Os três magníficos

Anabela Fino

A ava­liar pelas no­tí­cias e co­men­tá­rios vindos a pú­blico nos úl­timos dias, os três eco­no­mistas que vão re­ceber dez mi­lhões de co­roas su­ecas (1,079 mi­lhões de euros), uma me­dalha de ouro e um di­ploma por terem sido dis­tin­guidos com o Nobel da Eco­nomia, deram um con­tri­buto ines­ti­mável à aná­lise do mer­cado de tra­balho e dos fluxos de em­prego. Con­ve­nhamos que, em ano de de­sem­prego re­corde à es­cala mun­dial (230 mi­lhões se­gundo a OIT), o tema é da maior acui­dade, em­bora seja de es­perar que o comum dos ci­da­dãos – mais dado ao co­nhe­ci­mento em­pí­rico do que a abs­trac­ções ma­te­má­ticas – se in­ter­rogue sobre a mais valia de tais co­nhe­ci­mentos, já que não im­pe­diram o de­sastre ac­tual. Uma in­ter­ro­gação le­gí­tima, está bom de ver, a que será de toda a uti­li­dade res­ponder, ainda que a res­posta ar­risque de­fraudar as ex­pec­ta­tivas.

Veja-se, por exemplo, o que nos diz o Diário Eco­nó­mico sobre o norte-ame­ri­cano Dale Thomas Mor­tensen, um dos recém lau­re­ados: apre­sen­tado como «pi­o­neiro na te­oria da pro­cura de em­prego», Dale terá re­ce­bido o Nobel «pelo seu tra­balho de in­ves­ti­gação sobre como a ri­gidez do mer­cado de tra­balho pode pro­vocar ainda mais de­sem­prego já que os de­sem­pre­gados con­ti­nuam a pro­curar sempre o me­lhor cargo, com me­lhor re­mu­ne­ração». Quanto ao ci­priota Chis­topher Pis­sa­rides, ra­di­cado no Reino Unido, terá ganho o prémio «por es­tudar os fluxos de tra­balho e o de­sem­prego, re­la­ci­o­nando a cri­ação de em­prego ao nú­mero de de­sem­pre­gados, nú­mero de vagas e in­ten­si­dade com que é feita a pro­cura de em­prego». Já no que se re­fere a Di­a­mond, outro norte-ame­ri­cano, as suas aná­lises serão as grandes ins­pi­ra­doras da re­pe­tida tese da OCDE se­gundo a qual o de­sem­prego de longa du­ração é po­ten­ciado pela «ge­ne­ro­si­dade» dos sub­sí­dios de de­sem­prego. Tanto Mor­tensen como Pis­sa­rides de­sen­vol­veram e apro­fun­daram as aná­lises de Di­a­mond, pelo que os três estão em sin­tonia quanto à forma de en­con­trar o «equi­lí­brio» no mer­cado de tra­balho. Por al­guma razão o Riks­bank (o Banco Na­ci­onal sueco), na jus­ti­fi­cação do prémio, lem­brou que o trio es­co­lhido de­sen­volveu um mo­delo que ajuda a per­ceber «a forma como o de­sem­prego, as ofertas de em­prego e os sa­lá­rios são afec­tados pelas po­lí­ticas eco­nó­micas».

Se o que atrás se disse soou de algum modo fa­mi­liar não é de es­tra­nhar. Também por cá há se­gui­dores dos agora lau­re­ados, como é o caso da mi­nistra do Tra­balho do Go­verno Só­crates, que fala de «po­lí­tica ac­tiva de em­prego» para jus­ti­ficar as al­te­ra­ções no acesso e ma­nu­tenção do sub­sídio de de­sem­prego. A ló­gica é tão li­near que nem se per­cebe para que é que se gasta um Nobel com isso: quanto menor for o sub­sídio de de­sem­prego e menos tempo durar, e quanto mais rí­gidas foram as re­gras im­postas aos de­sem­pre­gados (como por exemplo serem for­çados a aceitar tra­balho a qual­quer preço), mais de­pressa se res­ta­be­lece o «equi­lí­brio» no mer­cado de tra­balho. É o que se chama matar dois co­e­lhos de uma ca­ja­dada: poupa-se no sub­sídio e baixa-se o valor do tra­balho, já que o con­tin­gente dos que hoje se mandam para o de­sem­prego são amanhã a mão-de-obra ba­rata a re­crutar.

Atenta como sempre à con­jun­tura in­ter­na­ci­onal, a Aca­demia sueca fez o tra­balho de casa como lhe com­petia. E não foi só na área da eco­nomia.



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