Reconstruir a nação
O vento progressista e democrático que vem soprando por toda a América Latina deu início a uma nova era política de limpeza dos velhos vícios oligárquicos que bloqueavam a participação efectiva dos trabalhadores que constroem as várias nações. Quando Lula foi eleito pela grande maioria dos brasileiros, muitos se emocionaram ao ver um homem simples do povo que saiu da miséria com sua família, enfrentou todas as dificuldades para tornar-se metalúrgico, participou da luta sindical em defesa dos operários, enfrentou perseguições políticas ao abraçar a luta nacional, formou-se como autodidacta nas questões sociais e económicas, atingiu o lugar de deputado federal e foi eleito Presidente da República.
Surgiu como um símbolo da mudança necessária no cenário político, eliminando velhos preconceitos de classe e superando as exigências formais da elite que dominava o país desde quando foi colónia de Portugal. Recebeu o apoio de Cuba, que fez a sua revolução em 1959, e da Venezuela, que introduziu os princípios da Revolução Bolivariana, cujos povos já lutavam contra o poder da elite filiada ao imperialismo. Os povos latino-americanos sentiram que chegava o momento de reconstruir as nações onde as maiorias enfrentavam a miséria e sobreviviam na informalidade.
E foram sendo eleitos governos comprometidos com o povo, com o desenvolvimento e com a unidade latino-americana: na Argentina, no Chile, no Uruguai, na Bolívia, no Paraguai, na Nicarágua, no Equador. Em outros países vizinhos as grandes massas até hoje excluídas do poder nacional, começam a manifestar a mesma intenção de eleger um representante dos interesses da maioria. São pobres, são indígenas, são os que vivem na informalidade sem usufruirem os benefícios da lei e das instituições do Estado que foi estruturado para atender os interesses da elite enriquecida e dos que a apoiam. A Bolívia elegeu Evo Morales que pertence à comunidade indígena que é a maioria da população nacional. Em discurso de posse Evo esclarece que percebeu «como o Estado não controla o Estado e as suas instituições», mantendo o «país transnacionalizado e descapitalizado» e propõe a «refundação da Bolívia mediante uma Assembleia Constituinte que deverá acabar com o Estado colonial». A sua fala é de uma honestidade incomum nos governantes: «Corrijam-me permanentemente, controlem-me e, se não posso avançar, empurrem-me», pede às massas populares dando forma ao que chamam de «nacionalismo plebeu». O representante dos interesses dos mais desfavorecidos nesses países elegeu-se com o voto popular e compreendeu a necessidade de formar uma aliança política que trouxe para a implantação do programa de governo os representantes dos demais sectores nacionais que aceitam a missão de refundar a nação com a união de todas as diferenças sociais. Os objectivos de cada sector não são ideologicamente idênticos pois há os que buscam apenas lucros e vantagens particulares. Mantiveram-se como oposição os que estão tão preocupados como as forças imperialistas que perdem a capacidade de mandar na América Latina como seu quintal. Mas estes se enfraquecem na medida em que a aliança no governo favorece alguns sectores económicos como os bancos e mesmo grandes empresas exportadoras que antes pertenciam ao bloco mais conservador. A aliança dos contrários é uma proposta arriscada, corajosa para quem a entende como estratégica na soma de forças para destronar a velha elite. Carregam a companhia dos que nem sempre pretendem fortalecer o poder do povo que ainda está à margem dos benefícios institucionais e até criam obstáculos que atraiçoam o caminho da mudança progressista. Tem início um caminho de luta permanente para manter o povo participante da dinâmica política e desenvolvendo uma nova consciência de cidadania mediante o grande esforço para que aquela população marginalizada, analfabeta, habituada a ser escravizada e injustiçada pelos que manipulam as instituições do Estado, alcance a sua condição de cidadania que implica em dignidade e independência para vencer os que detinham o poder até agora.
