Homenagem a António Dias Lourenço

«Há pessoas que continuam vivas mesmo depois de morrerem»

Miguel Inácio

A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e a Câmara Municipal de Peniche promoveram, sábado, uma homenagem a António Dias Lourenço, por ocasião dos 56 anos da sua fuga do Forte de Peniche, protagonizada a 18 de Dezembro de 1954. Consumada a partir do segredo da célula disciplinar instalado na parte do Forte conhecido pelo «redondo», para depois se lançar ao mar, o sucesso desta fuga, a par de muitas outras, perdura como um exemplo de determinação e de vontade inquestionável de voltar à luta antifascista.

Esta iniciativa, em que estiveram mais de uma centenas de pessoas, contou com a participação e intervenção de António José Correia, presidente da autarquia, e de Aurélio Santos, coordenador do Conselho Directivo da URAP.

Image 6355

No Salão Nobre do Forte de Peniche, onde se realizou a sessão, estava patente uma exposição que evoca alguns dos momentos mais marcantes da vida do «homenageado», dedicada à luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo português, à luta do seu Partido contra o regime fascista, contra a exploração, pela liberdade, pela democracia, por uma sociedade nova, o socialismo e o comunismo.

Antes das intervenções, numa sala onde não cabia mais nenhum antifascista, foi ainda projectado «O Segredo», um filme de Edgar Feldman, que ganhou, em 2008, o Prémio Tóbis, para melhor documentário português de curta-metragem no DocLisboa. Uma curta-metragem onde António Dias Lourenço, falecido no dia 7 de Agosto de 2010, relembra os anos de encarceramento no Forte de Peniche, durante a ditadura fascista em Portugal, focando-se no episódio da sua evasão. Percorrendo a cadeia de alta segurança, o comunista evoca as peripécias pelas quais passou para engendrar uma das mais bens sucedidas e espectaculares fugas.

«Quem vê estas imagens e quem conheceu Dias Lourenço fica obviamente rendido à sua coragem», afirmou António José Correia, que aproveitou o momento para valorizar a cooperação entre a URAP e a Câmara Municipal, que já resultou em duas exposições: «75 anos da Instalação da Prisão Política em Peniche», ainda patente ao público, e «25 de Abril - Um Cravo Vivo de Liberdade. «Esta ligação com a URAP tem permitido a preservação da memória e a produção de conteúdos sobre a época do fascismo. Esta é uma forma de verificarmos a importância de quem, de forma destemida, contribuiu para a liberdade», salientou o autarca da CDU.

Este momento - onde estiveram, entre outros, Luísa Araújo e Manuela Bernardino, do Secretariado do Comité Central do PCP - contou ainda com a leitura de uma carta de Lígia Dias Lourenço, filha do homenageado, que não pôde estar presente por se encontrar fora do País, mas que recordou o dia 18 de Dezembro de 1954, quando recebeu, no seu local de trabalho, a notícia da fuga do pai. «Conhecia a força anímica do meu pai e o seu grande desejo de voltar à liberdade para retomar a sua actividade política, daí a coragem e determinação que demonstrou para arquitectar uma fuga nessas condições. Aliás a coragem, a determinação e a certeza das suas convicções foram sempre uma constante da sua vida, que o levariam a arriscar até a própria vida», salientou.

Aurélio Santos, que encerrou o período das intervenções, também qualificou a fuga de António Dias Lourenço como «de grande coragem e audácia». «As fugas de Peniche eram longamente preparadas com o apoio do exterior. Esta foi o próprio que procurou encontrar as formas e as ocasiões de poder ir para o "segredo" e dali procurar a sua evasão», afirmou o coordenador do Conselho Directivo da URAP, acrescentando: «Há pessoas que continuam vivas, mesmo depois de morrerem. António Dias Lourenço morreu este ano, mas, enquanto houver, entre nós, em Portugal, memória do que foi a sua vida, do que foi a sua actividade, e do que foi, também, a sua passagem pela prisão, ele não morre, ele continua connosco».

 

Voltar à luta

 

Image 6356

Aurélio Santos recordou ainda «outras fugas» que dali se fizeram, entre as quais a de Álvaro Cunhal, sublinhando que as mesmas «não eram para fugir da prisão, mas para voltar à luta pela liberdade e pela democracia de Portugal», e é isso que «as torna tão especiais». Dentro da prisão, continuou, também se lutava, em «solidariedade com os outros presos políticos», por «melhores condições prisionais», pelo direito, durante as visitas, à intimidade com as famílias. Sobre este ponto, dando o exemplo de Manuel Pedro, preso político que se encontrava na sala, informou que, muitas vezes, por detrás de cada preso havia um guarda «para saber o que se dizia». 

Quase a terminar, o dirigente da URAP sublinhou que aquela iniciativa «é também uma homenagem a todos os que lutaram pela liberdade e pela democracia, que se mantém, apesar de todas as dificuldades que estamos a viver». «Se não se defende, a democracia pode perder-se», avisou.

«A degradação das condições de vida, a perda de direitos, o agravamento da fome, tudo isto pode criar condições favoráveis para aqueles que querem deitar abaixo a democracia e voltar aos tempos em que não se podia protestar, falar contra o governo, contra a ditadura», alertou, terminando: «a democracia defende-se a cada dia» e «direitos perdidos são direitos que não são exercidos», por isso «tenham a força, a coragem, tal como os presos daqui do Forte de Peniche, que enfrentaram as condições mais duras pera lutarem pelos seus direitos, pelos direitos que foram conquistados com o 25 de Abril». No final, depois de se ter feito um minuto de silêncio, gritou-se, de punho erguido, «A luta continua!»



Mais artigos de: Temas

Aurélio Santos e fraternidade

Intervenção de Luísa AraújoNo 80.º aniversário do camarada2 de Dezembro de 2010 O nosso querido camarada Aurélio Santos faz hoje 80 anos. De certo está satisfeito e nós, creio que posso afirmar em nome de todos, estamos orgulhosos...

Portugal precisa produzir mais e repartir melhor

É preciso não só produzir mais e melhor para vencer a crise mas também repartir melhor, porque se isso não acontecer os resultados dos acréscimos de produção vão parar essencialmente aos «bolsos» de uma minoria que especula, a procura agregada interna não crescerá e a crise tenderá a agravar-se ainda mais.