Sexta-feira parda

Correia da Fonseca
Foi na passada sexta-feira. Já a melancolia dos crepúsculos se antecipava em consequência da mudança de hora, já os media pareciam ter esgotado todas as maneiras de nos dizer que a crise está aí e vai infernizar ainda mais o nosso já infernizado quotidiano (o que gera uma forma de melancolia bem mais aguda que o acinzentar dos céus), quando ele, o Dia Mundial da Poupança, chegou. Era sexta-feira, dia já de si mal reputado, com conhecida fama de ser propício a azares, pelo que é adequada a adopção de cautelas e também de estóicas resignações, pois bem se sabe que nem sempre as medidas preventivas são remédio santo para chatices e contratempos. Neste caso, porém, a única maneira de escapar aos efeitos deprimentes do Dia Mundial da Poupança teria sido talvez não ligar o televisor. Não propriamente pela Poupança, coitada, que não será má pessoa e de qualquer modo está inocente das inabilidades cometidas em seu santo nome, mas pela forma como naquele dia, em todos os telenoticiários de todos os canais terrestres e não só, bem como em alguns programas especialmente consagrados ao tema, os telespectadores foram destinatários de conselhos para que poupem cortando consumos ou optando por alternativas mais baratas, para que não desperdicem, para que adoptem medidas que terão como inevitável consequência fazerem baixar um pouco mais a sua qualidade de vida. Isto porque, como nos foi dito repetidamente e em vários tons, este nosso País é terra onde se poupa pouco, onde os níveis de aforro são pouco compatíveis com um desejável nível de saúde económico-financeira. E, aqui ou ali, até foram dados exemplos: são escassos e modestos, de um modo geral, os aforros consubstanciados em depósitos a prazo e outras aplicações afinal ao dispor de qualquer cidadão poupado; os planos de reforma complementar que o sector privado inventou para nossa felicidade na velhice são relativamente pouco utilizados. E parece ser uma pena que seja assim. Porque, embora não no-lo tenha sido dito directa e abertamente, parece que país onde os cidadãos não poupam, não amealham, não vai a parte nenhuma. Tudo isto a condizer e rimar com aquela já velha reprimenda que regularmente é dirigida a cada um de nós porque gastamos muito, porque vivemos acima das nossas posses. Que, presume-se, são afinal abundantes, o que estranhamente nos passa despercebido.

O sabor do insulto

Dir-se-á que o conselho para que se poupe é um bom conselho, um verdadeiro conselho de amigo. É certo, mas nesta como noutras coisas é saudável ir devagarinho antes de aceitarmos generalizações. Aconselhar poupanças a quem tenha por onde fazê-las é decerto uma boa acção cheiinha de virtuais consequências positivas quer no plano individual quer no plano nacional: comprar um bom carro sem que contudo seja topo-de-gama, dispensar uma nova vivenda que seria a terceira ou a quarta da família, evitar oferecer aos miúdos brinquedos cujo custo ombreia com o salário mínimo nacional (e que os garotos, saciados, rapidamente irão desprezar) serão sugestões sensatas e civicamente saudáveis que não ofendem ninguém. Coisa diferente, porém, será aconselhar parcimónia nos gastos a quem vive mergulhado em angústias por não saber como enfrentar as despesas inevitáveis que o esperam ao longo do mês, e essa é, como se sabe, a situação de uma quantidade de cidadãos portugueses que provavelmente são maioria. Recorde-se a percentagem dos que vivem em «pobreza técnica» e a dos muitos milhares de outros cujo quotidiano se situa pouco acima desse limite. Ora, a televisão é, como bem se sabe, um meio de comunicação de massas, o que significa que se dirige sem destrinças aos muitos que gostariam de poupar mas não podem e aos poucos que podem poupar mas não querem. E é claro que dizer a um pobre que ele deve «poupar mais» tem muito mais o sabor de insulto que o de conselho amigo. Assim, o que a televisão fez na passada sexta-feira esteve, por inabilidade, mais perto de ser um insulto à maioria dos telespectadores que um conselho inteligente e saudável. Para mais, correspondeu a um implícito desconhecimento da efectiva situação dos portugueses que surge como um misto de indiferença e de sobranceria. Ou, dizendo-o de outro modo, como uma outra forma de desprezar. De insultar.


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