Crise política em Itália

Comadres zangadas

O primeiro-ministro italiano rompeu a aliança com Gianfranco Fini, seu parceiro político desde 1994 e confundador do partido Povo da Liberdade (PDL), pondo em causa a estabilidade do governo.

Expulsão de Fini retira maioria a Berlusconi

Após meses de críticas por parte de Gianfranco Fini à acção governativa, Berlusconi decidiu quebrar o pacto que sempre ligou os dois políticos de direita e que se estreitou desde há dois anos, na sequência da fusão da Forza Italia com a Alianza Nacional neofascista, dando origem ao PDL.

Reunida no dia 29, a cúpula do partido decidiu expulsar a corrente minoritária de Fini, considerando que «já não existem condições para continuar debaixo do mesmo tecto». O documento aprovado destaca as «divergências insolúveis» com o grupo liderado por Fini, que também ocupa o lugar de presidente do Congresso. Em declarações à imprensa, Berlusconi desabafou: «Já não estou disposto a aceitar dissenções, um partido dentro de um partido».

A expulsão levou Fini a anunciar a criação de novos grupos parlamentares no senado e na câmara de deputados, ficando nas suas mãos o momento da inevitável queda de il cavaliere. Atento ao desgaste crescente do governo, Fini resolveu demarcar-se nos últimos meses das práticas arbitrárias e prepotentes da equipa de Berlusconi, manifestando em várias ocasiões o seu desacordo com o sistemático recurso a moções de confiança e a decretos como forma de contornar a tramitação parlamentar.

Porém, a gota de água foi a recente polémica sobre a chamada «lei da mordaça», na qual o governo foi obrigado a recuar praticamente à estaca zero. O projecto pretendia restringir as possibilidades de investigação dos magistrados e punir com multas e prisão os jornalistas que publicassem materiais sobre escutas ou partes de processos em segredo de justiça. No braço de ferro com Fini, il cavaliere perdeu, mas não lhe perdoou.

Um dia depois da sua expulsão, Fini veio a público para anunciar o nome do seu novo grupo: «Futuro e Liberdade pata Itália», provavelmente o embrião de um novo partido de direita. Para já o grupo dissidente conta com 34 deputados e 10 senadores, número suficiente para retirar a maioria na câmara baixa, onde antes da cisão a coligação governamental dispunha de 342 deputados em 630, mas não no senado onde tinha 174 senadores em 315.

Fini aproveitou também para deixar um aviso: «Vamos ser leais com os nossos eleitores. Continuaremos a apoiar o governo sempre que cumpra o programa e se preocupe com o interesse colectivo. Em caso contrário iremos opor-nos».


Austeridade gera constestação


A agudização das contradições no seio da maioria de direita não pode todavia ser desligada do descontentamento crescente com as políticas anti-sociais do governo.

Ainda no dia 29, o parlamento italiano aprovou gravosas medidas de austeridade, que determinam o congelamento dos salários dos funcionários públicos até 2013 e o corte de 10 por cento na administração pública.

O pacote, que pretende economizar oito mil milhões de euros por ano, foi anunciado em Maio, sendo recebido por vigorosos protestos por parte dos sindicatos e partidos de esquerda não representados no parlamento.

A contestação popular às políticas privatizadoras teve outro momento alto em 19 de Julho, quando centenas de activistas dos movimentos contra a privatização da água entregaram no Tribunal Supremo, em Roma, mais de um milhão e 400 mil assinaturas exigindo a convocação de um referendo sobre a manutenção da propriedade e gestão do precioso líquido exclusivamente no domínio público.



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