O clube popular e a inaceitação do seu papel social
Enquanto nos clubes com equipas profissionais giram os milhões e se sucedem os escândalos de maior ou menor corrupção, nos clubes desportivos do bairro (os chamados pequenos clubes populares) a vida é dura. É verdade que, neles, a vida nunca foi fácil, por mais que os mais velhos nos falem de uma época dourada que ninguém consegue situar no tempo e no espaço. Não são exclusivamente do tempo presente as suas dificuldades financeiras, provocadas pela baixa capacidade financeira dos seus sócios perante a conjuntura económica que nunca foi favorável ao movimento associativo no seu todo. Contudo, talvez nunca como agora essas pequenas células da vida comunitária tenham enfrentado uma realidade tão difícil. A falta de reconhecimento do seu papel (todavia, insubstituível para o desenvolvimento do desporto e da comunidade no seu todo) alia-se, hoje, sem escrúpulos, ao descomprometimento do Estado perante uma obrigação constitucionalmente expressa. As autarquias locais, esse Poder Local também tão mal-amado, têm desempenhado um papel de substituição que, infelizmente, é precisamente isso: substitui-se ao Estado central, em lugar de surgirem como elementos complementarizadores das três funções essenciais que seriam capazes de garantir a vida dos clubes populares: o financiamento público contratualizado, o partenariato com o sector privado e os fundos fornecidos pelos próprios sócios, ou resultantes do seu esforço. Mais ou menos rapidamente, a vida mudou para estas associações num mundo globalizado, em que cada um parece ter de se agarrar ao que tem mais à mão, sem preocupações éticas, equitativas ou de simples solidariedade. Um mundo em que a comunicação passou a constituir um desafio central, absolutamente inevitável para todos aqueles que, para poderem sobreviver, necessitam de fazer passar a sua mensagem e garantir a sua visibilidade pois, sem isso, é como se não existissem, seja qual for o valor e a importância da acção que desenvolvem. Um mundo que nega, no quotidiano da vida dos cidadãos, os valores básicos que levaram à criação e funcionamento destas estruturas que se integram exclusivamente na perspectiva da economia social, ou seja aquela que não trata exclusivamente indivíduo como um «cliente» descerebrado e puramente consumista, e recusa obter o máximo lucro a todo o custo. A vida mudou para as associações, como mudou para cada um de nós, para as empresas, para a vida económica, social e cultural. Fala-se contraditoriamente e em simultâneo, em desenvolvimento e aumento da fome e do iletrismo, na melhoria das condições de vida dos indivíduos e no agravamento da injustiça social das populações. Os clubes (e as outras associações) vivem no centro destas contradições, continuando a desempenhar uma função, em especial, junto da juventude, que nem a família, nem a escola, conseguem substituir. Pelo contrário, e em especial a primeira destas duas, parece desejar que ela seja desempenhada de uma forma cada vez mais bem estruturada e generalizada, pois, se bem concebida e posta em prática, pode constituir uma importante forma de apoio à acção dos pais, complementando a actividade da escola. A resposta dos poderes públicos a esta situação é, generalizadamente, a mesma: é indispensável garantir uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos; é necessário diminuir o défice do orçamento. De uma forma «olímpica», varre-se, assim, das preocupações dos dirigentes políticos a preocupação que poderia surgir se fosse levada em consideração à importância real do serviço público fornecido às populações pelas associações populares, e esquece-se (ou, até se nega) a economia do custo social e financeiro que esta acção efectivamente possibilita em termos locais e nacionais e que nem os próprios que a realizam parecem perceber o seu real valor e importância. A contrapartida que o Estado aconselha consiste no recurso ao mecenato empresarial. Conselho que é muitas vezes acolhido com demasiada leviandade pelo próprio movimento associativo que, reflectindo as atitudes e opiniões que o envolvem, aceita, com reverência acrítica, as minguadas palavras que lhe dirigem, normalmente em tempo de eleições, e recolhe com alegre avidez as poucas «migalhas» que os «poderes» aceitam deixar escorrer depois do grande banquete (normalmente de carácter urbanístico e da construção civil mais desordenada). Naturalmente que, neste rodopio desorientador da falta de informação, do sensacionalismo em torno do espectáculo profissional, da corrupção mais ou menos encapotada por legislação feita à medida dos interesses do novo riquismo mais descabelado, aqueles que se mostram criticamente lúcidos e desejam que o associativismo assuma o papel que deve ser o seu no interior da nossa sociedade são olhados com desconfiança. Todavia, são eles que constituem a «reserva moral» do associativismo e que o fazem manter-se indomável na frente do combate ao neoliberalismo predador.