«Nasce a esperança, chega a mudança»
O histórico triunfo da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional nas presidenciais em El Salvador assume particular relevância pelas condições em que foi alcançada, sublinhou em entrevista ao Avante! Pedro Guerreiro, deputado do PCP no Parlamento Europeu, que esteve no país na qualidade de observador do sufrágio.
Pela primeira vez a esquerda assume o poder em El Salvador
Como analisas a vitória dos candidatos da FMLN nas recentes eleições para a presidência e vice-presidência de El Salvador?
A vitória dos candidatos da Frente Farabundo Marti para a Libertação Nacional (FMLN), Mauricio Funes, para a presidência, e Salvador Sánchez Cerén, para a vice-presidência, no passado dia 15 de Março, é um acontecimento histórico, pois trata-se da primeira vez que, em El Salvador, uma força de esquerda assumirá a governação do país. Tal vitória da FMLN assume ainda maior significado quando temos a oportunidade de conhecer as condições objectivas e subjectivas em que foi conquistada. Não sendo possível referir todo o rol de desigualdades verificadas e de ilegalidades cometidas, salienta-se que a FMLN teve que se confrontar com uma enorme desproporção de meios na batalha eleitoral face aos candidatos do partido de extrema-direita, Aliança Republicana Nacionalista (ARENA). A quase totalidade dos meios de comunicação social, dominados pelo poder económico e pelo Governo do partido ARENA, favoreceu descaradamente os candidatos de extrema-direita. O actual Presidente, incumprindo a Constituição da República de El Salvador, participou activamente na campanha pelo ARENA, inclusive durante o período de reflexão. O poder político-económico dominante promoveu uma autêntica campanha anticomunista, procurando fomentar o medo no povo salvadorenho.
Tem sido denunciada a autêntica campanha suja promovida pelo ARENA e outras organizações, como as denominadas «Cruzada paz e trabalho» e «Força solidária», de extrema-direita contra a FMLN e os seus candidatos. Em que consistiu tal campanha?
A campanha promovida pelo ARENA e pelo grande poder económico foi indescritível. Face à real possibilidade de vitória da FMLN, foi realizada uma autêntica campanha suja, baseada na mentira e na calúnia, visando criar o medo e desmobilizar o povo salvadorenho da possibilidade da alternativa, da esperança e da mudança. São múltiplos os exemplos de mentira e calúnia, como a ideia de que a FMLN iria entregar o país a Hugo Chávez, da Venezuela, a Daniel Ortega, da Nicarágua, ou a Fidel Castro, de Cuba. A ideia de que iriam terminar as remessas enviadas pelos cerca de 2,5 milhões de emigrantes salvadorenhos (cerca de 25% da população salvadorenha reside nos EUA). A ideia de que os funcionários públicos iriam ser todos despedidos. A ideia de que as pessoas perderiam os seus bens. E por aí fora... Mesmo no dia das eleições poderia escutar-se em algumas rádios, quase ininterruptamente, estas e outras falsidades. Os resultados demonstram que a maioria do povo salvadorenho se imunizou a tal campanha de medo. Mas a FMLN teve ainda que vencer o perigo de fraude eleitoral, através de uma grande mobilização popular que, vigilante e presente, denunciou e impossibilitou a concretização de muitas irregularidades, incluindo o voto de não-cidadãos salvadorenhos.
Qual o perigo de fraude para o qual a FMLN alertou?
A FMLN tem vindo a denunciar desde há muito o que considera ser um sistema eleitoral que promove a fraude. Um sistema eleitoral cuja principal instância, o Tribunal Supremo Eleitoral, se encontra dominado pela direita. Um registo eleitoral que está longe de estar em consonância com o censo populacional. Uma gestão do «Documento Único de Identidade» entregue a uma empresa privada. A existência de cidadãos não salvadorenhos com Documento Único de Identidade salvadorenho. Ou ainda, o facto do voto não ser realizado nas localidades onde as pessoas residem, ou seja, a esmagadora maioria dos salvadorenhos tem que se deslocar a centros de votação centralizados, por exemplo, nas sedes de município, o que exige a existência de meios de transporte para poder votar.
