Milagre desvanecido
Durante os anos 90, a Irlanda foi apresentada pela generalidade da direita como um exemplo a seguir. A sua fórmula, baixos impostos para o capital e desregulamentação laboral, foi seguida por vários países sobretudo no Centro e Leste europeu. A crise bateu-lhes à porta.
Austeridade para o povo, baixos impostos para o capital
O «tigre celta» como foi apelidada por todos os defensores do ultraliberalismo, não é hoje mais do que um gatinho assustado. Depois de na década de 90 ter registado um crescimento anual médio de sete por cento, a Irlanda foi o primeiro país da União Europeia a entrar em recessão. Em 2008, o seu produto interno bruto decresceu 2,6 por cento e para este ano as previsões anunciam um tombo ainda maior, cerca de oito por cento. Em 2010 a economia deverá continuar a contrair-se e ninguém sabe ao certo quando voltarão os tempos do crescimento. Se voltarem, será preciso muitos anos para recuperar este catastrófico retrocesso económico.
Necessariamente, as causas da crise radicam no modelo que originou o boom. Se nos anos 90 os investidores e multinacionais foram atraídos pela perspectiva de fabulosos lucros, hoje a saturação dos mercados leva-os a procurar outras paragens, como fez o grupo informático norte-americano Dell que já anunciou a transferência das suas actividades para a Polónia.
As consequências sociais são a condizer: o desemprego já roça os 11 por cento e continuará a agravar-se, prevendo-se que atinja 14 por cento da população activa até ao final do ano. A diminuição da actividade económica, a par da falência do sistema bancário, esvaziou os cofres do Estado, transformando bruscamente folgados excedentes orçamentais em pesados défices, que as actuais e próximas gerações de trabalhadores irão pagar com o seu suor.
Anunciando o que aí vem, no passado dia 7, o ministro das Finanças, Brian Lenihan, fez acompanhar as suas sombrias previsões de severas medidas anti-sociais que custarão caro à esmagadora maioria dos 4,4 milhões de habitantes do País. Sem esta «acção correctiva», afirmou o governante, o défice orçamental seria de 12,75 por cento em 2009. A «correcção» permitirá baixá-lo para 10,75 por cento. A diferença será arrancada ao povo por meio de novos impostos e de cortes nas despesas sociais do Estado. Este regime de austeridade deverá acentuar-se nos próximos anos, já que as contas do Estado têm de regressar aos «saudáveis» três por cento do PIB, o mais tardar, até 2013.
Capital favorecido
Ao mesmo tempo que reconhecia que o país assiste a «um sério declínio dos padrões nacionais de vida, Lenihan fez questão de assegurar o capital de que, para ele, nada mudará. A taxa sobre os lucros será mantida nos 12,5 por cento, uma das mais baixas de toda a União Europeia.
Em compensação, os rendimentos do trabalho serão taxados a dobrar e nem os que recebem o salário mínimo escapam. A estes, o Estado cobrará um imposto especial de sete euros por semana. O tabaco terá uma taxa acrescida de 25 cêntimos e o diesel de cinco cêntimos por litro. Os ministérios sofrerão uma redução média de três por cento nos respectivos orçamentos.
A impopularidade desta política não oferece dúvidas. Já no passado 21 de Fevereiro, uma manifestação de protesto juntou mais de 200 mil pessoas na capital irlandesa. Professores, polícias e a generalidade dos funcionários públicos, revoltados com um agravamento fiscal que custará entre 1500 e 2800 euros por ano a cada trabalhador, deram o primeiro sinal de uma conflitualidade social que irá certamente intensificar-se nos próximos meses. Razões não faltam.
Húngaros pagam a crise
O novo primeiro-ministro da Hungria, Gordon Bajnai, ainda antes da sua confirmação pelo parlamento na sessão de terça-feira, 14, era já contestado em poderosas manifestações de rua que exigem eleições antecipadas no país.
Bajnai sucede ao demissionário Ferenc Gyurcsany , líder do Partido Socialista Húngaro (MSzP), depois de este ter reconhecido, em 21 de Março, não ter mais condições para governar e, sobretudo, para aplicar as duras reformas que estão a penalizar severamente as classes laboriosas do país.
Bajnai, antigo ministro da Economia da equipa de Gyurcsany, com o apoio do MszP e dos democratas livres (SzdSz) tomou então as rédeas da governação. E começou da pior maneira. No dia 2 de Abril, apresentou ao parlamento um plano de «relançamento» da economia que assenta no fundamental em drásticos cortes nos rendimentos dos funcionários públicos.
