Pirataria e imperialismo
A ONU autorizou as missões que EUA e a UE enviaram para o Golfo do Aden. A cobertura é o combate à pirataria na costa marítima da Somália, mas os objectivos de fundo vão bem mais longe.
Os portos de abrigo dos piratas são bem conhecidos dos EUA
A resolução 1851, adoptada terça-feira, dia 16, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas permite aos «Estados que cooperam com o governo de transição somali estender os seus esforços contra a pirataria a eventuais operações no solo e no espaço aéreo», argumentam os EUA muito embora o texto não autorize explicitamente a realização de bombardeamentos pelas forças de diversos países que rumam em direcção à costa da Somália.
Apesar desta diferença de interpretação, pouco ligeira, diga-se, no fundamental as reivindicações norte-americanas, das grandes potenciais capitalistas e da burguesia transnacional em matéria de combate à pirataria no Golfo do Aden foram atendidas pelas Nações Unidas, que desde Junho já adoptaram quatro resoluções sobre a questão.
O mandato de um ano corresponde à disposição manifestada recentemente por Washington de «passar à ofensiva», como disse o vice-almirante Bill Gortney, citado pela Lusa, numa reunião ocorrida em Manamá, capital do Bahrein, no passado dia 12. Acolhidos ficam também os interesses da União Europeia, que avançou com a missão naval «Atalante». Nela se incluem meios militares da Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Grécia, Holanda, Reino Unido e Suécia.
Os custos da operação superam as dezenas de milhões de euros, mas a despesa parece compensar face às perdas resultantes dos 108 ataques e raptos de embarcações já registados desde o início deste ano ao largo do Corno de África. Estima-se que só em resgates as empresas tenham pago cerca de 150 milhões de dólares. Mais de uma dezena de embarcações e centenas de tripulantes mantêm-se nas mãos dos piratas que actuam numa extensão de um milhão de quilómetros quadrados.
A mais ousada investida dos chamados «piratas do século XXI» foi contra um superpetroleiro saudita, o Sirius Star, carregado com 300 mil toneladas de crude. Acresce que a região é uma das mais importantes rotas comerciais do mundo - o trânsito pelo Canal do Suez rendeu durante o mês de Outubro ao Egipto qualquer coisa como 467,5 milhões de dólares em taxas aduaneiras aplicadas a barcos carregados de «ouro negro» - e a sua fluidez tem sido gravemente afectada pelos incidentes, como aliás admitiu o secretário-geral das Nações Unidas.
Conferência de Nairobi
Para além da ofensiva militar, a intervenção da «comunidade internacional» no Corno de África enquadra igualmente outras componentes. Na recente conferência de Nairobi, os 42 participantes, embora não tenham concluído grande coisa em termos práticos que não o apelo à intervenção militar dos blocos imperialistas, chegaram ao consenso de que os sistemas jurídicos dos países da região são demasiado débeis para enfrentar o problema e castigar os responsáveis, até porque, afirmou-se ali, não existe legislação internacional adequada para punir os piratas, e estes, quando capturados, acabam por ser postos em liberdade.
Neste contexto, o Quénia, o Djibouti, o Iémen e a Tânzania vão receber 1,3 milhões de dólares de ajuda nos próximos seis meses para «reformarem» os respectivos sistemas jurídico-penais. O primeiro assinou também com a Grã-Bretanha um memorando de entendimento que permite justiçar severamente os amigos do alheio que actuam ao largo da Somália.
Da reunião na capital queniana, saíram ainda condenações ao pagamento dos resgates, isto é, acabou-se o tempo das negociações e começou o do uso da força, e indicou-se alguns dos corsários: antigos armadores e pescadores da região, bem como ex-membros da guarda costeira. Os EUA consideraram o encontro «um êxito».
Não deixa de ser curioso que um dos mais determinados intervenientes na conferência tenha sido o denominado presidente da Puntolândia, Mohamoud Muse Hersi. O território, situado no Nordeste da Somália, declarou a sua independência face a Mogadíscio em 1998 e concentra 99 por cento dos ataques registados nos últimos meses.
Balcanização da Somália
O actual processo de intervenção, fundado em duas justificações centrais, o combate à pirataria e a resolução da mais grave crise humanitária do continente africano, radica, no entanto, em objectivos bem mais antigos. Pouco antes do último presidente da Somália, Siad Barre, ter sido deposto pelos senhores da guerra, em 1991, dois terços do território do país foram concessionados a gigantes da extracção e refinação de hidrocarbonetos como a Conoco, a Amoco, a Cheveron ou a Philips. A Casa Branca, com Bill Clinton na Sala Oval, lançou-se pouco depois numa campanha militar que deixou um saldo de fracasso e vexame para a administração norte-americana e adiou a cobrança dos contratos subscritos com as petrolíferas.
