A besta

Anabela Fino

A in­for­mação foi vei­cu­lada na edição de se­gunda-feira do Diário de No­tí­cias: as­cende a quase meio mi­lhar o nú­mero de me­di­ca­mentos que de­sa­pa­re­ceram tem­po­rária ou per­ma­nen­te­mente do mer­cado, muitos dos quais sem al­ter­na­tiva.

Não se pense que se trata de fár­macos mais ou menos dis­pen­sá­veis. Nada disso. Em causa estão me­di­ca­mentos fun­da­men­tais para tratar o cancro, do­enças raras e car­di­o­vas­cu­lares, que é como quem diz in­dis­pen­sá­veis para a saúde pú­blica e, se­gundo a pró­pria Ordem dos Mé­dicos, «in­subs­ti­tuí­veis porque não há ou­tros que ver­da­dei­ra­mente te­nham a mesma efi­cácia».

Para a per­gunta ime­diata que uma questão de tal monta co­loca – é bom ter cons­ci­ência de que se trata de fár­macos para de­fender a vida ou pelo menos mi­norar o so­fri­mento de seres hu­manos –, a saber, por que foram tais me­di­ca­mentos re­ti­rados do mer­cado, a res­posta é brutal: dei­xaram de dar lucro.

Lê-se e não se acre­dita. Será talvez um lapso, um exa­gero, um texto trun­cado... Mas não; o DN, que volta ao tema no dia se­guinte, cita mesmo o se­cre­tário de Es­tado da Saúde, Óscar Gaspar, que ad­mite «uma re­visão ex­cep­ci­onal» do preço a pagar por aqueles me­di­ca­mentos, al­guns dos quais não se­riam «re­vistos há dez anos». Tão sim­ples como isso, uma questão de preço, sem uma pa­lavra de in­dig­nação, sem uma nota de re­flexão sobre a po­lí­tica do me­di­ca­mento e da saúde que deixa a vida hu­mana de­pen­dente de cri­té­rios de lucro. En­quanto isso, o In­farmed (Au­to­ri­dade Na­ci­onal do Me­di­ca­mento e Pro­dutos de saúde, I.P. sob a tu­tela do Mi­nis­tério da Saúde) li­mitou-se a es­ca­mo­tear o as­sunto num co­mu­ni­cado pu­bli­cado na res­pec­tiva pá­gina ofi­cial, onde nada diz sobre as ra­zões da re­ti­rada dos 500 me­di­ca­mentos do mer­cado mas faz saber, ale­ga­da­mente para sos­segar os ci­da­dãos, que existem «al­ter­na­tivas te­ra­pêu­ticas» e que Por­tugal dispõe de «cerca de 14 000 me­di­ca­mentos au­to­ri­zados, nas suas di­fe­rentes do­sa­gens e formas de apre­sen­tação». Uma nova fór­mula de «quem quer saúde, paga-a». Quanto ao drama dos que ficam à mercê da ga­nância do lucro, os ser­ven­tuá­rios da besta ca­pi­ta­lista nada têm a dizer.



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