Fortalecer o Estado
que representa(rá) a Nação
Ao contrário do neocapitalismo que há décadas vem reduzindo o Estado ao «mínimo», privatizando as empresas e os recursos nacionais, mesmo aquela maioria que viveu (e ainda vive) à margem do Estado, sem apoio institucional por não dispor da documentação e da formação exigida a todo cidadão, sobrevivendo às custas do trabalho informal e perseguido como ilegal, ou que trabalhou como escravo sem documentos e sujeito a todo tipo de exploração exercida por grandes empresas poderosas, mesmo essa parcela do povo que sempre foi abandonada pelo Estado e humilhada por fortes preconceitos sociais, reconhece que a nação precisa de instituições competentes para formar e dar melhores condições de vida aos cidadãos. Essa população marginalizada defende o Estado que administra as riquezas do país sem delegar funções a entidades privadas e estrangeiras cujo interesse é elitista.
São necessárias muitas alterações na actuação do aparelho do Estado para que possa cumprir a vontade política de desenvolver o país e refundar a nação. Os cidadãos têm que conhecer todos os detalhes do Estado e reivindicar adaptações à nova realidade que é a favor da maioria. A capacidade de refundar uma nação e defender um Estado que foi formado para defender os interesses de uma elite mandante e exploradora exige uma forte consciência política e a capacidade de despojamento pessoal que só quem verdadeiramente já sentiu o sofrimento da exclusão social e tem a grandeza ética para pacientemente seguir resolvendo passo a passo as contradições que persistem numa fase de transformação dentro de um sistema antagónico. Muitos o fazem com a experiência de luta política revolucionária em que atravessaram grandes derrotas mas tiveram confiança em prosseguir o mesmo caminho, outros têm fé em que as boas intenções geram energias positivas a quem luta com honestidade e coragem, outros admiram as condutas éticas que estão na base da justiça e do respeito pelos direitos humanos. A absorção dos que vivem na informalidade é reconhecida pela nova política governamental que se expande pela América Latina. O que antes era punido pelas instituições e existia clandestinamente como ilegal e subterrâneo, hoje recebe várias formas de ajuda do próprio Estado e das organizações comunitárias para que possam adquirir as condições de formalidade institucional. Há muitas décadas o trabalho informal ocupa mais de 50% da população activa nos vários países latino-americanos. Não têm registro dos trabalhadores, que ficam fora do sistema previdenciário, não pagam impostos como empresa, misturam-se facilmente com um comércio clandestino que circula internacionalmente sem qualquer vigilância e, muitas vezes, sob o controlo do crime organizado.
No Brasil, onde Lula lançou a campanha Fome Zero, o governo entrou em contacto com os que só sobrevivem informalmente. Levou-lhes alimento mensal mas também inscreveu-os em um cadastro que serve de base ao sistema de ensino para as crianças, ao de saúde na atenção pública, ao registo civil, ao apoio para a formação de cooperativas artesanais ou para a venda de produtos agrícolas directamente ao mercado sem o obstáculo dos atravessadores, agora deu início aos cursos para formação profissional, para o apoio com o microcrédito para estimular a empresa individual ou familiar. É uma fase transitória de convívio do Estado, nas suas funções sociais de apoio ao cidadão, e o setor informal que se encontrava marginalizado na sociedade e aos poucos vai sendo incluído na vida institucional do país.
Valorizar a produção,
o trabalho e a criatividade
Uma das grandes contradições enfrentadas pelos que lutam por uma nação verdadeiramente democrática que inclui a participação popular sem desigualdade, é que o Estado elitista que herdamos valoriza o capital acima do trabalho e da criatividade dos que produzem. Defrontam-se os defensores do crescimento da riqueza, do lucro, com os que lutam para desenvolver as forças nacionais que serão capazes de criar uma riqueza bem dividida colectivamente.
Vivemos bombardeados pela propaganda que enche a vista com imagens de riqueza fácil e prometem soluções mágicas que transformam pobre em rico mediante o consumo de um produto fantástico. A base dessa produção consumista é um elevado investimento de capital que por meio da técnica alcança uma eficácia e eficiência de custo inferior ao que se deveria suportar para utilizar o trabalho humano. Evidentemente, esta produção cumpre apenas a meta económica mas não a social que promoverá o desenvolvimento da nação como um todo, incluindo a sua população.