Desde então, a Somália vive dividida entre senhores da guerra, nada que, aparentemente, tenha motivado qualquer preocupação da dita «comunidade internacional». A balcanização do país com o surgimento de proto-Estados como a Puntolândia, a Somalilândia e outras parcelas na mão de grupos armados onde impera a lei do mais forte serviu os interesses do imperialismo. Os recursos marítimos da Somália foram sendo delapidados a grande ritmo por embarcações forasteiras; as pedras preciosas, a bauxite, o titânio, o urânio e outros minerais de que a Somália é rica continuaram a engordar os lucros das multinacionais: os grupos armados mantiveram-se como bons clientes da indústria de armamento; os navios-prisão norte-americanos fundeavam nas águas somális aplicando sem constrangimentos a tortura condenada noutras paragens; as companhias europeias lograram durante anos de total impunidade para despejarem ao largo da Somália toneladas de lixo tóxico, facto admitido pelas Nações Unidas e relatado por testemunhos recolhidos entre a população, afectada subitamente por doenças até então raras.
Mas 17 anos de ausência de autoridade central tornaram a situação demasiado perigosa e instável. Importa não esquecer que estudos recentes indicam que no prazo de uma década 30 por cento do petróleo consumido pelos EUA será fornecido por África. A Somália é a plataforma giratória para o escoamento de tal volume.
Fabricando um inimigo
Neste contexto, era imperioso para o capital acelerar o processo de tutela directa sobre a Somália, sobretudo depois da falência da invasão Etíope iniciada em Dezembro 2006.
Com efeito, as tropas etíopes, depois de terem expulso da capital somáli, Mogadíscio, a União das Cortes Islâmicas (UCI) e de terem instalado no seu lugar o governo de transição – cujos membros foram senhores da guerra e hoje dividem o seu tempo entre a insurrecta cidade e os luxuosos hotéis de Nairobi, no Quénia – não mais conseguiram impor qualquer ordem no território.
Pelo contrário, dados oficiais atestam que a situação humanitária piorou desde então, sobretudo no Sul do país, junto à fronteira com o Quénia, onde 3,5 milhões padecem de todo o tipo de carências. A UCI foi a única força capaz de derrotar os senhores da guerra, impor alguma ordem e reiniciar a autoridade central perdida há mais de uma geração. Apesar dos legítimos protestos contra algumas normas aplicadas pelas Cortes, a verdade é que hoje o sentimento popular de repúdio é muito maior para com os invasores e o executivo títere face aos passos dados atrás em matéria de segurança e alimentação.
É também no Sul da Somália que hoje se concentra a maioria das tropas da UCI reagrupadas em torno de um objectivo claro: expulsar os etíopes e o governo de transição apoiado pelas potenciais ocidentais. A UCI é acusada pelos EUA de ter ligações à al-Qaeda, uma alegação que mais não é do que um outro capítulo do estafado e descredibilizado «combate ao terrorismo».
Junho quente
E é assim que em Junho tudo parece precipitar-se. A Etiópia confirma o abandono do território e logo uma mão cheia de senhores da guerra garantem a Washington o cessar-fogo. De Adis Abebba, capital da Etiópia, a Autoridade Intergovernamental de Desenvolvimento apela à intervenção por parte da comunidade internacional e reclama que a ONU tome a seu cargo a missão de interposição da União Africana presente no território. Na cabeça dos apelos está o governo queniano, liderado por Kibaki, férreo aliado ocidental no continente africano, de tal modo que chegou a oferecer Nairobi como sede para o Africom.
É também a partir de Junho que na ONU se começa a dar particular atenção à pirataria no Golfo do Aden e se avolumam os apelos e preocupações. Seis meses depois, a administração Bush deixa à sua sucessora o tão almejado mandato para perseguir piratas na costa e território da Somália.
O que não se diz é que os portos de abrigo dos piratas são bem conhecidos do governo Somáli e dos EUA, e que o executivo fantoche de Mogadíscio tem laços indesmentíveis com estes, de acordo com informações divulgadas recentemente pelo jornal britânico Guardian. O que se procura ocultar é que a cavalo do combate aos islamitas da UCI, da ajuda aos famintos e desvalidos, da repressão da pirataria, a UE, os EUA e todos os que os seguem vão estacionar permanentemente tropas no continente africano, acentuando o domínio e o saque dos povos e nações, cumprindo objectivos há muito traçados e assegurando prevalência sobre as águas do Norte do Índico. Nada que as crónicas de piratas e corsários oficiais e oficiosos de outros séculos não tenha já desvendado.
