Mais de 300 mil na manifestação nacional de 29 de Maio

Força para mudar de rumo

A manifestação nacional, promovida pela CGTP-IN no sábado, em Lisboa, foi a maior das últimas décadas. O descontentamento dos trabalhadores e de outras camadas sociais afectadas pela política de direita do Governo PS teve nas ruas uma vigorosa expressão, permitindo afirmar com confiança que «é possível mudar de rumo com a luta de quem trabalha». Na resolução aclamada no final do comício sindical afirma-se também «total disponibilidade e empenho», tanto para prosseguir as batalhas em curso em empresas, serviços e sectores, como para «adoptar todas as formas de luta que a Constituição consagra».

Este é um excelente ponto de partida para novas batalhas

Eram bastante fortes e justos os motivos que levaram à marcação desta jornada, anunciada no 1.º de Maio em resposta às medidas contidas no PEC e seus sucedâneos, que agravaram as linhas já traçadas no Orçamento do Estado, apontando para a redução dos salários, das pensões e até do apoio aos desempregados, aumentando os impostos e fazendo de conta que os sacrifícios seriam para todos, sem na verdade molestar os interesses de uma ínfima minoria.

A manifestação de 29 de Maio foi precedida por meses de persistentes lutas laborais da mais diversa amplitude - como fortes manifestações distritais, ao longo do primeiro trimestre deste ano; como a manifestação da juventude trabalhadora, a 26 de Março; como as greves e manifestações na Administração Pública ou nos transportes, ou no comércio, na hotelaria, nas indústrias eléctricas, na metalurgia, em empresas de praticamente todos os sectores, incluindo alguns onde as pressões e a repressão do patronato e das chefias se fazem sentir de forma mais brutal.

Durante a última semana, as perspectivas de que esta seria uma grande manifestação foram afirmadas por vários dirigentes da CGTP-IN. Em comunicados, as uniões de sindicatos de Braga, Aveiro ou Setúbal, mas também o STAL, foram avançando informações sobre os plenários e reuniões e sobre os já confirmados números de participantes, que cimentavam as boas perspectivas. Até as declarações públicas de governantes, patrões e seus peões-de-brega, procurando desvalorizar e desmobilizar a luta, acabavam por ser o reconhecimento de que, para eles, havia motivos de preocupação...

No sábado de manhã as televisões devem ter dedicado à divulgação da manifestação mais tempo do que ao longo de toda a semana anterior. Foram espreitar os autocarros a sair dos mais longínquos distritos, falaram com dirigentes sindicais que avançaram números de participantes nunca ouvidos em jornadas anteriores, foram ouvir mulheres e homens que estavam de partida para Lisboa e que explicaram com muita clareza os seus motivos para essa atitude determinada.

Não se compreendeu por que, nos noticiários da uma da tarde, enviaram repórteres para a Praça do Marquês de Pombal, solicitando-lhes notas sobre o «ambiente» que ali se vivia... duas horas antes do início da concentração. Mas percebeu-se que, afinal, um pouco mais acima, no verde do Parque Eduardo VII, já muita gente tinha chegado e... estava a almoçar.

Antes das 15 horas, aprazadas para as pré-concentrações, já se notava nas ruas a manifestação a crescer. Vários grupos subiam apressadamente a Avenida Fontes Pereira de Melo, para se juntarem a camaradas do «sector privado», uma designação abrangente que baste para incluir todas as actividades que não fazem parte da Administração Pública. A multidão ia-se arrumando, por sectores e empresas, enchendo os passeios e, às tantas, também o asfalto, desde a Maternidade Alfredo da Costa até ao Forum Picoas e ao cruzamento com a Rua Tomás Ribeiro.

Trabalhadoras e trabalhadores dos vários sectores da Administração Pública estavam, a essa hora, a juntar-se, desde o topo da Rua Joaquim António Aguiar, em direcção à rotunda. Enfermeiros e médicos, auxiliares da saúde e da educação, técnicos e administrativos de institutos e ministérios, pessoal dos estabelecimentos fabris das Forças Armadas e empresas de defesa, pessoal das diversas áreas da administração local, bombeiros...

