Pontal - farroncas e mistificações

Carlos Gonçalves

Em a «Alice no país das Maravilhas», do controverso Lewis Carrol, dizia o Dodo (um estranho passarão) para a Alice, ambos encharcados depois da queda no «mar de lágrimas»: «a melhor coisa para nos secarmos é fazermos uma corrida eleitoral».

No fundo, mais ou menos como as farroncas de Passos Coelho na festa do Pontal, onde o «líder» do PSD voltou a ameaçar com a dissolução da AR (até 9 de Setembro) e a respectiva «corrida eleitoral», advertências fantasiosas mas que visam «sacudir a água do capote» e mistificar as responsabilidades efectivas do PSD (e do PS) na situação económica e social do país, ao serviço dos grandes senhores do dinheiro.

O Pontal recupera assim uma velha tradição PSD de lançar uma qualquer mistificação para alimentar a «oposição feroz» ao PS – que, em substância, não existe, porque ambos prosseguem a mesma política e quase sempre pelos mesmos caminhos -, mas que dá muito jeito para iludir incautos e fixar as respectivas clientelas.

E, já agora, o ilusório «ultimato» do PSD - a que o PS se apressou a dar credibilidade, com a dramatização da «ameaça de crise política» -, serve também para que a candidatura de Cavaco Silva a PR alimente um novo «tabu» - se dissolve ou não a AR - e demonstre, oportunamente, a sua «isenção» e «disponibilidade» para a «convergência estratégica» com o PS.

Do Pontal 2010 sobra uma pilha de mistificações e aldrabices: que o PSD nada tem a ver com a «interferência política (e a económica?) na área da Justiça», como se não tivesse aprovado o respectivo pacto com o PS e diminuído a autonomia do Ministério Público e a independência dos Tribunais; que «o Governo não governa» porque só o líder do PSD é o «verdadeiro chefe»; que não foi o PSD que fez aprovar, mais o PS, este OE e os PECs 1 e 2, incluindo as alterações fiscais que agora afirma repudiar; que o PSD não deixará passar o OE 2011, a não ser que seja o que - se a luta o não impedir - inevitavelmente acabará por ser, porque a Comissão Europeia assim o decidiu - mais cortes na despesa e investimento do Estado, nos direitos sociais e serviços públicos, num valor mínimo de 2500 milhões de Euros, mais injustiças sociais e maior concentração e centralização da riqueza.

Este Pontal confirma um PSD mais estridente, mas com zero de novidade – vale tudo pela alternância no poder, para prosseguir e aprofundar a mesma política de direita do PS.



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