O Estado, assim, estará beneficiando sobretudo os sectores financeiros – bancos, grandes indústrias quase sempre estrangeiras, ricos empresários (sócios estrangeiros) – em detrimento da grande massa trabalhadora que é substituída por máquinas e técnicas, para engrossar o exército de desempregados que cresce no mundo inteiro. Com esta visão exclusivamente financeira, de lucro, o Estado deixa de avaliar o custo do desemprego e as consequências nefastas para a população que ficará sem recursos para habitação, alimentação, educação e saúde, que irão sobrecarregar os orçamentos das instituições do próprio Estado (previdência, saúde, escolas, habitação etc.) limitando a capacidade desses serviços atenderem convenientemente a população que depende dos serviços públicos.
O sistema mundial, que tem por meta o maior lucro, gera contradições com as responsabilidades de desenvolvimento ecológico, social, e consequentemente, com a formação de seres humanos livres do stress, da violência, do egoísmo, da ambição de poder para dominar e explorar os seus semelhantes. Os grandes problemas que hoje assustam as populações: a extinção de espécies, a destruição do planeta, o aumento da criminalidade, a injusta distribuição da riqueza que gera a fome, a ambição financeira que promove as guerras, têm a sua raiz comum na visão financista que predomina nas estratégias políticas dos Estados.
Muitas são as iniciativas de fortalecimento das comunidades organizadas em torno de metas realistas de desenvolvimento social e económico, com o fomento de pequenas produções locais e da participação popular no controlo do governo local. Não se trata de uma visão medieval contra o Estado mas sim de fortalecimento da consciência e do desenvolvimento da cidadania que, com a união a nível nacional, poderá promover a mudança necessária na estratégia política não submissa à elite que domina o poder que está sob o controle das finanças.
Todos os sectores produtivos são importantes, a começar pelo trabalho individual que resulta na criação de produtos para a sobrevivência e também as produções para exportação, pois a comercialização internacional necessita trocar as suas pelas que não tem capacidade de criar. As quinquilharias e mesmo as máquinas cuja finalidade é substituir a mão-de-obra local não devem ser consumidas sem uma avaliação do nível de desenvolvimento alcançado pela sociedade que as absorve, para que não pese com obstáculo à produção existente. A China, com a sua população de mais de mil milhões de habitantes, e recém-saída da miséria feudal legada pelo colonialismo, hoje tem carência de mão-de-obra porque os seus jovens vão para os cursos profissionais. Todos trabalham para produzir o que o comércio interno e externo quiser comprar. O Estado investe na formação para a produção, não no lucro às custas do desenvolvimento social.
A inflação, o desperdício, a poluição
Complicadas teorias são apresentadas pelos financistas para explicar a inflação como se houvesse uma virose misteriosa movendo o sistema económico mundial a ser combatida com fórmulas financeiras. Nada falam sobre o desperdício que resulta do hábito crescente de consumismo que o chamado «mercado livre» e a dita «liberdade de imprensa» alimentam para escoar quinquilharias e luxo inúteis ao desenvolvimento nacional e pessoal. Ao contrário, estimulam os cidadãos a investirem no mercado de capitais que traz astronómicos lucros aos bancos, prendendo os usuários em uma bola de neve que cresce com as taxas bancárias e os impostos que aparentemente justificam o uso do dinheiro investido «protegendo-o» da sequência de crimes que ocorrem nas sociedades.
Todos os produtos, mesmo o arroz e feijão que são a base alimentar dos brasileiros, têm o preço inflacionado pelo uso de energia na mecanização da produção, no transporte do produto, e pelos derivados do petróleo que entram nos herbicidas e na feitura das embalagens. O preço dos alimentos, que é baixo para cobrir os custos enfrentados pelo produtor, sobe em 60% até chegar ao mercado de consumo. E, algumas vezes, por agregarem conservantes nocivos à saúde (não esquecemos que a Nestlé e a Parmalate foram processadas por tratarem o leite estragado com soda cáustica para parecer fresco) ainda elevam mais ainda o preço por «terem maior validade». Isto para não referir o que o consumidor gastará com os remédios para tratar os estragos causados por essa indústria que corre atrás do lucro com eficácia e eficiência exclusivamente comerciais.