Eram muitos milhares e vinham de todo o País, como facilmente se percebia pelos sotaques e pelas faixas, por cartazes e camisolas, que as palavras de ordem ainda não se tinham soltado.

Pouco antes das 16 horas, avançava pela rotunda um autocarro descoberto, que carregava uma potente aparelhagem sonora e oferecia uma excelente plataforma aos fotógrafos. Seguiam-no os dirigentes da CGTP-IN, integrando a «cabeça» da manifestação. Logo atrás vinha o muito animado grupo da Interjovem. Já muita gente tinha começado a descer a Avenida da Liberdade, antecipando-se à manifestação propriamente dita, e muita mais gente se estendia nos passeios e à sombra das árvores. Da Joaquim António Aguiar e da Fontes Pereira de Melo desciam milhares e milhares...

Mais ou menos nesta altura, a agência Lusa difundia uma «notícia» que foi automaticamente repetida nas edições electrónicas de vários outros meios de comunicação, mais ou menos «de referência» - fenómeno ocorrendo indiferente à realidade que, valendo por si, até estava a ser mostrada: a manifestação tinha começado, com «centenas de pessoas» (expressão usada no título e que, no texto, já dava lugar a «largas centenas»). O número não foi corrigido. Passadas três horas e meia, ao relatar o discurso de Manuel Carvalho da Silva, lá surgiu no meio do texto a referência a «cerca de 300 mil pessoas que, segundo números da CGTP, participaram na manifestação»...

Indiferentes a notícias destas (e àquela que, horas depois, surgiu no site do Expresso ilustrada com uma única fotografia... do grupo de dirigentes e activistas do BE que desfilou na Avenida atrás da manifestação), os manifestantes deram voz e cor às suas razões. Lado a lado, ocupando toda a via central, inicialmente identificados com duas faixas da Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública e da Federação dos Transportes (Fectrans). Esta organização manteve-se, mas acabou por ser mesclada com outros tons, destacando-se as reivindicações de utentes e populações por melhores condições de saúde, mas notando-se igualmente inscrições assinalando a oposição a novas portagens rodoviárias e a presença de micro e pequenos empresários, de reformados, de imigrantes e emigrantes, representações do Movimento Democrático de Mulheres e do Movimento dos Trabalhadores Desempregados, do movimento «Paz Sim, Nato Não».

Nos carros de som e em vários grupos de manifestantes ouviram-se canções a remeter para o 25 de Abril. Frequentemente surgiram bandeiras negras, de indignação contra a situação actual.

Faixas e cartazes condenavam simultaneamente o Governo do PS, o actual executante directo das medidas do PEC e da política de direita, e o PSD, que dá agora mais abertamente o seu apoio. Numa grande tela, o Sindicato da Função Pública do Norte pintou José Sócrates e Passos Coelho em pose de danças de salão, legendando «Estes dois no tango e o povo fica de tanga».

Carvalho da Silva terminava a sua intervenção, no palco montado na Praça dos Restauradores, e ainda desciam a Avenida muitos milhares de professores, de trabalhadoras e trabalhadores do comércio e serviços, activistas do Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos, moradores dos bairros de Marvila, Olivais...

Cerca das 18.30 horas, quando foi dada por concluída a jornada, muitos dos manifestantes voltaram a subir a Avenida da Liberdade, que ainda permaneceu mais algum tempo fechada ao trânsito. Este regresso dos muitos milhares de pessoas que se dirigiam aos autocarros, no Parque Eduardo VII, simbolizava bem a nova «manifestação» que ali mesmo recomeçava: o combate de todos os dias, contra a exploração e contra os males de uma sociedade que nela ainda assenta os seus pilares, e os novos combates que, a breve prazo, vai ser necessário travar, admitindo todas as formas de luta consagradas na Constituição.


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