Vitória da persistência militante
Neste quadro, como foi construída a vitória dos candidatos da FMLN?
Naturalmente, que um observador do acto eleitoral, mesmo não tendo acompanhado todo o processo eleitoral, colocará a questão de como foi possível, nestas condições, a vitória da FMLN? Como razão primeira da vitória da FMLN está a confiança, a determinação, a grande entrega e a activa militância dos seus activistas. O êxito alcançado nestas eleições presidenciais é igualmente resultado do empenhamento da FMLN na construção de uma ampla frente social que possibilitasse a derrota do ARENA, que detinha há cerca de 20 anos a presidência de El Salvador, executando políticas neoliberais e alinhando-se com o imperialismo dos EUA. Recorde-se que a FMLN foi pela primeira vez a força mais votada nas eleições legislativas, de 18 de Janeiro de 2009, obtendo 35 dos 84 deputados do parlamento nacional.
A FMLN teve que realizar uma grande campanha de informação e de esclarecimento. Uma campanha de mobilização em torno da unidade necessária para a derrota das políticas neoliberais, que promoveram as privatizações e a concentração da riqueza, criando profundas desigualdades sociais, a pobreza e a emigração de muitos salvadorenhos. Uma unidade em torno de um projecto patriótico, democrático e soberano de desenvolvimento do país, delineado no seu programa de governo intitulado «Nasce a esperança, chega a mudança», que preconiza, entre outros aspectos, o combate às desigualdades e à pobreza, a criação de emprego, o apoio ao sistema produtivo e às micro, pequenas e médias empresas, o reforço e melhoria dos serviços públicos, a justiça social.
Que importância tem a histórica vitória da FMLN do ponto de vista regional e à luz dos processos anti-imperialistas, progressistas e de soberania nacional na América Latina?
Trata-se de uma vitória com importantes repercussões na América Central e na América Latina. É justo realçar que a FMLN derrotou o partido ARENA, uma das forças mais reaccionárias e retrógradas do subcontinente. Uma vitória que vem reforçar a diversificada corrente de transformação progressista que percorre a Venezuela, a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e outros países da América Latina, sempre com Cuba solidária.
Como temos constatado, até pela nossa experiência em Portugal, um processo soberano e democrático, de paz e justiça e progresso social não está isento de dificuldades...
Sem dúvida que a FMLN está plenamente consciente dos grandes desafios, dificuldades e perigos da nova situação e que agora se inicia o mais difícil... Poderemos afirmar que a resposta à nova situação passará pelo reforço do conjunto de factores que estiveram na origem da vitória, como o reforço da profunda ligação ao povo e o carácter popular de massas da FMLN; o reforço da sua organização, para o qual têm sido dados passos determinantes; o reforço da unidade, ampliação e mobilização da frente social em torno do programa patriótico e democrático para o desenvolvimento social e económico do país que a FMLN protagoniza. Um conjunto de questões tão mais importantes quando a FMLN tem 35 dos 84 deputados no parlamento nacional e quando com o desenvolvimento do processo democrático no país se agudizarão as contradições e se intensificará a luta ideológica.
Povo sai à rua
Como foi a festa da vitória?
A vitória dos candidatos da FMLN à presidência e vice-presidência de El Salvador foi um feito histórico saudado por muitos milhares de salvadorenhos na noite de 15 de Março, os quais ocuparam as ruas festejando e dedicando a vitória àqueles que deram a vida para a conquista da paz, da liberdade, da democracia e da justiça social em El Salvador. Foi impressionante ver as famílias, avós, filhos, netos, saindo à rua com as suas camisolas e bandeiras vermelhas, gritando que o povo unido jamais será vencido, que «Si, se puede!».
