A Doutrina Social da Igreja

Jorge Messias
No «paraíso artificial» de Sócrates a vida vai de mal a pior. Há pobres para todos os gostos : novos pobres, velhos pobres, pobres sem lar, pobres que ocultam a sua pobreza com as esmolas que recebem dos ricos, pobres que são penhorados, etc. E o desemprego cresce como as marés, alimentado pelas falências das empresas, pela infâmia do lay-off ou pela própria justiça que actua abertamente em defesa das fortunas. A igreja católica, que possui uma posição predominante nas áreas políticas, económicas e sociais, tropeça a cada passo nestes escândalos e nada faz para os denunciar. Os bispos olham para os pobres e limitam-se a dizer que «pobres sempre os teremos connosco»; ou choram cristãmente o espectáculo de miséria que as suas vidas dão: «pobres dos pobres que são pobrezinhos!». A Igreja vai entretanto lembrando que a grande receita para solucionar a crise e distribuir equitativamente a riqueza é a «conversão a Deus». E faz coro com o padre Maia: «Os desempregados são os futuros pobres e as IPSS tem de ajudar a cuidar deles.»
A destruição da economia não conhece limites. Vai atingindo, sucessivamente, todos os sectores económicos, na indústria, na agricultura, nos serviços e mesmo no ramo bancário e financeiro. Oficialmente, diz-se que há em Portugal 500 mil desempregados. Na realidade são muitos mais. Nos próximos meses a crise do capitalismo vai-se aprofundar. Todavia, com o crescer da miséria, a caridade poderá revelar-se como um excelente negócio.

A «parceria estratégica»

As baterias da Igreja estão montadas e os seus canhões começam a ocupar posições de tiro. Assim o reconhece implicitamente o primeiro-ministro Sócrates ao declarar: «Uma parceria estratégica entre o Estado, as empresas e as instituições da economia social é absolutamente essencial para responder aos problemas do emprego.» Dito e feito. Nesse mesmo dia assinou 60 protocolos entre o Estado, o patronato e as IPSS que, eventualmente, poderão integrar no mercado do trabalho cerca de 700 jovens desempregados. Foram os primeiros passos da chamada «Iniciativa Emprego 2009» dotada com verbas do orçamento geral do Estado da ordem dos 580 milhões de euros. Na apresentação inicial dessa campanha diz-se que a iniciativa assentará em quatro eixos principais, todos eles envolvendo dinheiros públicos mas cuja concretização será entregue às IPSS da igreja e ao Ministério do Trabalho: manter o emprego, apoiar os jovens no acesso ao emprego, apoiar o regresso ao emprego e alargar a protecção social. Todas estas funções que competiriam ao Estado são transferidas para as instituições católicas privadas. A este casamento se chama «parceria estratégica» e «economia social».
Naturalmente que os frutos deste enlace Igreja/Estado não ficam por aqui. O dinheiro jorra por todos os canais: TV, comunicação social, programas de potencial humano e de desenvolvimento, voluntariado, apoio à infância, etc., recebem do Estado sucessivos subsídios suplementares que ao fim e ao cabo revertem para a Igreja. Também é notável que em plena fase de crise económica se tenha efectuado (em Fevereiro), no Ministério das Finanças, um importante reunião entre representantes do Governo, União das Misericórdias e IPSS e delegados de um esmagador grupo de bancos (BPI, BES, CGD, BANIF e BCP). Tratou-se de negociar os detalhes da abertura de uma linha de crédito para as IPSS, com o aval do Estado e financiada pelo Banco Central Europeu, com vista à construção de unidades de cuidados continuados. Tudo isto, é claro, em ano de eleições...
Poder-se-ia prosseguir neste correr sem fim de entendimentos secretos. Não há espaço nem é este o lugar apropriado, mas podia ainda recordar-se a notícia de que o Santuário de Fátima tinha milhões no famigerado Banco de Negócios e o retirou a tempo, sinal que sabia de antemão o que viria a acontecer; ou que, nos peditórios destinados a «combater a pobreza» muito do dinheiro recolhido reverte para os seminários católicos ou transita para outros «países pobres», correndo o risco de se perder no caminho; ou, ainda, que os escandalosos concursos milionários das Misericórdias acumulam milhões sobre milhões, numa terra de penúria e desemprego.
Ficará para depois. Mas uma Igreja como esta – diga-se em conclusão – não tem cura nem salvação possível.


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