Afinal porquê a crise?

Aurélio Santos
Fala-se muito na desregulação do sistema financeiro, em produtos tóxicos ou na bolha de crédito mal parado. E o cidadão fica perguntando qual é afinal a causa da crise.
Adam Smith, o grande economista do equilíbrio perfeito entre a oferta e a procura decerto se espantaria com a arrogância dos que querem dar comandos ao mundo a partir de um omnipotente «mercado global». Mas vejamos: há mais de 150 anos o cidadão Karl Marx já falava sobre as crises do capitalismo. São, dizia ele, crises de sobreprodução em relação à capacidade de consumo solvente. Isto é: em relação à capacidade de pagamento de que a população dispõe.
E aqui entra contradição insuperável do capitalismo:
É que, ao mesmo tempo que desenvolve a capacidade produtiva do homem, com a apropriação privada da mais-valia provoca uma pauperização crescente à escala mundial e nos próprios países capitalistas. E daí a queda de consumo solvente de que Marx falava.
O «crédito fácil» criou a ilusão de que a capacidade de consumo crescia e soprou a «financeira». Expressão, tal como os «produtos tóxicos», da ganância de lucro de que o capital é inseparável.
Como aditamento vale a pena acrescentar:
Quando a pretexto da crise se esmaga o valor da força de trabalho para aumentar os lucros – diminuindo assim a capacidade de consumo solvente – o capitalismo está preparando novas e mais graves crises para o futuro.


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