Dizem os companheiros da FMLN que o problema vai ser encontrar um local com as dimensões necessárias para a participação de centenas de milhares de salvadorenhos na tomada de posse, prevista para 1 de Junho. Pela nossa parte, com a nossa solidária presença neste acto eleitoral, tivemos a oportunidade de saudar a FMLN pela sua vitória e de desejar os maiores êxitos na difícil tarefa da construção de uma vida melhor para o povo salvadorenho.
A vitória dos candidatos da Frente Farabundo Marti para a Libertação Nacional (FMLN), Mauricio Funes, para a presidência, e Salvador Sánchez Cerén, para a vice-presidência, no passado dia 15 de Março, é um acontecimento histórico, pois trata-se da primeira vez que, em El Salvador, uma força de esquerda assumirá a governação do país. Tal vitória da FMLN assume ainda maior significado quando temos a oportunidade de conhecer as condições objectivas e subjectivas em que foi conquistada. Não sendo possível referir todo o rol de desigualdades verificadas e de ilegalidades cometidas, salienta-se que a FMLN teve que se confrontar com uma enorme desproporção de meios na batalha eleitoral face aos candidatos do partido de extrema-direita, Aliança Republicana Nacionalista (ARENA). A quase totalidade dos meios de comunicação social, dominados pelo poder económico e pelo Governo do partido ARENA, favoreceu descaradamente os candidatos de extrema-direita. O actual Presidente, incumprindo a Constituição da República de El Salvador, participou activamente na campanha pelo ARENA, inclusive durante o período de reflexão. O poder político-económico dominante promoveu uma autêntica campanha anticomunista, procurando fomentar o medo no povo salvadorenho.
Tem sido denunciada a autêntica campanha suja promovida pelo ARENA e outras organizações, como as denominadas «Cruzada paz e trabalho» e «Força solidária», de extrema-direita contra a FMLN e os seus candidatos. Em que consistiu tal campanha?
A campanha promovida pelo ARENA e pelo grande poder económico foi indescritível. Face à real possibilidade de vitória da FMLN, foi realizada uma autêntica campanha suja, baseada na mentira e na calúnia, visando criar o medo e desmobilizar o povo salvadorenho da possibilidade da alternativa, da esperança e da mudança. São múltiplos os exemplos de mentira e calúnia, como a ideia de que a FMLN iria entregar o país a Hugo Chávez, da Venezuela, a Daniel Ortega, da Nicarágua, ou a Fidel Castro, de Cuba. A ideia de que iriam terminar as remessas enviadas pelos cerca de 2,5 milhões de emigrantes salvadorenhos (cerca de 25% da população salvadorenha reside nos EUA). A ideia de que os funcionários públicos iriam ser todos despedidos. A ideia de que as pessoas perderiam os seus bens. E por aí fora... Mesmo no dia das eleições poderia escutar-se em algumas rádios, quase ininterruptamente, estas e outras falsidades. Os resultados demonstram que a maioria do povo salvadorenho se imunizou a tal campanha de medo. Mas a FMLN teve ainda que vencer o perigo de fraude eleitoral, através de uma grande mobilização popular que, vigilante e presente, denunciou e impossibilitou a concretização de muitas irregularidades, incluindo o voto de não-cidadãos salvadorenhos.
Qual o perigo de fraude para o qual a FMLN alertou?
A FMLN tem vindo a denunciar desde há muito o que considera ser um sistema eleitoral que promove a fraude. Um sistema eleitoral cuja principal instância, o Tribunal Supremo Eleitoral, se encontra dominado pela direita. Um registo eleitoral que está longe de estar em consonância com o censo populacional. Uma gestão do «Documento Único de Identidade» entregue a uma empresa privada. A existência de cidadãos não salvadorenhos com Documento Único de Identidade salvadorenho. Ou ainda, o facto do voto não ser realizado nas localidades onde as pessoas residem, ou seja, a esmagadora maioria dos salvadorenhos tem que se deslocar a centros de votação centralizados, por exemplo, nas sedes de município, o que exige a existência de meios de transporte para poder votar.
Vitória da persistência militante
Neste quadro, como foi construída a vitória dos candidatos da FMLN?
