O trunfo do socialismo

Luís Carapinha
Um artigo de opinião do Diário do Povo, publicado há umas semanas, titulava: «A hegemonia dos EUA termina, começa a era da multipolaridade global» (Li Hongmei, Pe­o­ple's Daily On­line, 24.02.09). Em socorro da ousada afirmação, a autora refere dados do FMI mostrando que, se em 2003 o PIB dos EUA representava 32% do PIB mundial (e o conjunto das «economias emergentes» 25%), já em 2008 esta relação inverteu-se, com os EUA a contar para 25% do produto mundial e as economias emergentes 32%. Sublinhando que o surpreendente da «dramática reversão» é acontecer em tão curto espaço de tempo, a articulista do órgão oficial do PCC interroga-se sobre o que mudará [no mundo] nos próximos 5, 10 anos.

A questão faz sentido, sabendo-se que o crescente parasitarismo e a trajectória de declínio dos EUA, o motor do sistema capitalista à escala global, são um elemento omnipresente da actual crise económica mundial – conferindo um grau de ainda maior dramatismo e incerteza aos tempos de que somos testemunhas e participantes directos.
A besta ferida torna-se mais perigosa. Toda a ofensiva imperialista impulsionada com o desaparecimento da URSS, a doutrina ne­ocon do «século americano» e da guerra preventiva, o alargamento estratégico da NATO e as ocupações do Afeganistão e Iraque cabem na procura de respostas aos dilemas e contradições internas que socavam as bases do poder dos EUA. A tentativa de reverter a roda da história aprofundou, porém, o impasse. Bush saiu de cena pela porta das traseiras e as classes dominantes acabaram por apostar no «fenómeno Obama». Holbrooke, o «arquitecto» do acordo de Dayton, que abriu as portas ao desmembramento definitivo da Jugoslávia, e actual enviado de Obama para o Afeganistão e Paquistão, anteviu que o sucessor de Bush herdaria os mais difíceis desafios internacionais [para a hegemonia dos EUA] desde a II Guerra Mundial. O imperialismo manobra para manter os objectivos de dominação e reforçar o iníquo sistema de exploração capitalista. O sistema que mercantiliza hoje todas as esferas da vida humana não cairá por si.

A crueza da crise geral, estrutural e sistémica do capitalismo é uma evidência. A previsão extraordinária do FMI divulgada nos últimos dias aponta para um crescimento negativo do PIB mundial de -0,5% a -1% em 2009, o que acontecerá pela primeira vez desde 1945. A contracção das economias dos EUA, UE e Japão será ainda mais acentuada. No Japão, não refeito da «década perdida» da estagflação, a quebra rondará os 6%! O recuo avassalador da produção industrial nas potências centrais capitalistas é ultrapassado pela regressão do comércio mundial, a pior quebra dos últimos 80 anos.
Segundo o Banco Mundial a quebra do produto mundial pode chegar aos 2%. Para a China – apesar de fortemente atingida pela crise – prevê uma subida de 6,5%. Mais: o BM considera o desempenho da economia chinesa como a chave da recuperação mundial. A aposta de Pequim é estimular o consumo interno, cujo «mercado» é superior aos dos EUA e UE juntos.

O presidente Hu Jintao reiterou recentemente que a liderança do Partido, as vantagens do sistema socialista e os esforços do povo serão determinantes para vencer as dificuldades. O êxito de um processo tão complexo e não linear como é a modernização chinesa, com a incorporação da mais alta capacidade tecnológica e o desenvolvimento da produtividade, possui um significado transcendente para as forças do socialismo.
Convém lembrar que a essência do key­ne­si­a­nismo, de que fazem eco as milionárias medidas de salvamento do grande Capital, foi a (II) Guerra. São amplas e reais as ameaças da recessão que se anuncia longa. Perante a barbárie, a luta dos trabalhadores e dos povos e a afirmação do projecto revolucionário do socialismo são hoje uma tábua de salvação para a Humanidade.


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