O dirigente associativo e a incompreensão das suas funções
Um importante aspecto que a crise reveste refere-se à incompreensão generalizada que a sociedade manifesta acerca das funções que o clube popular deve desempenhar. Essa incompreensão, que resulta de uma profunda e historicamente bem definida visão cultural, educativa e social do associativismo e da prática cultural, em si mesma negativa e redutora, é constantemente alimentada por uma acção intoxicadora dos média que se limitam a explorar o que de mais sensacionalista e eticamente reprovável se manifesta nos campos desportivos e no resto da actividade social.
As intrigas mesquinhas, a manipulação da opinião pública, a valorização do sensacional, aliás muitas vezes provocado com a finalidade de aumentar audiências e as vendas, a redução do desporto aos seus aspectos mais mesquinhos, produz um caldo cultural distorcido e redutor do real significado que o desporto deve desempenhar. Esta «cultura», que se manifesta como o contrário de uma acção crítica, lúcida e esclarecedora, revela-se no fundo como uma «anticultura» porque não serve o processo de emancipação e valorização do indivíduo, ou seja, é contrário à sua humanização.
A verdadeira cultura desportiva, elemento integrante da cultura designada como «geral» de todo um povo, não se exprime porque não encontra espaço entre os escândalos das transferências mirabolantes dos jogadores, das declarações frequentemente idiotas de muitos dirigentes, das quezílias cretinas que estas provocam, dos imaginários e reais erros dos árbitros que são sempre os causadores das derrotas, dos processos de corrupção que segundo consta grassam com mais ou menos gravidade um pouco por todo o lado, etc. Os debates intermináveis a que se assiste em todas as televisões, quase sempre unicamente sobre o futebol e as suas mazelas reais ou imaginárias, os «comentários» de uns tantos «especialistas» cuja única preocupação se limita a procurar explorar o sensacionalismo que lhes garante audiências ávidas de um espectáculo miserável e para o qual foram treinadas desde a juventude constituem a «informação» desportiva que é fornecida ao grande público. Como forma de agravar esta situação tornou-se agora moda a participação de alguns dos intelectuais mais cotados no mercado cultural que, esses sim, se tornam autores responsáveis deste espectáculo. Tudo isto é acompanhado por um desinteresse total pela necessidade em esclarecer as populações sobre o significado e as razões que fazem com que a prática desportiva constitua um direito constitucionalmente estabelecido na Constituição da República.
Esta «crise» cultural em que de facto se espolia o desporto do seu real significado cultural atinge, em cheio, a própria visão dos dirigentes desportivos e toda a vida dos clubes. A «excelência» da prática desportiva é por todos procurada a partir de uma visão que se integra directamente naquela «anticultura». A equipa dirigente do clube procura o mais dotado, sonha em encontrar o campeão, vive para a vitória a todo o custo, praticando uma selectividade implacável que afasta precocemente os atletas que menos rendem (e onde, muitas vezes, se encontram os autênticos mais dotados que não se espera que desabrochem). Além disto, com raras excepções, lança as crianças numa especialização precoce que limita, à partida, as suas capacidades de desenvolvimento futuro e iniciando processos altamente reprováveis de pseudo profissionalismo que, em muitos casos, vem a provocar autênticos dramas individuais quando o atleta descobre, afinal, que não é, não pode ser, a «estrela» capaz de repetir as proezas daqueles, muito poucos, que conseguem apesar de tudo chegar aos ordenados fabulosos que cobram as grandes «estrelas», aliás dentro de um mercado nebuloso e opaco em que os escândalos surgem a cada passo.
Mas talvez o mais grave de tudo se encontre no facto de estes dirigentes estarem convencidos que é essa a sua função. Que é assim que contribuem com o seu esforço, frequentemente dedicado e honestamente preocupado, para o desenvolvimento do desporto e para afastar a juventude dos perigos que a espreitam.
É sintomático que quando se fala em função social do clube muitos destes dirigentes pensem que se lhes está a exigir que cuidem dos mais pobres, que a designação de desporto popular é sinónimo de desporto miserabilista, que o «social» se refere à antiga «acção social» feita de esmolas e beneficência. Julgam que, no fundo, se está a querer transformar o clube numa espécie de «centro social» do antigamente, em que muitos leigos procuravam «fazer o bem» como forma de conquistar outros reinos que não este terreal e mesquinho em que se vive.
Enquanto o dirigente associativo desportivo não compreender que tem um papel fundamental na democratização do desporto (e a percepção do que isto significa em termos reais), e de que o clube que dirige constitui um instrumento essencial para a consolidação da democracia e da difusão de uma autêntica cultura desportiva, a crise do associativismo não será enfrentada por aqueles que mais vocacionados estão para o fazer.