De súbito, um livro
O projecto era que estas colunas se ocupassem hoje, mais uma vez, do programa «Prós e Contras», que aliás se anunciara com um título aparentemente voltado para as dificuldades acrescidas que ultimamente têm desabado sobre os duramente experimentados cidadãos do nosso País. Acontece, porém, que o «Prós e Contras» já cansa um bocado, o que não é de modo nenhum irrelevante, e essa circunstância enfraquecia a escolha antecipadamente feita. Também que o homem põe mas a TV dispõe. Ora, ia a tarde daquela segunda-feira ainda no seu princípio, eis que a deriva do zapping trouxe ao televisor o Discovery Civilization Channel e me apercebi de que ia começar ali a rubrica Grandes Livros. Pouco habituado a que a televisão me venha falar de livros, resolvi ficar por ali. O livro que iria ser tema do programa era o «In the Earth of the Darkness», («O Coração das Trevas», ed. Nova Vega, na tradução portuguesa), que nunca li e cujo tema só muito sumariamente conhecia. Aliás, só muito de raspão passei pela obra de Conrad: «Lord Jim» e «O Negro do Narcissus» foi tudo quanto dele li, não sei porquê, talvez por falta de apetência, talvez por o autor ser polaco ainda que escritor de expressão inglesa. Aliás, ando desconfiado de que desde há uns tempos se me alojou na cabeça um injusto preconceito desfavorável em relação aos polacos, suspeito de que desde que João Paulo II foi entronizado na cadeira de S. Pedro e a partir dali se meteu na política de colaboração com o arcebispo Marcinkus e outros de quem nem sei o nome. Mas vamos ao que interessa, que é o programa do Discovery acerca do «In the Earth of Darkness». De caminho, perdoe-se-me a pequena deriva individualista acerca do que leio ou não leio, foi só para justificar a ignorância acerca do que adiante será referido.
Onde se fala de traição
O programa, integrado na série Grandes Livros de que a RTP2 nos deu em tempos uma pequena amostra, era verdadeiramente notável, o que não me surpreendeu: coisa de sabor inglês, era mais um sinal de como a televisão britânica é capaz de fazer obra asseada quando a tanto se mete. Surpresa, isso sim, foi para a minha ignorância o tema do livro. De Conrad sabia que, saído da Polónia natal, atravessara mares e correra mundo, dessa experiência colhendo material para o que seria a sua obra literária. Tinha também uma ideia de que ele estivera no Congo então dito belga, designado por Reino Livre do Congo e pertencente ao rei Leopoldo II como se fosse uma espécie de grande quinta privada subarrendada a empresas coloniais. O que eu não sabia, porém, era porventura o mais importante: que «In the Earth of Darkness» é uma indignada obra impregnada de um anticolonialismo que em 1902, ano da publicação do livro, estava longe de se usar, o que transforma Joseph Conrad numa espécie de pioneiro da denúncia literária das infâmias do colonialismo. Não, decerto, nos termos em que a mesma luta seria assumida por outros escritores mais de meio século depois, mas com um vigor que o documentário apontava com impressionante clareza. Enquanto o ia vendo, ia eu recuperando a certeza que já se vai diluindo sob o efeito quotidiano de vagas sucessivas de mediocridades, quando não de coisas piores, cuja ingestão se tornou o inevitável destino de qualquer telespectador assíduo: a certeza de que a televisão podia ter sido, ainda poderia ser, uma admirável e excelente janela para a beleza e o entendimento. E que só não o é porque a isso se opõem os que a comandam a partir de cadeirões privados ou públicos, sem significativa distinção entre uns e outros. É certo haver agora quem sustente que o grande tempo da TV já passou, que o seu reino já não é deste mundo por ter cedido o trono a outras formas de comunicação sedutoras das gerações mais recentes. Será assim. Mas parece claro que designadamente a Net, campeã das comunicações bilaterais embora não só, não tem a capacidade de culturalização ampla que a TV ainda potencialmente mantém e que podia ter resultado numa transformação positiva do nível cultural das populações se não tivesse sido aprisionada, primeiro, e atraiçoada, depois. Porque é de traição que se trata. Em prejuízo de cada um de nós.
Onde se fala de traição
O programa, integrado na série Grandes Livros de que a RTP2 nos deu em tempos uma pequena amostra, era verdadeiramente notável, o que não me surpreendeu: coisa de sabor inglês, era mais um sinal de como a televisão britânica é capaz de fazer obra asseada quando a tanto se mete. Surpresa, isso sim, foi para a minha ignorância o tema do livro. De Conrad sabia que, saído da Polónia natal, atravessara mares e correra mundo, dessa experiência colhendo material para o que seria a sua obra literária. Tinha também uma ideia de que ele estivera no Congo então dito belga, designado por Reino Livre do Congo e pertencente ao rei Leopoldo II como se fosse uma espécie de grande quinta privada subarrendada a empresas coloniais. O que eu não sabia, porém, era porventura o mais importante: que «In the Earth of Darkness» é uma indignada obra impregnada de um anticolonialismo que em 1902, ano da publicação do livro, estava longe de se usar, o que transforma Joseph Conrad numa espécie de pioneiro da denúncia literária das infâmias do colonialismo. Não, decerto, nos termos em que a mesma luta seria assumida por outros escritores mais de meio século depois, mas com um vigor que o documentário apontava com impressionante clareza. Enquanto o ia vendo, ia eu recuperando a certeza que já se vai diluindo sob o efeito quotidiano de vagas sucessivas de mediocridades, quando não de coisas piores, cuja ingestão se tornou o inevitável destino de qualquer telespectador assíduo: a certeza de que a televisão podia ter sido, ainda poderia ser, uma admirável e excelente janela para a beleza e o entendimento. E que só não o é porque a isso se opõem os que a comandam a partir de cadeirões privados ou públicos, sem significativa distinção entre uns e outros. É certo haver agora quem sustente que o grande tempo da TV já passou, que o seu reino já não é deste mundo por ter cedido o trono a outras formas de comunicação sedutoras das gerações mais recentes. Será assim. Mas parece claro que designadamente a Net, campeã das comunicações bilaterais embora não só, não tem a capacidade de culturalização ampla que a TV ainda potencialmente mantém e que podia ter resultado numa transformação positiva do nível cultural das populações se não tivesse sido aprisionada, primeiro, e atraiçoada, depois. Porque é de traição que se trata. Em prejuízo de cada um de nós.