Na volúpia do sistema
«Não vês meu filho aquele furioso que corta com os dentes o nariz do adversário aterrado e aquele outro que esmaga a cabeça de uma mulher com uma enorme pedra? Vejo-os. (...) Criam o o direito; fundam a propriedade, estabelecem os princípios da civilização, as bases da sociedade e os alicerces do Estado.» (Ilha dos Pinguins, Anatole France).
Há personagens assim. Tão entranhados no papel que lhes atribuíram, faltando-lhes em opinião própria o que lhes sobra em papel de ventríloquos, que o que articulam ou escrevem para justificar os interesses que perfilham é tão espontâneo quanto desprezível. Na ficção ou na realidade. Será o caso de João César das Neves, ao que consta economista e até professor. Segundo ele – depois de aturada investigação académica e da desprendida e independente reflexão de que a prosa dá mostras –, «o descalabro orçamental nasceu por causa das reivindicações dos que gritam». A frase é parte da tese maior, segundo a qual «neste ambiente de crise e austeridade vive-se uma grande ilusão de óptica que é preciso acautelar: os que protestam não são as vítimas da situação». Na volúpia do sistema pelo qual está tomado, o das Neves adianta até que aqueles que protestam – os trabalhadores com emprego garantido e regalias seguras, na sua óptica – «estão muito melhor que a maioria da economia».
O mundo em que Neves se idealiza é em si a negação da formação que julga ter. Os que julgavam ver na economia satisfação das necessidades humanas, elevação das condições de vida e de direitos, utilização dos recursos materiais e da força produtiva ao serviço da dignidade do homem, desenganem-se lendo Neves. Para ele, como para o grande capital em nome de quem fala, da economia devem resultar baixos salários, ausência de direitos e instabilidade pessoal. Ah! E sobretudo abundar «os silenciosos e resignados», o verdadeiro e louvado modelo de cidadania que no imaginário de César das Neves evitará sem ondas a estabilidade orçamental e garantirá a abundância dos lucros daquela meia dúzia em nome dos quais escreve.
Há personagens assim. Tão entranhados no papel que lhes atribuíram, faltando-lhes em opinião própria o que lhes sobra em papel de ventríloquos, que o que articulam ou escrevem para justificar os interesses que perfilham é tão espontâneo quanto desprezível. Na ficção ou na realidade. Será o caso de João César das Neves, ao que consta economista e até professor. Segundo ele – depois de aturada investigação académica e da desprendida e independente reflexão de que a prosa dá mostras –, «o descalabro orçamental nasceu por causa das reivindicações dos que gritam». A frase é parte da tese maior, segundo a qual «neste ambiente de crise e austeridade vive-se uma grande ilusão de óptica que é preciso acautelar: os que protestam não são as vítimas da situação». Na volúpia do sistema pelo qual está tomado, o das Neves adianta até que aqueles que protestam – os trabalhadores com emprego garantido e regalias seguras, na sua óptica – «estão muito melhor que a maioria da economia».
O mundo em que Neves se idealiza é em si a negação da formação que julga ter. Os que julgavam ver na economia satisfação das necessidades humanas, elevação das condições de vida e de direitos, utilização dos recursos materiais e da força produtiva ao serviço da dignidade do homem, desenganem-se lendo Neves. Para ele, como para o grande capital em nome de quem fala, da economia devem resultar baixos salários, ausência de direitos e instabilidade pessoal. Ah! E sobretudo abundar «os silenciosos e resignados», o verdadeiro e louvado modelo de cidadania que no imaginário de César das Neves evitará sem ondas a estabilidade orçamental e garantirá a abundância dos lucros daquela meia dúzia em nome dos quais escreve.