Corpo de Compromisso, de José Vultos Sequeira – Um oportuno modo de dizer a vida

A respiração do barro

Domingos Lobo

O que na po­esia de Vultos Se­queira mais nos toca, por ser rara, é a pu­reza, a es­sência chã de uma voz ainda não ma­cu­lada pela in­ter­tex­tu­a­li­dade, pela in­fluência de vozes alheias, con­tem­po­râ­neas ou não, que este dis­curso poé­tico cons­trói quase como que uma ima­nência do olhar e do sentir e essa forma lhe bas­tasse para nos dar a ver a re­a­li­dade em es­tado puro, em­bora o sen­tido in­quieto e in­dig­nado, a jus­teza que esse olhar abarca e pro­cura, lhe per­corram o mais sen­tido corpo dessa ar­te­sanal e an­ces­tral modo de dizer poé­tico.

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Se­gundo Maria de Fá­tima Ma­rinho, foi a po­esia con­tem­po­rânea in­glesa e es­pa­nhola que maior atracção exerceu sobre a ge­ração re­ve­lada na pri­meira me­tade do sé­culo XX. Através dos ima­gistas e de Ezra Pound, os po­etas co­meçam a cons­truir uma lin­guagem de rigor, de alar­ga­mento dis­cur­sivo que apro­xi­mará a po­esia de formas pró­prias do es­tilo pro­só­dico. Esse sen­tido de que o pen­sa­mento pode mo­di­ficar a sen­si­bi­li­dade para que nela surja o sen­tido mesmo do poema e este será, por sua vez, a me­dida atenta de uma re­a­li­dade ou de uma si­tu­ação que vêm ame­açar, com a sua nudez e a sua va­cui­dade total, o pró­prio homem. Essa ameaça foi, de­pois, trans­posta para o plano so­cial pela ge­ração dos anos 40, com o final da 2.ª Guerra e a in­tro­dução, no plano cri­a­tivo, das te­o­rias mar­xistas. São os au­tores neo-re­a­listas que fazem, de forma co­ra­josa, essa abor­dagem, olhando a re­a­li­dade de um modo mais crí­tico e so­ci­al­mente em­pe­nhado. Mas José Vultos Se­queira não é – como José Carlos Ary dos Santos o não foi também –, um neo-re­a­lista, mesmo que al­guns teó­ricos, com algum es­forço, tentem in­cor­porar toda a poé­tica da con­tes­tação e do com­bate numa hi­po­té­tica 3.ª Ge­ração neo-re­a­lista. É de re­a­lismo que se trata, um re­a­lismo de tipo pan­fle­tário, in­flu­en­ciado por Guerra Jun­queiro e pelos sá­tiros do nosso clas­si­cismo e pelo sur­re­a­lismo, no caso de Ary, e do re­a­lismo que se não afasta do homem, da sim­pli­ci­dade com que olha o mundo mas que, acu­ti­lante e in­dig­nado, se ex­pressa. Neste sen­tido, a po­esia de José Vultos Se­queira es­taria muito mais pró­xima de au­tores po­pu­lares, como An­tónio Aleixo, do que da po­esia in­flu­en­ciada pelas grandes cor­rentes es­té­ticas do sé­culo XX. A poé­tica de Vultos Se­queira os­cila entre o prazer da fruição da pa­lavra e o em­pe­nha­mento so­cial.

Con­subs­tan­ci­ando esta ideia, a do dis­curso poé­tico que o em­pe­nha­mento so­cial ins­tiga, re­lembro aqui um fa­moso poema de Carlos de Oli­veira:

Acusam-me de mágoa e de­sa­lento,/​como se toda a pena dos meus versos/​não fosse carne vossa, ho­mens dis­persos,/​e a minha dor a tua, pen­sa­mento.

É dessa dor sen­tida, da dor que se torna grito in­dig­nado, que a uni­dade frá­sica da po­esia de Vultos Se­queira parte, para nos dar a me­dida da sua visão do mundo e do seu com­pro­misso so­cial e hu­mano. E isso lhe basta.

 

A his­tória como ma­téria pri­mor­dial

 

Este novo livro do autor de Homem da Fá­brica, as­sume, com co­ra­josa ar­gúcia, aquilo que Claude Pré­vost, nas suas re­fle­xões sobre «Li­te­ra­tura, Po­lí­tica e Ide­o­logia», con­si­dera ser a função pri­mor­dial do es­critor en­quanto uti­li­zador pri­vi­le­giado da pa­lavra, essa ma­téria viva: trans­mitir um pen­sa­mento im­buído de acção, agir com o outro, dado que «o ma­te­rial que a li­te­ra­tura tra­balha está car­re­gado de his­tória e de sen­tido».1

José Vultos Se­queira neste Corpo de Com­pro­misso elege a his­tória, a nossa his­tória re­cente, como ma­téria pri­mor­dial, or­gâ­nica, do dis­curso poé­tico. É o sen­tido do his­tó­rico, esse acervo de um tempo car­re­gado de signos, de in­ter­ditos, de de­sas­som­bros e in­sub­missão, que faz o corpus cen­tral deste apo­díc­tico modo dis­cur­sivo, a sua es­sência: eu es­cuto a His­tória/​vejo um rosto/​Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês.

