Sob suspeita

Correia da Fonseca
A televisão tem vindo a dar-nos muitas notícias sobre o Haiti. Entende-se: aconteceu por lá uma terrível catástrofe e, além de que a TV gosta muito de catástrofes, a gigantesca dimensão desta justifica bem a atenção dos media. A maior parte das notícias chegadas narra-nos com imagens e palavras os horrores que se abateram sobre a população e, um pouco de caminho, explica-nos que os efeitos imediatos e mediatos do cataclismo são agravados pela pobreza da maioria dos habitantes e também pela fragilidade das construções que, como bem se entende, é uma outra forma de pobreza. Terá sido em consequência dessa generalizada fragilidade que aluiu o palácio presidencial (de onde estava ausente o presidente sem que ficasse a saber muito bem o motivo da ausência, o que não será importante) e que ruíram as cadeias, de onde se terão escapado milhares de presos. Pelo que nos foi contado, todos eles eram delinquentes mais ou menos perigosos que no meio do caos produzido pelo abalo se lançaram a práticas de saque e violência, o que é muito plausível e seria mesmo inevitável. Porém, por vias não televisivas chegam notícias acerca de outro tipo de prisioneiros, gente relacionada com os acontecimentos registados no Haiti nos últimos anos e com a intromissão norte-americana na vida política do país. Ao menos por uma questão de rigor, já que de presos em fuga se falava, teria sido adequado que fôssemos informados sobre este ponto, até para que a nossa agora tão recomendada solidariedade com o povo haitiano ultrapasse o âmbito da caridade devida aos pobrezinhos atingidos por uma enorme desgraça. Mas essa informação não chegou. Quando muito, houve umas imprecisas referências à hegemonização do auxílio ao Haiti por parte dos Estados Unidos, mas o facto há-de ter sido atribuído à proximidade geográfica e, é claro, ao bom coração norte-americano, sempre disponível para ajudar os mais fracos. Ficou em omissão, pois, essa tarefa de raspar o bom aspecto da intervenção USA para apurar se por debaixo dela terão estado motivações menos nobres. Se, por exemplo, não se depararia uma estória relativamente antiga exalando um forte cheiro a petróleo.

Uma espécie de comichão

Também nos dias recentes e para lá do caso haitiano, a televisão falou-nos, num registo naturalmente bem diferente, do Afeganistão. Para tanto houve uma motivação nacional: a partida para aquele país de uma força militar portuguesa que inclui uma Companhia de Comandos. Já antes, como é sabido, haviam sido enviados para o Afeganistão militares portugueses, mas esta será a primeira vez em que partem militares especialmente treinados para os combates mais duros e, portanto, mais perigosos. Aliás, essa maior perigosidade foi explicitamente referida na TV. Coincidentemente, foi anunciada a transmissão pela SIC Notícias, às duas horas da madrugada de terça-feira, incluída na habitual rubrica «Toda a Verdade», de uma reportagem portadora de um título que se diria de mau agouro: «Afeganistão – Uma Guerra Perdida?». Curiosamente, uns dias antes, na mesma rubrica, uma outra reportagem fornecera uma imagem da militância islâmica sensivelmente diferente da que é habitual ser-nos fornecida. Mas é claro que de qualquer modo se compreende lindamente o envio de militares portugueses para tão longe: se, como toda a gente sabe, os Estados Unidos foram atacados há já oito anos por islâmicos de mau feitio, é natural que partamos a ajudar, pois para ajudarmos os Estados Unidos é que estamos aqui. Porém, é preciso registar que um outro assunto chegou recentemente à TV portuguesa com algum relevo (para lá do pequeno telenovelismo que rodeou o Orçamento Geral do Estado, pois, como disse o outro senhor, há mais vida para além dele): o Caso da Falsa Pandemia. Aqui, a questão central a deslindar um dia, ou talvez não, é o de sabermos se a Organização Mundial de Saúde, organismo de óbvia importância e em princípio de respeitabilidade à prova de fogo, foi ou não contaminada pelo vírus da pantominite comercial. Não é uma questão tão dramática quanto as outras duas, mas é sem dúvida muito grave. Digamos que provoca uma espécie de comichão dificilmente suportável. E que, tal como a profunda motivação norte-americana no Haiti e a condução da guerra contra os taliban, até a OMS esteja sob suspeita sem que encontremos na TV dados que nos permitam aceder à verdade das coisas ao menos por agora, é terrivelmente incómodo.


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