As chaves do horror

Jorge Messias
Os sofrimentos arrepiantes por que passa o povo do Haiti despertam, como é evidente, sentimentos de solidariedade humana. Não devemos, no entanto, furtar-nos a recolher e classificar informação do que se está a passar, não na perspectiva da causas das catástrofes naturais, mas a partir dos factos sociais, políticos e religiosos que estão na base da instalação da actual situação de anarquia e miséria num país onde o povo é tratado como se fosse gado.
Quando o castelhano Cristóvão Colombo descobriu a América (1492) defrontou-se com uma nação dos índios Taíno, que pareciam nadar em oiro. Chamavam à sua terra Ayiti. Colombo chacinou os índios, apropriou-se das minas de oiro e mudou para Hispaniola o nome da terra índia. Estabeleceu uma força armada de ocupação e os missionários católicos baptizaram à força os índios escravizados. A ocupação espanhola manteve-se até 1697. Entretanto, dizimados os povos índios, procedeu-se à importação maciça de escravos africanos que garantiram aos senhores europeus a mão-de-obra necessária à exploração mineira.
Entretanto, nesse mesmo ano, a Espanha concluiu com a França um tratado que repartia entre as duas potências as terras de Hispaniola: a França ficou com a parte ocidental (Santo Domingo, a actual República Dominicana) e a Espanha com o restante território. O preço do oiro tinha caído muito e grande número de veios e de minas estavam esgotados. A defesa da economia europeia impunha assim o recurso à produção agrícola extensiva. Foram arrebanhadas multidões de escravos africanos que passaram a trabalhar a terra e a exportar para a Europa o açúcar, o tabaco, o milho, o sisal e o café. Os escravos eram tratados da forma mais desumana.
Em 1791, comandados por Louverture - o «Espartacus Negro» - os escravos revoltaram-se. A guerra da independência durou 13 anos de inenarráveis horrores e levou Napoleão a enviar para a ilha um exército de 43 mil soldados do exército francês treinados no combate. Os escravos enfrentaram-nos e derrotaram-nos. Morreram nessa guerra mais de 150 mil escravos e 70 mil franceses. O nome de Santo Domingo foi então mantido, enquanto que para a outra jovem nação se recuperou a antiga designação índia de Haiti.

Então e agora, pelas mesmas razões...

A independência do riquíssimo Haiti apenas foi reconhecida pela França em 1825. Mas Napoleão exigiu, como contrapartida, que o Estado haitiano pagasse à França 150 milhões de francos, a título dos prejuízos causados pela perda de escravos! O Haiti pagou e passou a abrir as fronteiras aos imigrantes europeus e norte-americanos. Todos exigiram então do Estado rios de dinheiro e privilégios. Multiplicam-se os golpes de Estado, os crimes, as traições e a corrupção.
Em 1888, 1915, 1934, 1937 e noutros anos, os norte-americanos ocuparam militarmente o território do Haiti, com a sua Guarda Nacional e os seus «marines». Desmantelaram o aparelho administrativo, destruíram florestas e plantações, abriram auto-estradas e estabeleceram linhas de montagem industriais. Depois, entregaram o poder a François Duvalier – o tenebroso Papa Doc – que durante 15 anos, até 1971 governou cruelmente, apoiado pela sua milícia fascista - os Tonton Macoutes. Generalizou-se a corrupção e a miséria galopante. Golpes e golpes militares, intervenções norte-americanas e da ONU (sob a capa de promover a estabilização política e a ajuda humanitária) passaram a constituir o dia-a-dia do massacrado povo do Haiti.
Em toda esta longa procissão de terror, o Vaticano tem surgido de mão-dada com a administração americana. Grandes ordens religiosas, como por exemplo a Dominicana e os Jesuítas, controlam extensas terras e a Santa Sé silencia perante os crimes dos mais fortes. À corrupção somam-se as torturas, os assassínios políticos e a miséria do povo.
No entanto, declarou há dias o Bispo de San Sebastian: «O que acontece no Haiti não é o pior de tudo. Mais grave é o materialismo e a perda de espiritualidade no Ocidente»!... É a perspectiva católica mais fundamentalista e desumana.
Contudo, o povo do Haiti é forte. Endureceu no combate, permanente e sem quartel, ao longo de gerações. Há-de vencer. As lutas prolongadas produzem a unidade e o que se passa no Haiti e no conjunto da América Latina é uma luta de classes de gigantescas dimensões.


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