O autor, atento ao clamor da ma­téria, ao vi­brátil da fala – a um tempo, co­mo­vente e as­ser­tiva –, à chama que a me­mória traz acesa, con­voca para o dis­curso, para o ex­tenso sen­tido his­tó­rico das pa­la­vras, al­guns dos pro­ta­go­nistas que fi­zeram os dias au­dazes, os dias do jú­bilo co­lec­tivo e da luta. E fá-lo em canto de­sa­brido, sa­bendo-se em con­tra­cor­rente e as­su­mindo essa pos­tura, esse com­bate, con­tra­ri­ando as vozes da­queles que, em todos os tempos, per­cor­reram os ca­mi­nhos da vida à sombra dos abrigos, de­sa­fi­ando os dias que são, apa­ren­te­mente, de canga con­for­mada e de sub­missão: a lin­guagem uti­li­zada não como or­na­mento ale­a­tório, mas en­quanto im­pres­siva ma­téria do real, que intui o real, o sub­verte e o traz de novo ao acervo da nossa con­tem­po­ra­nei­dade.

Há, na fala le­van­tada deste modo de dizer o real, um lí­dimo ím­peto trans­gressor que nos ar­re­bata, nos re­a­cende o cal­ci­nado as­sombro e nos trans­porta para os dias en­xutos da es­pe­rança, quando a vida, o fu­turo so­nhado e a po­esia an­davam soltos pelas ruas. Mas esses dias são o nosso re­duto, a terra que la­vramos passo a passo. O poeta está atento aos ou­tros sen­tidos da his­tória, à de­núncia mais ur­gente do que, nos obs­curos do­mí­nios, no si­lêncio larvar dos cor­re­dores do poder, se vai con­ge­mi­nando para nos truncar os passos e in­verter a his­tória: o se­nhor ad­mi­nis­trador dentro do carro/​olha de so­brolho fran­zido/​a ma­ni­fes­tação em frente à sede da em­presa/​a po­lícia está lá/​para evitar que a gen­talha se apro­xime/​e o por­teiro/​per­fi­lado abre-lhe a porta. A di­a­léc­tica dis­cur­siva de Vultos Se­queira, se evoca o pas­sado e a me­mória, não deixa de estar atenta aos si­nais da de­sordem que, avas­sa­la­dores, in­quinam o jú­bilo do nosso Abril ini­cial: passam ar­ro­gantes os se­nhores/​da terra/​os seus pés as suas pas­sadas/​fazem tremer/​os ali­cerces da vida.

A língua de José Vultos Se­queira, a língua que es­creve os po­emas, a língua que, con­jun­tiva, se com­pro­mete, na sua ex­pon­tânea in­ten­si­dade, evoca, sem se di­latar no re­fe­ren­cial mas com o sen­sível sen­tido da ale­gria, de que nos fala Carlos de Oli­veira, al­guns nomes cuja acção, a luta e as pa­la­vras, co­lo­caram do «lado certo da vida»; nomes que fazem parte da nossa me­mória co­lec­tiva, que con­nosco per­cor­reram um «tempo de la­craus» e a esse tempo sou­beram re­sistir: Álvaro Cu­nhal, Mário Cas­trim, Fran­cisco Mi­guel.

Esta tes­si­tura do sen­sível, ar­guta, o ex­plí­cito, per­tinaz, com­ba­tivo sen­tido, leva o poeta a con­ferir às pa­la­vras o seu exacto peso, a in­ferir nelas os si­nais da in­qui­e­tação, esse rumor es­quivo que atra­vessa a re­a­li­dade dos dias que vi­vemos: olha os montes de mi­séria es­con­dida/​pelo si­lêncio/​estão en­car­ce­rados num mar de ver­gonha/​são de­sem­pre­gados/ ve­lhos fa­lidos/ cegos olham/​o de­serto em que se trans­formou o mundo/​à sua volta/​e de­pois/​na de­so­lação de­sa­pa­recem. Esta re­pre­sen­tação do real, este olhar atento ao clamor das ruas, é um opor­tuno e ur­gente modo de ex­pressar a in­dig­nação, que a ma­triz do poeta, a sua voz er­guida, é para dizer o claro grito da de­núncia, que não contem com ele para se re­signar ou de­sistir: e na manhã le­van­tada re­er­guem-se as vozes uma canção um pro­testo/​a vida. O autor vai ao fundo do caos para nos dizer dos ca­mi­nhos justos e, de pas­sagem, de­nun­ciar o que anda es­parso no ar e nos tolhe a vida e os so­nhos.