Apesar desta diferença de interpretação, pouco ligeira, diga-se, no fundamental as reivindicações norte-americanas, das grandes potenciais capitalistas e da burguesia transnacional em matéria de combate à pirataria no Golfo do Aden foram atendidas pelas Nações Unidas, que desde Junho já adoptaram quatro resoluções sobre a questão.
O mandato de um ano corresponde à disposição manifestada recentemente por Washington de «passar à ofensiva», como disse o vice-almirante Bill Gortney, citado pela Lusa, numa reunião ocorrida em Manamá, capital do Bahrein, no passado dia 12. Acolhidos ficam também os interesses da União Europeia, que avançou com a missão naval «Atalante». Nela se incluem meios militares da Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Grécia, Holanda, Reino Unido e Suécia.
Os custos da operação superam as dezenas de milhões de euros, mas a despesa parece compensar face às perdas resultantes dos 108 ataques e raptos de embarcações já registados desde o início deste ano ao largo do Corno de África. Estima-se que só em resgates as empresas tenham pago cerca de 150 milhões de dólares. Mais de uma dezena de embarcações e centenas de tripulantes mantêm-se nas mãos dos piratas que actuam numa extensão de um milhão de quilómetros quadrados.
A mais ousada investida dos chamados «piratas do século XXI» foi contra um superpetroleiro saudita, o Sirius Star, carregado com 300 mil toneladas de crude. Acresce que a região é uma das mais importantes rotas comerciais do mundo - o trânsito pelo Canal do Suez rendeu durante o mês de Outubro ao Egipto qualquer coisa como 467,5 milhões de dólares em taxas aduaneiras aplicadas a barcos carregados de «ouro negro» - e a sua fluidez tem sido gravemente afectada pelos incidentes, como aliás admitiu o secretário-geral das Nações Unidas.
Conferência de Nairobi
Para além da ofensiva militar, a intervenção da «comunidade internacional» no Corno de África enquadra igualmente outras componentes. Na recente conferência de Nairobi, os 42 participantes, embora não tenham concluído grande coisa em termos práticos que não o apelo à intervenção militar dos blocos imperialistas, chegaram ao consenso de que os sistemas jurídicos dos países da região são demasiado débeis para enfrentar o problema e castigar os responsáveis, até porque, afirmou-se ali, não existe legislação internacional adequada para punir os piratas, e estes, quando capturados, acabam por ser postos em liberdade.
Neste contexto, o Quénia, o Djibouti, o Iémen e a Tânzania vão receber 1,3 milhões de dólares de ajuda nos próximos seis meses para «reformarem» os respectivos sistemas jurídico-penais. O primeiro assinou também com a Grã-Bretanha um memorando de entendimento que permite justiçar severamente os amigos do alheio que actuam ao largo da Somália.
Da reunião na capital queniana, saíram ainda condenações ao pagamento dos resgates, isto é, acabou-se o tempo das negociações e começou o do uso da força, e indicou-se alguns dos corsários: antigos armadores e pescadores da região, bem como ex-membros da guarda costeira. Os EUA consideraram o encontro «um êxito».
Não deixa de ser curioso que um dos mais determinados intervenientes na conferência tenha sido o denominado presidente da Puntolândia, Mohamoud Muse Hersi. O território, situado no Nordeste da Somália, declarou a sua independência face a Mogadíscio em 1998 e concentra 99 por cento dos ataques registados nos últimos meses.
Balcanização da Somália
O actual processo de intervenção, fundado em duas justificações centrais, o combate à pirataria e a resolução da mais grave crise humanitária do continente africano, radica, no entanto, em objectivos bem mais antigos. Pouco antes do último presidente da Somália, Siad Barre, ter sido deposto pelos senhores da guerra, em 1991, dois terços do território do país foram concessionados a gigantes da extracção e refinação de hidrocarbonetos como a Conoco, a Amoco, a Cheveron ou a Philips. A Casa Branca, com Bill Clinton na Sala Oval, lançou-se pouco depois numa campanha militar que deixou um saldo de fracasso e vexame para a administração norte-americana e adiou a cobrança dos contratos subscritos com as petrolíferas.
