Roubos I

Na última revista Sábado anunciava-se, em capa, que «Em 20011 o Estado vai perder € 1.368 milhões por causa dos benefícios fiscais». Era uma das informações centrais de um trabalho jornalístico intitulado «Como as grandes empresas escapam ao Fisco e ganham milhões» (e desenvolvido no interior ao longo de dez páginas), acompanhada de mais duas outras a de que «Em 2008 apenas um terço das empresas portuguesas entregou dinheiro às Finanças» e a de que «Em 2009 os bancos podem pagar só 4,3% do imposto sobre o rendimento».

Entendamo-nos: por um lado – e no quadro do malfadado PEC III -, o Governo de José Sócrates decidiu reduzir salários à Função Pública, cortar subsídios vários a desempregados e pobres e depredar orçamentos na Saúde e na Educação para obter um corte no que chamou «despesas primárias do Estado» no montante de mil e tal milhões de euros.

Por outro lado, e por via de benefícios fiscais às grandes empresas, entrega-lhes de bandeja – porque não lhos cobra em impostos – exactamente a monstruosa verba de mil e tal milhões de euros que se prepara para esfolar ao povo e ao País.

É o que se chama roubar aos pobres para dar aos ricos. Literalmente e com o mais brutal descaramento.

 

Roubos II

 

Mas atente-se nas duas outras informações do supracitado trabalho da Sábado a de que «Em 2008 apenas um terço das empresas portuguesas entregou dinheiro às Finanças» e a de que «Em 2009 os bancos podem pagar só 4,3% do imposto sobre o rendimento».

Anote-se, no caso, que se apenas um terço das empresas portuguesas entregou dinheiro às Finanças em 2008 (ou seja, pagou impostos), isto significa, naturalmente, que dois terços das empresas nacionais não pagaram quaisquer impostos em 2008, o que não admira, pois é também sabido que essa é também a percentagem das empresas que, em Portugal, se habituaram a declarar prejuízos, sem que o Estado se preocupe a investigar o que quer que seja, mesmo que ligeiramente.

Anote-se, também, que os bancos podem pagar em 2009 apenas 4,3% de imposto sobre o rendimento, o que é escandalosamente inferior ao que estão obrigadas quaisquer entidades, individuais ou colectivas.

Como se vê, o roubo continua. Roubo aos pobres e aos «remediados» e sempre a favor dos ricos. E devidamente organizado pelos Governos PS e PSD, que por aí continuam a palrar «em nome do povo»...

 

Negociações

 

Foi notícia de 1.ª página no Público que o Governo, o PS e o PSD se reuniram no início desta semana na AR para acertar as propostas na especialidade do Orçamento do Estado de 2011, mas as partes já «foram avisadas» pelo ministro das Finanças de que só serão aceites mudanças «pontuais» no Orçamento e desde que «não tenham implicações no défice previsto».

Ou seja, o ministro Teixeira já avisou que a assinatura do acordo que tão zelosamente fotografou com o seu telemóvel vale um tostão furado, o que já toda a gente sabia, a começar pelo PSD, que logo após ter assinado fez também saber que «não estava de acordo».

Daí que estas reuniões «para acertar» tenham o supremo ridículo de acertarem coisíssima nenhuma, a não ser na paciência dos portugueses para tantas aldrabices.



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