Uma falsa simetria

Correia da Fonseca

Percorremos os canais a que temos acesso, quatro se ao nosso televisor apenas chegam os tradicionais, perto de um cento ou mais ainda se já tivermos optado por vias de recepção mais alargada, e é frequente reflectirmos que o nosso esforço é inútil, isto é, que a televisão não nos fornece nada que mereça o nosso tempo, que afinal não passa de uma espécie de logro ou, pior ainda, de um suposto activo que afinal é tóxico sem que contudo seja parente muito próximo de outros activos tóxicos de que nos últimos meses muito se tem falado, embora não o bastante. Porém, não é tanto assim: se nos dermos à canseira de uma expectativa atenta e persistente, é natural que em dado momento, mesmo no quadro de um programa insignificante ou pior que isso, surja um pormenor em que valha a pena reparar, seja porque deixa transparecer uma verdade habitualmente omitida, seja por consistir numa discreta gota de veneno tendente a perturbar-nos o lúcido entendimento das coisas, seja por qualquer outra razão. Foi isso que aconteceu, por exemplo entre outros possíveis, quando, um dia destes, num dos muitos momentos de «análise política» em que a TV portuguesa se tornou abundante, estavam a opinar dois dos «experts» habitualmente convidados para essa tarefa. Um deles era António, o outro creio que era Luís, mas os nomes são aqui o que menos interessa porque o que me chamou a atenção não foi o discurso de qualquer deles na sua integralidade, de que bem se pode dizer que era o costume, mas um pormenor num deles incluído. Falava-se da reunião do Pontal, altíssimo momento da vida política nacional a julgar pela desvelada cobertura que todos os canais da TV portuguesa lhe dedicaram, e um dos convidados cometeu então o excesso de citar em simetria a chamada Festa do Pontal com a Festa do Avante!. Suponho até que não fez propriamente por mal, nestas coisas do comentário político a miopia é tão corriqueira que se torna quase um instinto.

De resto, em matéria de simetrias de matriz política há outras bem piores, tanto e de tal modo que algumas delas têm um carácter verdadeiramente criminoso. Esta, porém, parecendo corresponder sobretudo a um elevado grau de ignorância, implica uma inaceitável deturpação do carácter da Festa do Avante!, pelo que parece obrigatório registá-la e desmenti-la, pois bem se sabe que até as mais evidentes imposturas por vezes crescem as pernas e começam a andar por aí fora.


Política, mas muito mais


O que foi a chamada Festa do Pontal todos o pudemos saber pela televisão, embora as câmaras, prudentes, se tenham coibido de nos dar planos gerais que denunciariam a pelintrice do evento: uma chusma de apoiantes, uma elevada taxa de bandeiras por presença, Mendes Bota que desta vez não presenteou a assembleia com os seus dotes de cantor pré-pimba, o discurso de Passos Coelho (que, se continua a engordar, se arrisca a perder a graça), Ora, bem se sabe que a Festa do Avante! é uma coisa não só de muito maior dimensão mas também, e sobretudo, substancialmente diferente. É um momento político, é certo, mas essa dimensão, sem que deixe ser fundamental, quase se dissolve no carácter cultural que percorre a Festa de uma ponta a outra. Aliás, além do mais acontece que o esclarecimento e a lucidez no plano político são parte integrante e indispensável da cultura, pelo que não surpreende que convicções direitistas e défice cultural, quando não inteiro analfabetismo nesta área, tenham amplas manchas de sobreposição. Prova, entre outras, de que a Festa do Avante! é muito mais que uma grande reunião política é o facto, bem conhecido e muito invejado, de ser frequentada por muitos milhares de cidadãos que não se situam politicamente na área do PCP. Porém, não é preciso ir lá para o saber: a consulta do programa da Festa, a relação dos nomes dos artistas portugueses e estrangeiros que nela participam, os eventos no sector das Artes Plásticas e não só, os centros da venda de livros e discos, testemunham de um modo arrasador a diferença abissal entre o que acontece na Amora nos primeiros dias de Setembro e a reunião havida no Pontal no passado fim-de-semana. É crível que praticamente toda a gente soubesse isto, o que impossibilitaria a invocação de simetrias disparatadas. Afinal, havia pelo menos um analista político que, mesmo não sendo extraterreno recentemente chegado de outro planeta, o ignorava. Até parece caso para ficarmos a pensar.



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