A mistificação da crise do associativismo desportivo
Os clubes desportivos surgiram na vida do País, em termos significativos, praticamente com início do século XX. Não que antes não existissem já clubes, mas a difusão do associativismo sob as suas formas culturais desportivas e recreativas da ditadura salazarista. No sector desportivo os clubes foram fundados num número elevado de casos, por elementos da burguesia e por ela controlados mas, na sua maioria, resultaram da acção dos trabalhadores que, naturalmente, deparou com enormes dificuldades, em especial durante a ditadura fascista. A partir de 1974, a participação dos trabalhadores nos «pequenos» clubes (afinal mais de 90% do número total de clubes desportivos em Portugal) acentuou-se enormemente (verifica-se um crescimento de 110% do número de clubes durante a década de 70). A verdade é que num número substancial de casos, os clubes surgiram e afirmaram-se durante o regime fascista, como uma forma de resistência à injustiça social e de luta pela prossecução de direitos fundamentais (especialmente à saúde, à educação; ao uso enriquecendo tempo livre) e pela tradução concreta dos princípios da igualdade e da solidariedade. As lutas políticas e sociais travadas desde então não marginalizaram os clubes. De tal forma isto foi assim durante esse período que o fascismo teve de criar mecanismos próprios para os controlar, quer impondo estatutos tipo, quer fazendo passar as listas das direcções pelos organismos que garantiam a «defesa do Estado» (o que põe em causa a concepção ainda hoje defendida por alguns de que «só» nos clubes desportivos se vivia democracia, o que é um sofisma completo). Sem que se possua informações seguras sobre a origem social dos dirigentes dos dirigentes e técnicos (frequentemente uma só pessoa) que dirigem e fazem viver os cerca de 10 000 clubes desportivos actuais, é no entanto possível afirmar que uma grande percentagem é constituída por trabalhadores. A percepção que a vida associativa constitui uma importante dimensão da vida social e o primeiro nível da vida democrática e local de participação, foi intuitivamente realizada pelos meios populares, logo no tempo da I República. A «explosão» na criação de novos clubes logo após o 25 de Abril de 1974 inscreve-se na preocupação das massas populares em acederem a um processo de vida social mais democrática. Todos sabemos como estas expectativas evoluíram e, por isso, não admira que a crença, a falta de perspectivas futuras e as dificuldades materiais tenham, logo alguns anos depois, começado a criar as raízes da crise actual. Esta, para ser bem compreendida no seu significado profundo, tem de passar pela clarificação dos interesses que impediram o aparecimento e a consolidação de todas as novas formas de organização popular de «base» (basta ver o que se passou com as comissões de moradores e com os conselhos municipais). Um importante conjunto de meios poderosos, integrando, com um papel central, a acção dos meios de difusão são mobilizados quotidianamente para promover a atomização da vida social, o afastamento dos indivíduos entre si e a liquidação das formas reais da solidariedade. Tudo isto procura justificar-se com a teoria do «Estado a mais» que, «invadindo» a sociedade civil impedira a expressão «livre» do jogo da oferta e da procura. É isto que se apresenta como justificação para a falta de apoio aos pequenos clubes de bairro e de aldeia. Ao mesmo tempo gritam permanentemente a crise do Associativismo, que em breve levará à sua extinção. Esta situação faz parte do processo de mistificação dos fenómenos sociais, referidos a compreensão plena dos mecanismos que os determinam. Dentro da crise de que os primeiros responsáveis são aqueles que têm detido as alavancas do poder, perante as dificuldades que ela faz viver a todas as estruturas comunitárias, é fácil lançar a confusão ideológica e mascarar as verdadeiras razões da crise e de quais são as suas verdadeiras causas. A luta pela sobrevivência do Movimento Associativo independente, na esteira das funções que historicamente desempenhou, é uma tarefa fundamental para o desenvolvimento da democracia, para contrariar os efeitos da discriminação social a que as camadas sociais mais carenciadas estão submetidas, e para criar condições de acesso a uma cultura que não esteja limitada a uns quantos privilegiados.