A identidade do clube desportivo popular
A função do clube desportivo consiste em fornecer um serviço a todos aqueles que sentem necessidades essenciais que, por si próprios, não seriam capazes de resolver. Mas esta perspectiva não chega para definir a especificidade desta função: a sociedade em que vivemos organiza o trabalho cada vez mais em pequenas unidades que suportam perfeitamente numerosos pontos de comparação com as formas de acção de muitas associações. Deste ponto de vista, é possível argumentar com similitudes indiscutíveis, que são a origem de muitas confusões. Mas numa observação mais atenta verifica-se que o clube se dedica, quase em exclusivo, àquelas actividades que fornecem uma margem de rendibilidade financeira demasiado fraca para interessar o mercado do lucro. Esta constatação pode começar a demonstrar o papel social por ele desempenhada. Evidentemente não é aqui que reside a questão central. De facto, o clube ocupa, normalmente, um «espaço social virgem» onde desenvolve a sua acção, numa zona imprecisa em que se entrecruzam as fronteiras do social, do político, do cultural e do económico. Na realidade, no caso concreto do desporto, a associação organiza-se numa zona em que se verifica uma deficientíssima acção do Estado e das outras organizações. Mas o clube, além de prestar serviços, defende um ideal. Afirma-se, por isso, numa área dominada pelo intersubjectivismo e, por isso, é levado a opor-se, a reivindicar, ou a integrar-se e a reproduzir conceitos dominantes. Por isso substitui ou relaciona-se, em larga medida, com sector público e actua como contra-poder. O que constitui um conjunto de novas situações ambivalentes. Daí decorre a constante tendência em exigir o financiamento público, e o reconhecimento de uma utilidade social específica, designada, normalmente, por «interesse público». A resposta associativa Tudo isto demonstra a complexidade da vida associativa no nosso tempo, em que a sua acção se alarga, sem cessar, a novos campos de acção. Isto faz com que ela não possa ser objecto de uma visão superficial e redutora, tão comum entre nós. O clube pode ser chamado a actuar num novo terreno social (por exemplo, na utilização do desporto como forma de luta contra a exclusão social e contra a marginalização dos jovens) ou constituindo uma estrutura de acolhimento para novas necessidades: por exemplo, as novas práticas desportivas que respondem a necessidades de evasão, risco, fruição da natureza e risco pessoal num processo de afirmação que procura contrariar o processo de massificação geral e de despersonalização pelo trabalho na «nova cidade». O clube possui, por tudo isto, uma especificidade própria. No caso do desporto verifica-se que em certas circunstâncias o modelo coubertiniano clássico foi ultrapassado devido à emergência de novas necessidades. Outros «actores», um novo tipo de dirigentes agora com vincado espírito mercantil, ao transformarem o desporto numa mercadoria (um «produto»), aplicam-lhe os métodos da moderna gestão. Cria-se, desta forma, uma forte corrente concorrencial a que o clube tem que fazer frente para poder evitar, por um lado, aquela alteração estrutural das práticas e por outro, que mantenha a capacidade de fornecer resposta a uma grande parte da população que continua a não ter capacidade para estruturar solução para as suas necessidades. Ora, somente se ele fizer uso dos princípios essenciais que distinguem um puro consumidor desportivo (um «cliente») de um «aderente» a um clube com quem estabelece laços complexos de identidade, adesão afectiva e resposta às suas necessidades, é que se poderá construir e afirmar a sua diferenciação identificadora. Ao actuar de uma forma diferente daquela que caracteriza o indivíduo isolado e a função comercial, estrutura-se uma outra forma de realizar um conjunto de actividades e de práticas em termos de serviço de interesse geral, que qualquer outro organismo, ou não conseguiria pôr de pé, ou realizaria com um sentido e um significado completamente diferentes. A resposta associativa constitui, assim, na maioria dos casos, uma forma original de reagir a necessidades reais, pessoais e/ou colectivas, para as quais não é possível encontrar forma equivalente em qualquer outra área da actividade social. O que aqui está em causa não é até o seu objecto social, que poderá pertencer, em certa medida, a uma empresa pública. Mas o que interessa agora é a «forma» como esse objecto é conseguido e o conteúdo dos processos utilizados.