Quando a música depõe
Na impossibilidade de suportar sem o risco de depressões a programação da TV portuguesa quando da passagem do ano (lato senso: na noite de 31 e ao longo dos dias 1 e seguintes), houve quem decidisse emigrar para os canais acessíveis por cabo e aí procurar refúgio na chamada «grande música». Ou «clássica», ou «de concerto», ou como melhor se queira. É certo que a RTP1 transmitira no primeiro dia do ano o habitual Concerto de Ano Novo, não em directo de Viena, como foi feito por diversas estações civilizadas, mas em diferido e com abundantes interrupções para diversos fins. Mas a música dos Strauss, ainda que simpática e saborosa, está longe de ser sublime, além de ter adquirido uma carga ideológica que pode suscitar algum fastio aos mais exigentes nessa matéria. Felizmente, o cabo permitia alternativas. Sobretudo o canal Mezzo, que não sendo já o que foi nos bons velhos tempos em que se chamava Muzzik, ainda justifica por si só a posse e o uso de um televisor. Isto não desfazendo noutros canais, entenda-se. E, se a memória não me engana, foi precisamente no Mezzo que pôde ser encontrada, e por mais de uma vez ao longo dos referidos dias, a Orquestra Sinfónica Juvenil Simon Bolívar regida pelo seu maestro, Gustavo Dudamel. Ouvindo-a e olhando-a, foi inevitável lembrar o que para gente como nós, euroatlânticos e desenvolvidos, tem a aparência de um milagre acontecido sem escala por Fátima: a emergência num país pobre e supostamente atrasado de uma prática musical sinfónica de tal modo generalizada que já integra cerca de cento e cinquenta mil executantes jovens, arrancados pelo amor da música ao quotidiano sem horizontes da pobreza. E manda a honrada objectividade dizer que diversificadas opiniões sustentam que a dimensão actual deste surto não teria sido atingida sem o apoio que lhe foi dado pelo presidente Chavez.
Uma concreta intimidade
Porém, o Mezzo não proporcionou apenas a Orquestra Simão Bolívar e o seu maestro: ao longo dos tais dias, tal como aliás o vem fazendo ao longo dos meses, deu-nos Beethoven e Mahler, Bach e Britten, Purcell e Chostakovitch, sei lá quem mais! Pelo menos em uma das vezes, pasme-se, em gravação efectuada em Moscovo quando esta cidade era ainda a capital da URSS, e noutros casos com solistas russos decerto formados antes de 91. Então, quase inevitavelmente, surgiu alguma reflexão acerca do inegável carinho dispensado na União Soviética à melhor música composta pelos homens ao longo dos vários séculos. Ao que consta, as coisas na Rússia são hoje um pouco diferentes com a triunfal entrada da música pop/rock de raiz ocidental nos gostos de grande parte da juventude, por sinal em simultâneo com o domínio da chamada economia de mercado e costumes conexos. Mas diversos e averiguados factos atestam a sobrevivência do gosto pela música que atravessa os tempos e resiste às modas induzidas pelas campanhas comerciais. Talvez não por acaso, talvez porque essa música responda a qualquer coisa de profundo e perene, porque esteja em sintonia com o próprio tecido da condição humana. E aqui deparamos porventura com uma espécie de implícito depoimento surgido como subproduto de um período histórico num grande país: o culto por essa música, o seu usufruto por grandes massas populacionais, o carinho que lhe foi dedicado ao duplo nível do ensino e da divulgação, tem todo o aspecto de integrar uma prática humanista até então sem precedentes. Acresce o entrosamento entre essa grande música e importantes factos colectivos: consta que a estreia da 7.ª.Sinfonia de Chostakovich aconteceu em Leninegrado, no ano de 41, enquanto na sala ainda era audível, vindo de fora, o troar do canhoneio. Então, a concreta intimidade entre a arte e a vida terá atingido um nível verdadeiramente dramático. E também aí reside um depoimento capaz de suscitar reflexão. Aliás, recuando no tempo sempre encontraremos situações de claro entendimento entre a música e a respiração histórica dos povos empenhados na construção de sociedades melhores. É que a música, aquela música que tanto e tão amplamente se fazia e ouvia em Moscovo e nos seus «arredores» alongados até Vladivostoque, que em maior ou menor grau aí continua a ser executada e respeitada, não se confunde com a mercantilização dos sons fáceis e efémeros. Perdura. Como os projectos humanos de que, em certos momentos, quase pareceu funcionar como não assumida companheira sonora.
Uma concreta intimidade
Porém, o Mezzo não proporcionou apenas a Orquestra Simão Bolívar e o seu maestro: ao longo dos tais dias, tal como aliás o vem fazendo ao longo dos meses, deu-nos Beethoven e Mahler, Bach e Britten, Purcell e Chostakovitch, sei lá quem mais! Pelo menos em uma das vezes, pasme-se, em gravação efectuada em Moscovo quando esta cidade era ainda a capital da URSS, e noutros casos com solistas russos decerto formados antes de 91. Então, quase inevitavelmente, surgiu alguma reflexão acerca do inegável carinho dispensado na União Soviética à melhor música composta pelos homens ao longo dos vários séculos. Ao que consta, as coisas na Rússia são hoje um pouco diferentes com a triunfal entrada da música pop/rock de raiz ocidental nos gostos de grande parte da juventude, por sinal em simultâneo com o domínio da chamada economia de mercado e costumes conexos. Mas diversos e averiguados factos atestam a sobrevivência do gosto pela música que atravessa os tempos e resiste às modas induzidas pelas campanhas comerciais. Talvez não por acaso, talvez porque essa música responda a qualquer coisa de profundo e perene, porque esteja em sintonia com o próprio tecido da condição humana. E aqui deparamos porventura com uma espécie de implícito depoimento surgido como subproduto de um período histórico num grande país: o culto por essa música, o seu usufruto por grandes massas populacionais, o carinho que lhe foi dedicado ao duplo nível do ensino e da divulgação, tem todo o aspecto de integrar uma prática humanista até então sem precedentes. Acresce o entrosamento entre essa grande música e importantes factos colectivos: consta que a estreia da 7.ª.Sinfonia de Chostakovich aconteceu em Leninegrado, no ano de 41, enquanto na sala ainda era audível, vindo de fora, o troar do canhoneio. Então, a concreta intimidade entre a arte e a vida terá atingido um nível verdadeiramente dramático. E também aí reside um depoimento capaz de suscitar reflexão. Aliás, recuando no tempo sempre encontraremos situações de claro entendimento entre a música e a respiração histórica dos povos empenhados na construção de sociedades melhores. É que a música, aquela música que tanto e tão amplamente se fazia e ouvia em Moscovo e nos seus «arredores» alongados até Vladivostoque, que em maior ou menor grau aí continua a ser executada e respeitada, não se confunde com a mercantilização dos sons fáceis e efémeros. Perdura. Como os projectos humanos de que, em certos momentos, quase pareceu funcionar como não assumida companheira sonora.