A descoberta
Para todos os que se revejam num palavra, numa frase, numa sensação, num sonho, num sabor, num estremecimento.
Luísa levantou-se cedo com uma leve sensação de intranquilidade que não entendia. Era verdade que o seu amigo Luís ia almoçar a sua casa hoje e isso nunca tinha acontecido. Mas os dois faziam parte de um grupo muito maior de gente, de diversas opiniões e tendências, que se juntavam, sem problemas, quase todos os dias. É verdade que ela era do Partido e toda a gente sabia isso. Havia mais três ou quatro camaradas no grupo e quando chegava a Festa do Avante! todos iam juntos, mesmo os que se diziam perto do PS.
O Luís era um deles. Não era do Partido e a sua amizade especial com a Luísa nasceu de que ambos diziam que sabiam cozinhar.
Um dia decidiram pôr as coisas a limpo: primeiro comemos numa casa e depois na outra. Moeda ao ar: primeiro na casa da Luísa.
A Luísa vivia numa casa antiga da Madragoa, mais ou menos recuperada, com outra amiga para partilhar os gastos. Nesse sábado, a amiga tinha ido visitar os pais.
A casa estava bem arranjada, com a suficiente imaginaçao para poder utilizar móveis velhos, que limpos e envernizados, pareciam bem. Os dois quartos tinham espaços mínimos, mas suficientes para descansar e trabalhar. Sim, porque os pais da Luísa eram agricultores de perto de Coimbra, e pouco dinheiro sobrava para a filha. Assim ela tinha arranjado umas traduções para fazer, que foram aumentando e lhe permitiam viver sem a ajuda dos pais.
Os companheiros da sua célula tinham-na eleito para uma tarefa importante.Tinha ficado contente, mas sabia que mais trabalho ia chegar.
Pensando nisto tudo, colocou uma panela de pressão sobre o lume, deitou azeite e uma cebola grande cortada às rodelas. Enquanto isto começava a estufar, arranjou um pimento fresco,umas cenouras, uns cabaçotes (vulgo, courgettes) um tomate, uns cubos de cabaça amarela e foi pondo tudo isto na panela. Deixou estufar um pouco e colocou os pedaços de rabo-de-boi (de boi, não de vitela, que não sabe a nada), uns ao lado dos outros. Depois regou com meio litro largo de vinho tinto e temperou com sal, pimenta negra, um pau de canela e três cravinhos. Assegurou-se que o vinho chegava até á carne e fechou a panela. Ficaria atenta para baixar o lume quando a pressão subisse. O esturro é o principal inimigo deste prato, como ela dizia. Com o lume muito baixo, deixou ficar uns quarenta minutos. A carne devia separar-se dos ossos naturalmente. Cortou umas batatas em cubos que cozeriam no molho, quando o Luís chegasse. Talvez juntasse uns cominhos em pó. Gostava deste toque árabe.
Descascou uma meloa, cortou em cubos, deitou-lhe o sumo de meio limão, para não oxidar, salpicou com uns bocadinhos de presunto (50 gramas) cortado em quadradinhos milimétricos e umas amêndoas sem pele que partiu em bocadinhos pequeninos. Tudo isto espalhado sobre o melão que deu entrada no frigorífico. Quando fosse altura, cortaria um pouco de hortelã e espalharia sobre o melão. Era bonito e refrescante. Seria o primeiro prato.
Abriu uma garrafa de branco arinto e um tinto alentejano, encorpado como a carne pedia.
Luísa fez tudo isto, em meia-hora. Voltou à procura da sua inquietação. Deu uma volta pela casa, tudo estava bem e a mesa posta para os dois. Achava que não estava assim por causa do Luís. Eram tão amigos, mas não havia nada entre eles. Era certo que ele também não tinha ninguém mais amiga que ela. Tambem era certo que gostavam muito de estar juntos. Mas não era isso, pensava, perdida em si mesma.
Ultimamente dava por si a escrever coisas como «é um contentamento descontente», «vivo sem viver em mim», "haverá pastilhas para não sonhar?" e, a mais permanente "a vida é sonho, e os sonhos sonhos são». Gostava desses escritores, mas por que lhe vinham à cabeça essas frases? E sobretudo, por que gostava tanto delas.
Viu as horas. O Luís ainda não estava para chegar. Pôs música. Ia pôr a Yolanda do Pablo Milanes, que tanta gente dizia ser a mais bela canção de amor, e teve medo. Escolheu Piazzola, que a fazia arrepiar-se pela beleza sem limites.
Tinha na sala um velho sofá que tinha recuperado. Foi ao frigorífico e encheu um copo de branco. Sentou-se no sofá e olhou longamente a nesga de Tejo que podia ver («e se um dia fosse com o Luís subir o rio até onde nasce o Tej ?», pensou ela).
Depois a sua mente ficou em branco. Bebeu um golo e sentiu os sabores frescos e os cheiros do campo que estavam no vinho. Bebeu outro. Uma grande paz enchia o seu corpo. O Luís ia chegar.
Não sabia por quê, mas sabia que algo ia mudar na sua vida.
Fechou os olhos. E viu.