Politiquices perigosas

Aurélio Santos
«O PS é um partido de ideias.» Foi com esta afirmação que Alberto Martins, líder da bancada parlamentar do Partido Socialista, introduziu a sua pergunta declamatória ao promeiro-ministro, no último debate parlamentar na AR. E acrescentou que o PS também tinha estratégia.
Mas esta espécie de declaração de princípios do partido suporte do Governo e da sua política não é de molde a demonstrar as boas ideias da prática governativa.
O que sobe à tona no discurso diário e ininterrupto do Governo é precisamente a sucessão de afirmações retóricas apresentadas como fundamento das suas decisões e a recusa liminar do debate e da crítica. Falho de razões, o primeiro-ministro tem chegado a utilizar um último argumento de resposta retumbante a qualquer afirmação feita sobre a sua política: «Isso tudo não passa de politiquices. Deixem-se de politiquices.»
Rebaixar o nível do debate político a este ponto não é decerto a melhor forma de responder a propostas diferentes ou contrárias à política do Governo. E implica um risco de consequências graves: o de desacreditar a própria actividade política e a intervenção que nela todos os cidadãos têm direito a desempenhar.
Indo às causas do descrédito crescente que na sociedade portuguesa afectam a política («Isso é política! Os políticos são todos iguais!») é inevitável não concluir que a política de direita (nomeada e particularmente a do Governo) procura legitimidade em ideias, valores e conceitos democráticos. As palavras utilizadas são as mesmas. O significado é que é agora completamente diferente. O conteúdo real da mensagem já não condiz com o da forma da sua apresentação.
É neste contexto que o Governo actual (acompanhado a par e passo pela voz oficial do PS) encontra as suas mais incómodas contradições. Tem uma política de direita; mas não se arrisca a apresentá-la como tal. Abandonou o socialismo; mas não se arrisca a reconhecê-lo. Está cada vez mais longe do Portugal de Abril; mas não se arrisca a confessá-lo.
E neste caminho inclinado de autojustificação, a tentar «fazer passar», a distorcer, a manipular, não anda nem deixa andar.
O pior é o que daí pode resultar em descrédito para o próprio regime democrático.


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