Desde então, a Somália vive dividida entre senhores da guerra, nada que, aparentemente, tenha motivado qualquer preocupação da dita «comunidade internacional». A balcanização do país com o surgimento de proto-Estados como a Puntolândia, a Somalilândia e outras parcelas na mão de grupos armados onde impera a lei do mais forte serviu os interesses do imperialismo. Os recursos marítimos da Somália foram sendo delapidados a grande ritmo por embarcações forasteiras; as pedras preciosas, a bauxite, o titânio, o urânio e outros minerais de que a Somália é rica continuaram a engordar os lucros das multinacionais: os grupos armados mantiveram-se como bons clientes da indústria de armamento; os navios-prisão norte-americanos fundeavam nas águas somális aplicando sem constrangimentos a tortura condenada noutras paragens; as companhias europeias lograram durante anos de total impunidade para despejarem ao largo da Somália toneladas de lixo tóxico, facto admitido pelas Nações Unidas e relatado por testemunhos recolhidos entre a população, afectada subitamente por doenças até então raras.
Mas 17 anos de ausência de autoridade central tornaram a situação demasiado perigosa e instável. Importa não esquecer que estudos recentes indicam que no prazo de uma década 30 por cento do petróleo consumido pelos EUA será fornecido por África. A Somália é a plataforma giratória para o escoamento de tal volume.
Fabricando um inimigo
Neste contexto, era imperioso para o capital acelerar o processo de tutela directa sobre a Somália, sobretudo depois da falência da invasão Etíope iniciada em Dezembro 2006.
Com efeito, as tropas etíopes, depois de terem expulso da capital somáli, Mogadíscio, a União das Cortes Islâmicas (UCI) e de terem instalado no seu lugar o governo de transição – cujos membros foram senhores da guerra e hoje dividem o seu tempo entre a insurrecta cidade e os luxuosos hotéis de Nairobi, no Quénia – não mais conseguiram impor qualquer ordem no território.
Pelo contrário, dados oficiais atestam que a situação humanitária piorou desde então, sobretudo no Sul do país, junto à fronteira com o Quénia, onde 3,5 milhões padecem de todo o tipo de carências. A UCI foi a única força capaz de derrotar os senhores da guerra, impor alguma ordem e reiniciar a autoridade central perdida há mais de uma geração. Apesar dos legítimos protestos contra algumas normas aplicadas pelas Cortes, a verdade é que hoje o sentimento popular de repúdio é muito maior para com os invasores e o executivo títere face aos passos dados atrás em matéria de segurança e alimentação.
É também no Sul da Somália que hoje se concentra a maioria das tropas da UCI reagrupadas em torno de um objectivo claro: expulsar os etíopes e o governo de transição apoiado pelas potenciais ocidentais. A UCI é acusada pelos EUA de ter ligações à al-Qaeda, uma alegação que mais não é do que um outro capítulo do estafado e descredibilizado «combate ao terrorismo».
Junho quente
E é assim que em Junho tudo parece precipitar-se. A Etiópia confirma o abandono do território e logo uma mão cheia de senhores da guerra garantem a Washington o cessar-fogo. De Adis Abebba, capital da Etiópia, a Autoridade Intergovernamental de Desenvolvimento apela à intervenção por parte da comunidade internacional e reclama que a ONU tome a seu cargo a missão de interposição da União Africana presente no território. Na cabeça dos apelos está o governo queniano, liderado por Kibaki, férreo aliado ocidental no continente africano, de tal modo que chegou a oferecer Nairobi como sede para o Africom.
É também a partir de Junho que na ONU se começa a dar particular atenção à pirataria no Golfo do Aden e se avolumam os apelos e preocupações. Seis meses depois, a administração Bush deixa à sua sucessora o tão almejado mandato para perseguir piratas na costa e território da Somália.
O que não se diz é que os portos de abrigo dos piratas são bem conhecidos do governo Somáli e dos EUA, e que o executivo fantoche de Mogadíscio tem laços indesmentíveis com estes, de acordo com informações divulgadas recentemente pelo jornal britânico Guardian. O que se procura ocultar é que a cavalo do combate aos islamitas da UCI, da ajuda aos famintos e desvalidos, da repressão da pirataria, a UE, os EUA e todos os que os seguem vão estacionar permanentemente tropas no continente africano, acentuando o domínio e o saque dos povos e nações, cumprindo objectivos há muito traçados e assegurando prevalência sobre as águas do Norte do Índico. Nada que as crónicas de piratas e corsários oficiais e oficiosos de outros séculos não tenha já desvendado.