Naturalmente, que um observador do acto eleitoral, mesmo não tendo acompanhado todo o processo eleitoral, colocará a questão de como foi possível, nestas condições, a vitória da FMLN? Como razão primeira da vitória da FMLN está a confiança, a determinação, a grande entrega e a activa militância dos seus activistas. O êxito alcançado nestas eleições presidenciais é igualmente resultado do empenhamento da FMLN na construção de uma ampla frente social que possibilitasse a derrota do ARENA, que detinha há cerca de 20 anos a presidência de El Salvador, executando políticas neoliberais e alinhando-se com o imperialismo dos EUA. Recorde-se que a FMLN foi pela primeira vez a força mais votada nas eleições legislativas, de 18 de Janeiro de 2009, obtendo 35 dos 84 deputados do parlamento nacional.
A FMLN teve que realizar uma grande campanha de informação e de esclarecimento. Uma campanha de mobilização em torno da unidade necessária para a derrota das políticas neoliberais, que promoveram as privatizações e a concentração da riqueza, criando profundas desigualdades sociais, a pobreza e a emigração de muitos salvadorenhos. Uma unidade em torno de um projecto patriótico, democrático e soberano de desenvolvimento do país, delineado no seu programa de governo intitulado «Nasce a esperança, chega a mudança», que preconiza, entre outros aspectos, o combate às desigualdades e à pobreza, a criação de emprego, o apoio ao sistema produtivo e às micro, pequenas e médias empresas, o reforço e melhoria dos serviços públicos, a justiça social.
Que importância tem a histórica vitória da FMLN do ponto de vista regional e à luz dos processos anti-imperialistas, progressistas e de soberania nacional na América Latina?
Trata-se de uma vitória com importantes repercussões na América Central e na América Latina. É justo realçar que a FMLN derrotou o partido ARENA, uma das forças mais reaccionárias e retrógradas do subcontinente. Uma vitória que vem reforçar a diversificada corrente de transformação progressista que percorre a Venezuela, a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e outros países da América Latina, sempre com Cuba solidária.
Como temos constatado, até pela nossa experiência em Portugal, um processo soberano e democrático, de paz e justiça e progresso social não está isento de dificuldades...
Sem dúvida que a FMLN está plenamente consciente dos grandes desafios, dificuldades e perigos da nova situação e que agora se inicia o mais difícil... Poderemos afirmar que a resposta à nova situação passará pelo reforço do conjunto de factores que estiveram na origem da vitória, como o reforço da profunda ligação ao povo e o carácter popular de massas da FMLN; o reforço da sua organização, para o qual têm sido dados passos determinantes; o reforço da unidade, ampliação e mobilização da frente social em torno do programa patriótico e democrático para o desenvolvimento social e económico do país que a FMLN protagoniza. Um conjunto de questões tão mais importantes quando a FMLN tem 35 dos 84 deputados no parlamento nacional e quando com o desenvolvimento do processo democrático no país se agudizarão as contradições e se intensificará a luta ideológica.
Povo sai à rua
Como foi a festa da vitória?
A vitória dos candidatos da FMLN à presidência e vice-presidência de El Salvador foi um feito histórico saudado por muitos milhares de salvadorenhos na noite de 15 de Março, os quais ocuparam as ruas festejando e dedicando a vitória àqueles que deram a vida para a conquista da paz, da liberdade, da democracia e da justiça social em El Salvador. Foi impressionante ver as famílias, avós, filhos, netos, saindo à rua com as suas camisolas e bandeiras vermelhas, gritando que o povo unido jamais será vencido, que «Si, se puede!».
Dizem os companheiros da FMLN que o problema vai ser encontrar um local com as dimensões necessárias para a participação de centenas de milhares de salvadorenhos na tomada de posse, prevista para 1 de Junho. Pela nossa parte, com a nossa solidária presença neste acto eleitoral, tivemos a oportunidade de saudar a FMLN pela sua vitória e de desejar os maiores êxitos na difícil tarefa da construção de uma vida melhor para o povo salvadorenho.