Copistas terceiro-mundistas ou inovadores?
Claro que me apetecia mesmo era escrever sobre esse adicional, e dito austero (que raio de palavrão!), colete de forças que nos querem enfiar pela cabeça abaixo sob a forma de OE 2011, incluindo medidas adjacentes. Gostaria de referir como as comadres a fingirem de zangadas – por vezes mesmo o modo como algo descontroladamente certos «actores» por vezes em inadvertência ultrapassam as fronteiras do fingimento fugindo até a ira verdadeira – vão deixando cair pingas das verdades. De como acusando-se uns aos outros, para os devidos efeitos mediáticos, acabam por mostrar os diversos lados da Verdade. Uns, por exemplo, referem-se aos males que viriam de fora, como se nós não fossemos parte do Mundo, e que são os males do capitalismo – que aproveita os medos do esboroamento da esfera financeira para o maior saque de toda História (em curso...). Outros, também como se não fizessem parte da esfera dirigente nestas décadas mais recentes, referem-se a uma decenal endémica crise do nosso País (o que é verdade, enquanto o nosso produto per capita se foi ficando, o da Irlanda duplicava e o da «atrasada» Grécia saltava para mais uns 50% que o nosso). E não é que ambos têm razão, não querem lá ver!
Mas, mesmo que não fosse apenas um articulado desabafo, não vou aqui por aí... para além do que já não resisti ir! Outros o estão fazendo melhor do que eu e estes escritos, de qualquer modo, continuo a procurar mantê-los nuclearmente na esfera dos temas da C&T e da Inovação. Inclusivamente para noticiar que há possibilidades de factores de vida e de esperança para além dos becos a que nos querem confinar, aplicando-nos escuras e imensas palas como se faz aos asnos, para que não deixem de ser burros.
E começo por assinalar o que recentemente disse a OMPI – Organização Mundial da Propriedade Intelectual –, uma agência da ONU: que, enquanto pelo mundo dos negócios fora, nesta fase de retrocesso económico, aqueles foram cortando os seus orçamentos de investigação & desenvolvimento, a China investiu em grande quantidade em inovação e solicitou mais patentes e marcas.
De facto, disse a OMPI que os registos dos EUA de patentes para protecção de invenções não cresceram em 2008 e 2009. Na Europa, Oh Meu Deus, santa UE!, os registos de patentes caíram 7,9%. E no Japão, o país que também em crise endémica está irá para mais de uma década, caiu 10,9% em 2009! Mas da China, pelo contrário, segundo a OMPI, um motor da economia mundial (ui, ao que chegámos), os registos de patentes cresceram 18,2% em 2008 e 8,5% em 2009.
Já quanto ao registo de marcas, este cresceu 20,8% no último ano no caso da China e caiu 11,7% para os EUA, 7,7% para a Alemanha e 7,2% para o Japão.
Pode-se argumentar com o facto da qualidade dos registos, com a China ainda estar nos começos e os outros já serem regiões economicamente desenvolvidas há muito, etc. Mas o facto é que a OMPI achou relevante destacar estes factos. O secretário-geral da organização achou mesmo por bem afirmar numa introdução por altura da apresentação do relatório anual que «a paisagem da inovação no pós-crise vai seguramente apresentar-se diferente em comparação com uma década atrás».
Na verdade, o registo de patentes e de marcas são indicadores económicos pós-ciclo de Investigação & Desenvolvimento e muitas empresas da «Tríada» têm cortado no respectivo orçamento. Por exemplo, de 2008 para 2009, na GM desceu para menos 24,5%, na Honda caiu 17,7%, na Caterpillar 17,8%, na Procter&Gamble 7,6%, na HP2 0,4%, na Motorola 22,5%.
Enquanto do lado chinês registou-se, por exemplo, crescimentos por parte da ZTE de 44,8% e da Huawei de 27,4%. É certo, outra vez, que se poderá argumentar que nos sectores das Tecnologias da Informação e Comunicação, como é o caso destas tão faladas multinacionais chinesas, também há situações diferentes na Tríada. Tem-se o caso da Apple a fazer crescer o seu orçamento de Investigação & Desenvolvimento de uns 20,2% e a Microsoft de 10,4%.
Mas de qualquer maneira está-se perante uma situação até há pouco impensável. Inclusivamente esta questão de comparar – e não foi o escrevente destas linhas que escolheu estes exemplos, ele tem estado a seguir um articulista internacional a propósito do relatório de 2009 da OMPI – de comparar, dizíamos, os campeões de um país enorme, é certo, a China, mas um país ainda em desenvolvimento segundo os padrões internacionais – o seu produto per capita é bem menor que o português, e cerca de 1/10 do japonês, por exemplo –, de comparar campeões chineses das telecomunicações com as maiores estrelas em inovação das TI do Mundo é mesmo uma grande obra própria de um Mundo que já não é bem o que era. Decididamente.