Anda por aí o Cupido!

João Frazão
Fosse eu dado a esoterismos e diria que o Cupido deve ter alguma coisa a ver com a súbita paixão do PS e dos seus principais dirigentes pelo Estado e pela sua intervenção em todas as esferas da vida económica, e com o ódio, igualmente recente, aos ditames da ideologia neoliberal.
Para quem não esteja completamente familiarizado com estas coisas do coração, o Cupido é um serzinho alado, com umas asinhas, que habitualmente esvoaça só coberto por uma fralda e armado de um conjunto de arco e flecha mágicos, e que, ao atingir alguém com o seu disparo provoca uma paixão que faz esquecer todas as desavenças e desentendimentos anteriores.
É que não vejo outra razão para, de uma hora para a outra, todas as eminentes figuras do partido do Governo virem dizer exactamente o contrário do que andaram a dizer e a fazer ao longo dos últimos anos, naquilo que já é conhecido pela Grande Viragem à Esquerda.
Se não vejamos. Ainda há poucos meses José Sócrates respondia às críticas do PCP dizendo «deixem funcionar o mercado». Dizia mesmo que o dever do Governo era «assegurar que o mercado funciona».
Já em 2002, o PS aprovava uma declaração de princípios onde se afirmava que «o papel do mercado deve ser valorizado, designadamente nas funções que pode cumprir melhor do que os
modos alternativos de afectação de recursos».
E que apresentava como função essencial do Estado «assegurar plenamente as funções de soberania», tese que António Costa, quando era ministro da Administração Interna, voltou a defender em entrevista ao Correio da Manhã.
E se bem o disseram, mais depressa o fizeram, privatizando empresas e serviços públicos, desmantelando importantes parcelas do Estado, favorecendo o mercado e a concentração de riqueza.
Vital Moreira, o mais fiel defensor das políticas de direita executadas por Sócrates e Companhia, vem agora falar do Estado regulador e da distribuição da riqueza.
E até Alberto Martins, o presidente do grupo parlamentar que, ao longo destes anos, a partir da maioria absoluta, sustentou cegamente e sem pestanejar todas as opções que são responsáveis pela situação em que nos encontramos, fez, esta segunda-feira, um violento ataque ao neoliberalismo selvagem, e defendeu que «são precisas soluções fortes para regular com harmonia os mercados, para inverter a espiral de ganância dos lucros a curto prazo, para prevenir a doença das remunerações predatórias e para acabar com os paraísos fiscais».
Ora para mim, isto só tem uma de duas explicações: ou o Cupido actuou e é o responsável por esta paixão arrebatadora por opções de esquerda; ou então estamos já em campanha eleitoral e, aí, vale tudo.
Mas cá para mim, deve ser o Cupido.


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