveria ser suficiente para provar que é preciso respeitar a contratação colectiva e contratar mais trabalhadores.

Em todas as estações, a CP mandou colocar um aviso electrónico «greve – perturbações». Mas não é a greve que está a desorganizar o serviço – são as medidas que PS e PSD estão a impor, é a tentativa de obrigar à realização de trabalho extraordinário sem o pagar, é a não contratação dos trabalhadores necessários.

De facto, não há pior cego do que aquele que não quer ver. E o Governo não quer ver, preferindo apostar numa estratégia de confronto com os ferroviários e na massiva manipulação da opinião pública. Às ordens do grande capital que decidiu a privatização deste sector. Para o que precisa de destruir a contratação colectiva, intensificar a exploração dos ferroviários, destruir os serviços ferroviários que não têm potencial para gerar lucros à exploração privada, e destruir o prestígio do caminho-de-ferro. Custe o que custar – aos ferroviários, aos utentes, ao País!

À beira do abismo onde a sua política colocou o País, o Governo do grande capital afirma resolutamente «em frente!». Que mergulhem sozinhos!



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