A grande ofensiva

Correia da Fonseca
Foi o 20.º aniversário do derrube do chamado Muro de Berlim, e o grande capitalismo atlântico não deixou escapar a oportunidade: desencadeou a maior ofensiva de propaganda anticomunista dos últimos anos. Quando do décimo aniversário do mesmo acontecimento não houvera nada de parecido. Não será mau discorrer sobre o motivo da diferença e, como é natural, procurá-lo na mudança de circunstâncias. Em 1999, o capitalismo ainda aparentava saúde, ostentava boas cores, tudo parecia correr-lhe bem. Agora, porém, as coisas não estão assim. Há um pouco mais de um ano explodiu uma crise financeira de tal dimensão que regressaram à superfície as grandes dúvidas acerca da eterna sobrevivência do sistema capitalista mundial. Aconteceu mesmo que vozes insuspeitas voltaram a falar de Marx e do marxismo, a denunciar como imbecil a fé na capacidade do Mercado para corrigir todos os males por ele próprio gerados. O imperialismo norte-americano anda enrodilhado em derrotas ou embaraços em diversos lugares do mundo. Com tudo isto, e isto não será tudo, as gentes podem perscrutar o futuro e aperceberem-se de que, afinal, não apenas o projecto comunista não morreu como está lá, nesse futuro que será a única alternativa para a barbárie revestida por tecnologias de ponta. Era, por tudo isto, a altura de lançar uma grande ofensiva propagandística, um bombardeamento intenso a glosar o boato de que o comunismo já corroído por doença incurável morrera em Berlim em Novembro de 1989, sendo meras fases de decomposição cadavérica tudo o que se lhe seguiu. Mobilizado o gigantesco aparelho mediático, foi o que se viu, ouviu e leu. Não apenas no passado 9 de Novembro, mas ao longo de vários dias. E nós, em Portugal, tivemos a nossa parte na ração tóxica que foi distribuída por todo o mundo.

A vitória do consumismo

Ao longo de dias, os diversos canais que consubstanciam a televisão portuguesa despejaram em nossas casas, repetidos até à exaustão, as imagens de Novembro de 89 e os comentários corroborantes da impostura segundo a qual a RDA seria o país da miséria e uma terra de escravos. Chegou a coisa ao ponto de «Câmara Clara», o programa de conteúdos culturais da RTP2 que por norma se abstém de alinhar em práticas reles, ter organizado um debate caracterizado por uma falsa simetria ideológica a simular isenção. De facto, isenção foi o que não houve ao longo de dias quanto a este assunto: de tudo quanto pude ver e ouvir, e acredite-se que estive sempre mobilizado para acompanhar a manobra, dei-me conta de brevíssimos depoimentos lúcidos de três ou quatro portugueses que conheceram a RDA e de um testemunho mais longo e mais sólido, o do jornalista João Ferro, transmitido pela RTPN para proveito da minoria com acesso à televisão por cabo. Graças a eles, um telespectador atento e não previamente intoxicado terá recebido a confirmação do fundamental: a RDA, construída sobre um território pobre, destruído pela guerra, ainda minado pelos anos da intoxicação nazi, infiltrado por agentes ocidentais (lembram-se dos livros de John Le Carré?) garantia aos seus cidadãos o essencial: a habitação e o emprego, a escolaridade e a saúde, a cultura e a justiça social. Em frente, reluzente de luxos e outras tentações, estava a RDA, guarda avançada de todas as pressões capitalistas. Em verdade, o derrube do Muro de Berlim não foi a vitória da liberdade, como agora se apregoou, mas sim a vitória da avidez consumista. E esta diferença é decisiva.

Um debate para raros

Na tarde do dia 9, com repetição pela madrugada, a SIC Notícias deu-nos um debate «de luxo» entre Miguel Urbano Rodrigues e Adriano Moreira. Então era, sim, o confronto entre duas convicções opostas. Os decerto raros que tiveram a sorte de o acompanhar puderam aprender com Miguel Urbano as circunstâncias que precederam a construção do Muro e as razões impositivas que o justificaram, elementos fundamentais para o entendimento do que se passou e que sempre nos foram ocultados pela comunicação social dominante: Ialta, Potsdam, Tratado do Atlântico Norte, precedência da proclamação da RFA sobre a da RDA, recusa ocidental da proposta da URSS em 52 no sentido de uma reunificação para uma Alemanha neutral e desarmada. Infelizmente, o debate deslizou depois para aspectos posteriores a 89, de abordagem interessante mas de algum modo à margem do tema central. Mas continuou a ser o melhor que aquele dia televisivo nos deu.


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