O regresso dos «chefes»

A semana passada foram tomadas decisões judiciais favoráveis aos dois sindicalistas presos no final de uma concentração da Administração Pública junto à residência oficial do primeiro-ministro. O primeiro, José Manuel Marques, dirigente do STAL/CGTP-IN, foi ilibado de todas as acusações na segunda-feira, enquanto Marco Rosa, dirigente do Sindicato dos Professores da Zona Sul – Fenprof, viu na terça-feira o DIAP arquivar o processo da sua detenção, sem sequer deduzir qualquer acusação.

Todavia, o chefe de gabinete de Rui Pereira, titular do MAI (e falando em seu nome, obviamente), entendeu dar veredicto diferente ao dos tribunais. Escrevendo à Fenprof na sequência do protesto apresentado pela forma como a PSP interveio na supracitada concentração, Coelho dos Santos (é esta a graça do chefe de gabinete) considerou a actuação da PSP como «proporcional e adequada» e aduziu, de sua lavra, acusações extraordinárias. Uma, que os manifestantes fizeram rebentar «um engenho explosivo de pequenas dimensões, vulgo petardo» – uma «inventona» tão descarada como anedótica –; outra, acusando um dos detidos, Marco Rosa, de não obedecer «às advertências dadas pela PSP de terminar com agressões sucessivas a um agente da PSP», sendo detido «por incorrer no crime de resistência e coacção sobre funcionários» – factos de que nem sequer foi acusado pelo tribunal.

Portanto, o chefe de gabinete do ministro da Administração Interna (e, logo, o próprio ministro) decidiu verter, do alto da sua eminência, um veredicto «acima» do dos tribunais. Já só lhe falta, mesmo, decidir uma pena a aplicar aos (por si) incriminados sindicalistas.

É o regresso da justiça dos «chefes». No fascismo, seria a dos «chefes de esquadra». Hoje, pelos vistos, ficamos pela dos «chefes de gabinete»...

 

«Maledicências» I

 

A propósito de uma boa classificação dada pela Comissão Europeia a Portugal em «serviços públicos electrónicos», José Sócrates perorou de novo ao País sobre as magnificências do seu Governo, que agora até «está na frente» no que toca a manobras electrónicas.

Uma presunção retintamente pacóvia, mas já estamos habituados.

 

«Maledicências» II

 

A originalidade de Sócrates foi a de puxar o lustro a este seu «feito electrónico» de novo à custa dos funcionários públicos, agora mimoseando-os com a admissão de que «foram eles que deram o contributo para esta mudança» e rematando com a seguinte afirmação: «o País está farto da maledicência sobre a administração pública e daquilo que significa o apoucamento dos funcionários públicos».

Extraordinário, sobretudo vindo de quem mais fez para denegrir, na teoria e na prática, toda a Função Pública tomada por grosso. Na teoria, fazendo a campanha de que todos os funcionários públicos são um bando de privilegiados mais ou menos relapsos que é preciso «pôr na ordem», na prática cortando-lhes forte e feio nas carreiras, nas reformas, nos ordenados, nos direitos laborais, sociais e assistenciais, invocando precisamente que estava a «combater privilégios».

É, de facto, preciso ter uma grande lata.



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