Bacon - O retratista de uma sociedade terminal

Manuel Augusto Araújo
A beleza ou será convulsiva ou não será nada.
André Breton


Francis Bacon, leitor compulsivo de Ésquilo, Shakespeare e T.S.Elliot, pretendia ser um criador de mitologias modernas em relação directa com o seu tempo e as suas múltiplas convulsões. Do caos absoluto do seu atelier, Bacon emergia de todos os detritos que acumulava para pintar, sem esboços ou estudos prévios, com uma obstinação inteligente e uma indefinível fúria de imprecações às portas do mundo.
«A minha pintura é a tentativa de capturar a evidência através do conjunto de sensações que uma certa particularidade das evidências me provoca»; e Bacon logo rejeita «o glacial desvio da arte moderna na direcção do abstraccionismo». O que, sendo um pintor distante e mesmo adverso a qualquer lirismo, o aproxima de Paul Klee, pintor formalmente muito longe de si e onde o lirismo é um traço intensamente brilhante, mas que também se distancia do abstraccionismo, «a arte abstracta está vazia de pathos, não tem alma», e esta posição crítica também os afasta de outras tendências e conduzem-nos a construir talvez os percursos mais marcadamente individuais da pintura contemporânea.
Francis Bacon era um pintor realista que considerava que «o realismo, na sua expressão mais profunda, é sempre subjectivo», pelo que não se deve confundir o realismo na arte com a vontade de traduzir com linguagens persuasivas o que existe objectivamente até porque o que mais lhe interessava eram «as realidades interiores».
A pintura de Francis Bacon vê-se como nenhuma outra pintura se deixa ver. Vários são os instrumentos, materiais e imateriais, de que o pintor se serve para atingir os seus objectivos.
Construindo quadro a quadro um universo paroxístico que tem tudo a ver com a sua relação física com a vida, com a intensidade como a queria viver e com as contradições que o atravessavam, politicamente um conservador a roçar o reaccionarismo com um profundo desprezo pelos seus pares ideológicos, e um subversor social que esbanjava energias nas boémias dos submundos, do que sobrava um dandy cínico que pintava compulsivamente cumprindo um horário com rigor quase operário e que destruía, há anos em que não sobreviveu um único quadro, com a mesma vontade com que pintara os quadros que não o satisfaziam.

Um teatro de operações

Numa pintura que despreza todos os elementos que possam ser confundidos com a trivialidade decorativa, os objectos quando surgem são sobretudo elementos que possibilitam a datação da obra.
A tela é assumida como um teatro de operações onde o pintor actua empunhando falicamente os pincéis para, em golpes de uma intencionalidade quase malévola, representar a realidade viva do ser humano, que é a sua obsessão e o seu, quase único, tema, usando um processo de cirurgia psicológica - «quando olho para ti do outro lado da mesa, não te vejo só a ti, vejo uma emanação e tudo o resto» - sobre o corpo, transfigurando-o, «libertando o elemento animal do humano».
A luz não é nem artificial, com a frialdade da luz eléctrica que endurece os ângulos e apaga profundidades, nem natural, com a densidade solar que modela as formas e matiza as colorações. É uma luz inventada, que apaga todos os caminhos de fuga com uma crueza levada aos limites e uma temperatura de cor brutal que penetra a carne desnudando-lhe os desejos.
A tela é um campo neutro quase em eclipse onde, por vezes, surge ou uma trama geométrica ou as arestas de uma caixa ou sinais apontadores ou cortinas em largas e ligeiras pinceladas, elementos que ainda mais acentuam a desolação desse espaço ardido, árido e que fazem com que o plano do quadro pareça sempre escasso para a vontade de blasfemar do pintor. Não é estranho a essa vontade a recorrência ao formato tríptico numa alusão a figurações religiosas que mesmo quando são directamente referidas, as Crucificações, nada têm a ver com a iconografia de cristã mas com o seu carácter ritual.
Mas é assim que Bacon com violência quase selvagem torna incandescentes os corpos, sempre únicos em cada quadro para que o nosso olhar seja obrigado a neles se fixar e neles penetrar e, ambiguamente, sinta que está a ocupar o lugar que foi ocupado pelo pintor quando este ataca a tela para com crueza dissecar o lado sombrio do homem.
É uma pintura de obsessões com as evidências de uma sociedade em desagregação e com o sentimento de perda do próprio Bacon. É uma pintura de auto-retratos por interpostos modelos em que os pormenores do corpo são feitichizados para melhor sublinharem uma terrível solidão. Uma pintura que deseja que a leitura que promove atinja a lucidez racional onde se destroi qualquer traço de adesão sentimental.


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