A floração
De súbito, no televisor explodiu o comunicado da presidência da República a repudiar boatos ou insinuações que colocariam em dúvida a probidade e o rigor ético de Cavaco Silva. Foi uma surpresa geral: ninguém sabia de tais boatos, ninguém conhecia alguém que os conhecesse. Na verdade, era o próprio comunicado que vinha dar notícia deles ao País que os ignorava, e isso mesmo foi naturalmente sublinhado por comentadores que vieram perante as câmaras para comentar o inesperado documento. Na SIC, Ricardo Costa começou a sua intervenção por dizer precisamente que o comunicado era um erro, e presume-se que sê-lo-ia por vir ampliar enormemente o âmbito de eventuais maledicências cochichadas talvez nos corredores dos poderes. Numa outra estação, outro comentador cujo nome me escapou falou também em «erro» e decerto pelas mesmas razões. Na verdade, se boatos teria havido, ninguém sabia de nada, digamos assim. Soube-o, pelos vistos, o Presidente da República, com eles se indignou e perante eles tratou de os travar fazendo publicar um documento enérgico e pormenorizado até ao ponto de nos dizer em quantos bancos guarda as suas economias. Assim agiu, decerto, no legítimo intuito de limpar a sua honra que alguns teriam querido salpicar de alguma lama. Mas, se me é permitida a expressão, direi que não valia a pena. Como disse Ricardo Costa, a reputação de Cavaco Silva em matéria de honestidade, de dinheiros, de enriquecimentos estranhos ou surpreendentes, «é à prova de bala». Pode-se, é claro, não se gostar dele (e não apenas por ele falar enquanto mastiga bolo-rei, o que fica feio nos grandes planos da TV, ou por não distinguir muito bem Thomas Mann de Thomas Moro, tudo apenas pecadilhos veniais), mas nunca ouvi dizer qualquer coisa que tendesse a inclui-lo numa categoria VIP dos amigos do alheio. Não se gosta dele, suponho, porque se discorda das suas opções políticas e das suas convicções na área económica, porque ele tem sido no nosso País o mais empenhado e eficaz «embaixador» do neoliberalismo de raiz thatcheriana que por sinal anda agora a dar com os burrinhos na água em tudo quanto é mundo. Mas não creio, talvez ninguém creia, que a sua honestidade pessoal alguma vez tivesse ostentado a menor mancha.
A outra razão
Há uma outra razão para que «não se goste» de Cavaco Silva, e não se trata de coisa irrelevante: é que, tanto quanto se sabe, isto é, desde que Cavaco se tornou figura pública, ele tem andado com más companhias. Entenda-se que a má qualidade de tais companhias resulta de motivos e factores diversos, e também que a avaliação negativa que delas se faça resulta das convicções ideológicas, políticas, éticas, de quem as avalia.
Ora, aparentemente esta questão põe-se com particular actualidade a propósito de Dias Loureiro, em quem o presidente depositou suficiente confiança pessoal, profissional e política para o designar para o Conselho de Estado. (Não vale dizer que a presença de Alberto João Jardim no Conselho o tornou um lugar mal frequentado.) Aliás, sinais discretos têm vindo permitir a convicção de que desde há já algum tempo Cavaco Silva entendeu que muita da gente que o rodeava no PSD era pouco desejável. Porém, o caso é que a questão não se limita a um partido e às suas gentes, nem sequer apenas a um vasto segmento da sociedade portuguesa: radica, isso sim, nas consequências decorrentes do domínio das classes dominantes no plano dos autênticos antivalores por elas impostos nos diversos recantos da vida nacional. Essa imposição resulta, como todos vamos sabendo e Cavaco Silva também não ignora, no primado absoluto do objectivo de «fazer dinheiro» sobre quaisquer considerações de ordem ética, no princípio de que os fins justificam os meios desde que se trate de «subir na vida», de «ter sucesso», de passar à frente do «outro» que é sempre olhado como um concorrente. Este é o terreno por onde o agora presidente Cavaco Silva tem caminhado e que, de resto, tem ajudado a cultivar. Ora, como é próprio de qualquer terreno onde foi implementada uma certa lavoura, também neste vai nascendo e crescendo uma determinada floração, não outra. As práticas que sempre são consideradas legítimas desde que dêem bom dinheiro, as traições pequenas ou grandes, o desprezo pelo amigo que pode ficar mal colocado, a avidez insaciável que não reconhece regras que a limitem, são a específica floração de um terreno assim. Que, inevitavelmente, dá os seus frutos. O Presidente Cavaco Silva provou agora o seu amargor.
A outra razão
Há uma outra razão para que «não se goste» de Cavaco Silva, e não se trata de coisa irrelevante: é que, tanto quanto se sabe, isto é, desde que Cavaco se tornou figura pública, ele tem andado com más companhias. Entenda-se que a má qualidade de tais companhias resulta de motivos e factores diversos, e também que a avaliação negativa que delas se faça resulta das convicções ideológicas, políticas, éticas, de quem as avalia.
Ora, aparentemente esta questão põe-se com particular actualidade a propósito de Dias Loureiro, em quem o presidente depositou suficiente confiança pessoal, profissional e política para o designar para o Conselho de Estado. (Não vale dizer que a presença de Alberto João Jardim no Conselho o tornou um lugar mal frequentado.) Aliás, sinais discretos têm vindo permitir a convicção de que desde há já algum tempo Cavaco Silva entendeu que muita da gente que o rodeava no PSD era pouco desejável. Porém, o caso é que a questão não se limita a um partido e às suas gentes, nem sequer apenas a um vasto segmento da sociedade portuguesa: radica, isso sim, nas consequências decorrentes do domínio das classes dominantes no plano dos autênticos antivalores por elas impostos nos diversos recantos da vida nacional. Essa imposição resulta, como todos vamos sabendo e Cavaco Silva também não ignora, no primado absoluto do objectivo de «fazer dinheiro» sobre quaisquer considerações de ordem ética, no princípio de que os fins justificam os meios desde que se trate de «subir na vida», de «ter sucesso», de passar à frente do «outro» que é sempre olhado como um concorrente. Este é o terreno por onde o agora presidente Cavaco Silva tem caminhado e que, de resto, tem ajudado a cultivar. Ora, como é próprio de qualquer terreno onde foi implementada uma certa lavoura, também neste vai nascendo e crescendo uma determinada floração, não outra. As práticas que sempre são consideradas legítimas desde que dêem bom dinheiro, as traições pequenas ou grandes, o desprezo pelo amigo que pode ficar mal colocado, a avidez insaciável que não reconhece regras que a limitem, são a específica floração de um terreno assim. Que, inevitavelmente, dá os seus frutos. O Presidente Cavaco Silva provou agora o seu amargor.