Milhares nas ruas das Honduras
Com concentrações e bloqueios viários em diversas cidades, os trabalhadores paralisaram o país e exigiram aumentos salariais, defenderam direitos conquistados e reclamaram a convocação de uma nova Assembleia Constituinte.
«A solução passa pela convocação de uma nova Assembleia Constituinte»
Ao apelo da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) e das estruturas sindicais, respondeu, mais uma vez, um poderoso movimento de massas que nas Honduras une trabalhadores dos sectores privado e público, estudantes, docentes e camponeses. Unidades produtivas e serviços públicos – sobretudo hospitais, centros de saúde, escolas e universidades – foram consideravelmente afectados pela mobilização para esta jornada de luta, revelou a FNRP.
Manhã cedo, milhares de trabalhadores concentraram-se nas ruas das principais cidades do país. O objectivo, totalmente cumprido, era bloquear pacificamente os acessos aos centros urbanos.
Na capital, Tegucigalpa, as acções de protesto distribuíram-se pelas avenidas mais importantes, logrando paralisar a circulação durante várias horas. Situações semelhantes ocorreram em Tela, La Ceiba, Trujillo, Olanchito, Progreso, Valle, Comayagua ou Choluteca.
Em São Pedro de Sula, os cortes viários também foram a forma de luta adoptada pelos manifestantes, mas a estrada que liga a metrópole a Puerto Cortes acabou por ser desimpedida pelas forças antimotim com recurso a granadas de gás lacrimogéneo e canhões de água.
Ainda da segunda cidade hondurenha, professores e estudantes ocuparam as instalações da Universidade Autónoma e mantiveram o controlo da instituição durante várias horas em protesto contra a política antipopular do ilegítimo governo de Porfírio Lobo.
Já na região de Tocoa, os camponeses de Aguan mobilizaram-se pelo cumprimento da promessa de entrega de terras, sucessivamente adiada desde o golpe de Estado que derrubou o executivo liderado pelo presidente Manuel Zelaya.
Retrocessos inaceitáveis
Entre as reivindicações populares estão os aumentos das remunerações. O Salário Mínimo Nacional cresceu apenas entre 3 e 7 por cento, manifestamente insuficiente face ao aumento dos preços do conjunto de bens essenciais, por isso os sindicatos exigem uma valorização nunca inferior a 15 por cento.
Em causa está ainda a nova Lei do Trabalho Temporário, a qual permite que o patronato contrate sob este regime 40 por cento da força de trabalho ao seu serviço. As estruturas representativas dos trabalhadores denunciam que tal vai provocar uma vaga de despedimentos e a substituição dos efectivos por precários. A norma viola grosseiramente o Código de Trabalho, acrescentam.
A estas razões, soma-se o repúdio aos despedimentos no sector público, os salários em atraso dos trabalhadores dos sectores da Educação e Saúde, a desindexação do salário do Estatuto Docente, os processos de privatização dos serviços públicos e as concessões à exploração privada das infra-estruturas hidroeléctricas, matérias que têm estado no centro das jornadas de luta realizadas nas últimas semanas.
Para o povo congregado em torno da Frente de Resistência Popular, a solução passa pela convocação de uma nova Assembleia Constituinte, única forma de pôr um fim ao regime que tomou de assalto o poder, às permanentes violações dos direitos humanos no território e à política antipopular que desde 28 de Junho do ano passado tem vindo a aniquilar direitos políticos, sociais e laborais conquistados durante décadas de luta.
Números comprovam
A provar que as exigências dos trabalhadores hondurenhos são justas, estão os dados mais recentes divulgados pelo Fórum Social da Dívida Externa e do Desenvolvimento das Honduras (Fosdeh).
Segundo o Fosdeh, só os alimentos devem aumentar no mínimo oito por cento face ao ano anterior. Desde Maio, aumentaram os cereais, os laticínios, as carnes as frutas e os legumes, precisou a entidade, ao que aduz a subida da tarifa eléctrica imposta pelo Fundo Monetário Internacional a troco da concessão de um empréstimo ao país.
Igual movimento inflacionário deve voltar a registar-se durante o primeiro semestre de 2011, estima o Fosdeh.
No mesmo sentido, o Instituto Nacional de Estatística sublinha que o custo do cabaz básico de alimentos para uma família de cinco pessoas supera os 630 dólares.
Quase 70 por cento da população das Honduras é considerada pobre de acordo com os padrões internacionais. A política seguida desde o derrube violento do presidente Manuel Zelaya está a agravar a situação. Quem o admite são as Nações Unidas, já que as Honduras têm vindo a afastar-se dos oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.
Dados do PNUD indicam que os desafios são cada vez maiores no que toca à erradicação da pobreza, extensão do ensino primário, redução da mortalidade infantil e materna e controlo do vírus VIH/Sida.
A par desta situação, 25 por cento dos menores sofrem de desnutrição crónica, alertam as Nações Unidas.