«Independências» e compromissos

Margarida Botelho (Membro da Comissão Política)

Não é de hoje que são promovidas as várias cambiantes do discurso anti-partidos. Mas nestas presidenciais esse discurso atingiu uma nova dimensão.

Nenhuma candidatura pode apresentar apoios como os que a de Francisco Lopes tem

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Cavaco Silva, na sua declaração de candidatura, alinha o essencial do discurso que já lhe conhecemos há anos. Apresenta-se como «técnico», «isento, imparcial», sem querer aplicar «agendas ideológicas concretas», «equidistante do Governo e da oposição», um «árbitro independente».

Manuel Alegre vai debitando frases pomposas que esbarram nas contradições de uma vida inteira como deputado do PS. Ao ponto de considerar, em entrevista recente à Antena 1, que ter votado PS nas últimas legislativas não significa que tenha dado o voto à sua política...

Nobre, que tem assente a sua campanha no populismo, não se classifica «nem de esquerda nem de direita» e denuncia o «sufoco partidário da vida pública», enquanto Defensor de Moura, actual deputado do PS, se apresenta como o mais independente dos candidatos.

A suposta imparcialidade, independência e isenção destes candidatos não resiste a uma análise de conteúdo. Veja-se o que todos – Cavaco, Alegre, Nobre, Defensor de Moura – defenderam sobre o Orçamento do Estado para 2011. Uns apoiando, outros resignando-se, todos expressaram compromisso com a inevitabilidade da política de direita.

A independência política não está nestes candidatos. Está na candidatura de Francisco Lopes e do PCP: uma candidatura livre dos interesses e dos objectivos do grande capital, capaz de assegurar na Presidência um exercício de funções liberto dos interesses dos grupos económicos e financeiros – coisa que nenhuma outra pode garantir. Uma candidatura que defende com coragem o seu próprio programa e afirma a ruptura e mudança. «Uma candidatura que toma partido, que assume claramente o lado dos trabalhadores e dos seus direitos», como se lê na sua Declaração.

 

Diz-me quem te apoia, dir-te-ei quem és

 

Na comissão de honra de Cavaco Silva dominam banqueiros, donos e administradores dos principais grupos económicos e financeiros, desfilam os rostos que tiveram das mais altas responsabilidades na política de direita no nosso País nos últimos 35 anos. Na candidatura de Alegre aparecem intermitentes: se se procurarem os apoios no site oficial, convivem ministros do Governo e dirigentes do PS com rostos conhecidos do BE; se se consultar o portal bloquista na Internet, há uma curiosa (e decerto trabalhosa) selecção de declarações e apoios, que «limpa» mais de metade...

Os apoiantes da candidatura de Francisco Lopes são mulheres e homens das mais diversas áreas de actividade, que se têm dedicado à luta por uma vida melhor. Nenhuma candidatura pode apresentar apoios como os que a de Francisco Lopes tem recolhido entre trabalhadores, de onde se destaca os cerca de dois mil postais que esta semana lhe foram entregues, assinados por membros de órgãos representativos de trabalhadores. Naturalmente que entre esses dois mil estão muitos comunistas, eleitos pelos seus colegas para Comissões de Trabalhadores e Sindicatos. E estão também muitos activistas sem filiação partidária, que vêem nesta a candidatura dos trabalhadores.

A forma como estes candidatos se apresentam está longe de ser apenas resultado dos conselhos das agências de marketing. No XVIII Congresso do Partido analisámos as campanhas destinadas a estimular o conformismo, a difundir sentimentos de inutilidade da luta e da acção colectiva, a desvalorizar o papel dos trabalhadores e da sua luta. Reflectimos, a propósito das eleições autárquicas, sobre «a tentativa de apresentar listas de cidadãos eleitores como candidaturas “independentes” – quando na sua larga maioria constituem um instrumento para disfarçar alianças partidárias ou projectos políticos pessoais». Decidimos dar combate à «difusão de uma cultura anti-partidos que tende a afastar crescentemente as populações de uma intervenção activa na vida política e dificulta a construção de verdadeiras alternativas».

O que estes candidatos estão a fazer não é apenas um cálculo eleitoralista e demagógico sobre o que as pessoas supostamente gostam ou não de ouvir. O que estão a fazer degrada a democracia e afasta o povo da participação política.

Ao contrário das outras candidaturas, que pregam a resignação e o conformismo, nesta semana de campanha que temos pela frente, nos contactos que teremos com milhares de pessoas, procuraremos suscitar-lhes a reflexão, mobilizá-las para o voto no único candidato que afirma a participação e a luta dos trabalhadores e do povo como o factor decisivo para transformar o País. E esse candidato é Francisco Lopes.



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