 

Um canto ines­pe­rado e ur­gente

 

José Vultos Se­queira, com de­no­dada as­sunção, in­troduz no dis­curso poé­tico os ele­mentos dis­fó­ricos cons­ti­tu­tivos da es­sência e ori­gi­na­li­dade de uma po­esia que se faz sobre o quo­ti­diano: é fiel ao seu modo de olhar a vida, atento ao seu pulsar, ao seu âmago fundo, sem deixar de ser uma voz car­re­gada de sím­bolos, das me­to­ní­mias que im­pregnam e sis­te­ma­tizam os im­pres­sivos si­nais em que o dis­curso se or­ga­niza e flui.

Em­bora em contra ciclo, este Corpo de Com­pro­misso afirma, com se­rena duc­ti­li­dade, o com­bate pela dig­ni­dade do hu­mano. É, no seu modo de olhar a re­a­li­dade de um País que nos dói, um canto ines­pe­rado e ur­gente. E nós, que sen­timos «Sobre o Lado Es­querdo», não nos po­demos alhear e co­mun­gamos com a voz lú­cida e as­ser­tiva do poeta, com ele fa­zemos coro na in­dig­nação que estes po­emas pre­fi­guram e ins­crevem.

O que o poeta nos pede é que se­jamos ca­pazes de trans­formar o barro das pa­la­vras, o sen­tido da his­tória, nessa água do tempo que vi­vemos: para que o barro res­pire.

Sub­traindo uma ideia chave a um ro­mance de Don De­Lillo (Sub­mundo), direi que, se há 36 anos po­díamos medir as coisas, dado que o mundo se man­tinha coeso, hoje pre­ci­samos estar des­pertos a cada mo­vi­mento, ao sen­tido da His­tória, ao seu im­per­cep­tível ma­ru­lhar, e agir antes que o barro creste. Este opor­tuno livro de José Vultos Se­queira alerta-nos para isso.

O traço que José Santa-Bár­bara im­prime aos de­se­nhos (mag­ní­ficos) que ilus­tram este livro, in­flecte um outro olhar, uma lei­tura outra, con­tudo cúm­plice (Santa-Bár­bara não se furta a essa cum­pli­ci­dade), sobre o corpo tex­tual.

Par­tindo dos po­emas de Vultos Se­queira, o pintor como que per­segue neles essa pulsão, esse ín­timo rumor das mul­ti­dões, in­ten­si­fi­cando os si­nais que os atra­vessam, de forma im­pres­siva, de­fi­nindo no pic­tó­rico o sen­tido po­lí­tico e pro­lixo da pa­lavra, numa visão que nos iden­ti­fica com o sim­bó­lico que o traço, em sua ci­né­tica abs­trac­ti­zação, evo­luindo no es­paço, pro­fu­sa­mente ex­pressa. Os de­se­nhos de Santa-Bár­bara (por onde o cinza e o ver­melho so­bre­levam a pro­po­sição da pa­lavra) in­te­gram o nosso olhar numa outra di­mensão do dis­curso, re­metem-nos de novo para o uni­verso do com­pro­misso so­cial, da con­cep­tu­a­li­zação in­ter­ven­tora do po­lí­tico e do hu­mano, que pa­recia ar­re­dado da pin­tura con­tem­po­rânea, da sua iden­ti­dade mais pro­funda: o do sen­tido emo­tivo, e emo­ci­o­nado, de re­pre­sen­tação do his­tó­rico.

Dois olhares, o do poeta e o do pintor, que, na sua sin­gu­la­ri­dade, se cruzam e com­pletam, ser­vindo, a seu modo, para am­pliar o se­minal or­gâ­nico que este livro ma­tiza. Santa-Bár­bara pensa estes textos e neles ins­creve a sua marca - a so­li­da­ri­e­dade dos sen­tidos, de sen­tido. Da de­núncia. E ambos fazem deste livro uma obra exem­plar.

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1 Li­te­ra­tura, Po­lí­tica e Ide­o­logia – Claude Pré­vost – p.175 – Mo­raes Edi­tores

Corpo de Com­pro­misso, de José Vultos Se­queira – Edi­ções Avante



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