Bajnai resumiu tudo numa simples fórmula: ou os húngaros perdem o seu emprego ou aceitam a redução de alguns pontos percentuais nos seus salários. Simples de facto. No concreto, o plano prevê o congelamento dos salários e a supressão do 13.º mês a todos os trabalhadores do Estado. Os reformados são também chamados a pagar a crise, mediante uma redução nominal do valor das suas pensões, bem como a retirada do 13.º mês. Toda a população sofrerá com a abolição de subsídios e prestações sociais e familiares. Se estas medidas não forem aplicadas, garantiu Bajnai, «será ainda mais doloroso amanhã e tornar-se-á insuportável depois de amanhã».
Necessariamente, as causas da crise radicam no modelo que originou o boom. Se nos anos 90 os investidores e multinacionais foram atraídos pela perspectiva de fabulosos lucros, hoje a saturação dos mercados leva-os a procurar outras paragens, como fez o grupo informático norte-americano Dell que já anunciou a transferência das suas actividades para a Polónia.
As consequências sociais são a condizer: o desemprego já roça os 11 por cento e continuará a agravar-se, prevendo-se que atinja 14 por cento da população activa até ao final do ano. A diminuição da actividade económica, a par da falência do sistema bancário, esvaziou os cofres do Estado, transformando bruscamente folgados excedentes orçamentais em pesados défices, que as actuais e próximas gerações de trabalhadores irão pagar com o seu suor.
Anunciando o que aí vem, no passado dia 7, o ministro das Finanças, Brian Lenihan, fez acompanhar as suas sombrias previsões de severas medidas anti-sociais que custarão caro à esmagadora maioria dos 4,4 milhões de habitantes do País. Sem esta «acção correctiva», afirmou o governante, o défice orçamental seria de 12,75 por cento em 2009. A «correcção» permitirá baixá-lo para 10,75 por cento. A diferença será arrancada ao povo por meio de novos impostos e de cortes nas despesas sociais do Estado. Este regime de austeridade deverá acentuar-se nos próximos anos, já que as contas do Estado têm de regressar aos «saudáveis» três por cento do PIB, o mais tardar, até 2013.
Capital favorecido
Ao mesmo tempo que reconhecia que o país assiste a «um sério declínio dos padrões nacionais de vida, Lenihan fez questão de assegurar o capital de que, para ele, nada mudará. A taxa sobre os lucros será mantida nos 12,5 por cento, uma das mais baixas de toda a União Europeia.
Em compensação, os rendimentos do trabalho serão taxados a dobrar e nem os que recebem o salário mínimo escapam. A estes, o Estado cobrará um imposto especial de sete euros por semana. O tabaco terá uma taxa acrescida de 25 cêntimos e o diesel de cinco cêntimos por litro. Os ministérios sofrerão uma redução média de três por cento nos respectivos orçamentos.
A impopularidade desta política não oferece dúvidas. Já no passado 21 de Fevereiro, uma manifestação de protesto juntou mais de 200 mil pessoas na capital irlandesa. Professores, polícias e a generalidade dos funcionários públicos, revoltados com um agravamento fiscal que custará entre 1500 e 2800 euros por ano a cada trabalhador, deram o primeiro sinal de uma conflitualidade social que irá certamente intensificar-se nos próximos meses. Razões não faltam.
Húngaros pagam a crise
O novo primeiro-ministro da Hungria, Gordon Bajnai, ainda antes da sua confirmação pelo parlamento na sessão de terça-feira, 14, era já contestado em poderosas manifestações de rua que exigem eleições antecipadas no país.
Bajnai sucede ao demissionário Ferenc Gyurcsany , líder do Partido Socialista Húngaro (MSzP), depois de este ter reconhecido, em 21 de Março, não ter mais condições para governar e, sobretudo, para aplicar as duras reformas que estão a penalizar severamente as classes laboriosas do país.
Bajnai, antigo ministro da Economia da equipa de Gyurcsany, com o apoio do MszP e dos democratas livres (SzdSz) tomou então as rédeas da governação. E começou da pior maneira. No dia 2 de Abril, apresentou ao parlamento um plano de «relançamento» da economia que assenta no fundamental em drásticos cortes nos rendimentos dos funcionários públicos.
Bajnai resumiu tudo numa simples fórmula: ou os húngaros perdem o seu emprego ou aceitam a redução de alguns pontos percentuais nos seus salários. Simples de facto. No concreto, o plano prevê o congelamento dos salários e a supressão do 13.º mês a todos os trabalhadores do Estado. Os reformados são também chamados a pagar a crise, mediante uma redução nominal do valor das suas pensões, bem como a retirada do 13.º mês. Toda a população sofrerá com a abolição de subsídios e prestações sociais e familiares. Se estas medidas não forem aplicadas, garantiu Bajnai, «será ainda mais doloroso amanhã e tornar-se-á insuportável depois de amanhã».