Os dirigentes voluntários estão fora do nosso mundo?
Os clubes desportivos encontram-se, no presente, numa encruzilhada entre o serviço privado e o trabalho de interesse geral. Para a maioria dos cidadãos (a chamada «opinião pública», sem que se saiba bem o que isso é...) os clubes são todos iguais, os dirigentes todos incompetentes e as finanças todas na bancarrota devido às «loucuras» que estes cometem e, por isso, deviam ser afastados. Mais ou menos o que se pensa de «todos» os políticos.
Esta imagem, naturalmente aqui reduzida aos seus aspectos essenciais, é cuidadosa e sistematicamente alimentada por um número significativo de «fazedores de opinião» que, a propósito de tudo e de nada, publicam as mais desencontradas «bocas», num alarde de enciclopedismo que até atordoa. Mesmo a comemoração do Ano Internacional do Voluntário, constituído pela ONU há anos atrás, não deu lugar a qualquer debate sério sobre este assunto e o que foi dito referiu-se, quase em exclusivo, aos voluntários «beneficientes» que trabalham nas ONG ou actuam nos hospitais ou em instituições de caridade.
Nada disto nos deve admirar num mundo em que o dinheiro é a medida de todas as coisas, a solidariedade um «valor» só praticado em termos religiosos e a dedicação ao serviço público algo que já não se usa e deve desaparecer com o «estado de bem estar» (welfare state). O resto são tretas, que escondem traficâncias obscuras e prejudicam a economia, na medida em que impedem a entrada do clube desportivo no mercado consumista e limitam o número de empresas possíveis reduzindo a «procura».
Naturalmente que aquela generalização é abusiva, em 1.º lugar porque dos cerca de 12 000 clubes desportivos existentes no nosso País somente menos de 5% se dedicam ao espectáculo desportivo, afinal o grande sorvedouro de dinheiros e permitindo, nalguns casos, a série de falcatruas, dislates e abusos que alimentam avidamente muitos dos meios de comunicação social. É certo que a constante intervenção de dirigentes, técnicos e alguns intelectuais e políticos de meia tigela não ajuda em nada a combater este conjunto de ideias feitas. Bem pelo contrário, tal é a ligeireza e a vacuidade dos seus debates.
Em 2.º lugar, todos os estudos existentes sobre a situação financeira dos clubes desportivos (apesar do seu número e profundidade serem insuficientes) mostra claramente que, na grande maioria dos casos, há equilíbrio e não se verifica os desconcertos de que os dirigentes desportivos voluntários são acusados.
É evidente que as actividades desportivas, seja qual for o seu tipo e finalidade, não podem (nem devem) colocar-se no exterior da legislação em vigor e do campo social em que «todos sejam tratados como todos». Tudo está em definir juridicamente quais as obrigações que a equidade exige que sejam cumpridas. Um bom exemplo dessa situação refere-se, exemplo entre muitos outros, à imposição do pagamento de IVA, em igualdade de circunstâncias, entre um comprador de batatas (ou qualquer outro bem de consumo) e a aquisição de material desportivo indispensável à formação das crianças e dos jovens. Enfim... critérios que é indispensável continuar a pôr em causa.
Na verdade, tudo isto demonstra a existência de um choque entre concepções sobre o modo de funcionamento social e sobre o significado real das diferentes instituições que garantem o seu dinamismo: o dirigente desportivo voluntário (como outros dirigentes voluntários) encontra-se no centro de um fortíssimo conflito social que se estabelece entre dois mundos, entre duas concepções de sociedade que, constantemente, se afrontam de forma directa ou subreptícia, mas que está sempre presente.
De um lado está a sociedade regida pelo mercado capitalista, marcado pelo consumismo desenfreado, em que quem utiliza deve pagar (quem não tem com que pagar não utiliza, naturalmente, mesmo que isso signifique perda de saúde, limitações no desenvolvimento do ser humano, desintegração social dos jovens, etc.). Do outro, afirma-se uma sociedade orientada por valores inalienáveis (solidariedade, exercício pleno da cidadania, progresso contínuo do ser humano, exercício da justiça social concreta, etc).
De momento a segunda concepção parece perder em muitos dos seus aspectos. E, nessa dinâmica, o dirigente voluntário é, certamente, posto em causa e seriamente afectado na sua acção. Mas será por isso que eles vivem noutro mundo?
Ou, pelo contrário, constituem uma das mais nobres reservas morais de que a nossa sociedade ainda dispõe?