Multiplica-se o lixo e a poluição, criados pelo mesmo «mercado livre» e divulgado pelo sistema publicitário que usa a «imprensa livre» em benefício de grandes empresas lucrativas que dominam as políticas económicas nacionais. No Brasil, onde uma campanha pela Fome Zero arduamente vai retirando milhões de cidadãos da miséria e da exclusão social, multiplicam-se as propagandas de novos carros que custam tanto ou mais que uma casa urbana. Apesar do insolúvel problema da poluição urbana que deriva da circulação dos carros e mata mais que graves doenças, as indústrias dão facilidades financeiras, com o apoio das empresas bancárias e de seguros, para que as frotas já imensas sejam renovadas aumentando o entupimento do trânsito nas cidades. Essas grandes contradições, que afectam a saúde, a vida diária dos cidadãos, a educação, a segurança, são omitidas pelos que só falam e mostram o crescimento económico, a riqueza proporcionada por lucros fáceis, ocultando os milhões de trabalhadores desempregados, os milhares de mortos pela poluição e acidentes nas ruas, o stress que leva o ser humano à loucura e à violência.
Os depósitos de lixo crescem em todas as cidades, invadem rios e praias, envenenam o solo agrícola, dispersam focos de doenças fatais. O combate possível a esse mal também é feito a nível comunitário e individual. Vagarosamente os exemplos de reciclagem mostram ao país e ao mundo que devemos reaproveitar os materiais desperdiçados às toneladas pela população que foi condicionada a comprar inutilidades ou excessos de produtos pelo todo poderoso «mercado livre». Soberanamente os financistas, que impõem as suas teorias à estratégia da política económica nacional, assistem às cenas de pessoas retirando comida dos lixões e desempregados carregando lixo reciclável às costas, recomendam o investimento em importações e fabricação nacional de inutilidades descartáveis que aumentam o volume do lixo e da poluição, oferecendo crédito com altos juros.
Todos os esbanjamentos no consumo, o lixo crescente e a poluição, enriquecem as grandes empresas financeiras e a indústria que elas alimentam. E hoje sabemos que essa produção de dejectos promove ainda a destruição do ambiente, da saúde humana, da sobrevivência do Planeta. As explicações complicadas que os teóricos das finanças dizem ser conceitos de economia menosprezam o que acima se disse, como «simplismo». Mas a verdade é mesmo simples e transparente.
Não é a civilização que está em crise, é o poder da elite que mantém a má distribuição da renda e os obstáculos ao desenvolvimento das nações com todas as consequências nefastas que a humanidade e o Planeta sofrem. Os sinais de mudança estão em marcha na América Latina, em cada nação com as condições deixadas pela sua história.
E foram sendo eleitos governos comprometidos com o povo, com o desenvolvimento e com a unidade latino-americana: na Argentina, no Chile, no Uruguai, na Bolívia, no Paraguai, na Nicarágua, no Equador. Em outros países vizinhos as grandes massas até hoje excluídas do poder nacional, começam a manifestar a mesma intenção de eleger um representante dos interesses da maioria. São pobres, são indígenas, são os que vivem na informalidade sem usufruirem os benefícios da lei e das instituições do Estado que foi estruturado para atender os interesses da elite enriquecida e dos que a apoiam. A Bolívia elegeu Evo Morales que pertence à comunidade indígena que é a maioria da população nacional. Em discurso de posse Evo esclarece que percebeu «como o Estado não controla o Estado e as suas instituições», mantendo o «país transnacionalizado e descapitalizado» e propõe a «refundação da Bolívia mediante uma Assembleia Constituinte que deverá acabar com o Estado colonial». A sua fala é de uma honestidade incomum nos governantes: «Corrijam-me permanentemente, controlem-me e, se não posso avançar, empurrem-me», pede às massas populares dando forma ao que chamam de «nacionalismo plebeu». O representante dos interesses dos mais desfavorecidos nesses países elegeu-se com o voto popular e compreendeu a necessidade de formar uma aliança política que trouxe para a implantação do programa de governo os representantes dos demais sectores nacionais que aceitam a missão de refundar a nação com a união de todas as diferenças sociais. Os objectivos de cada sector não são ideologicamente idênticos pois há os que buscam apenas lucros e vantagens particulares. Mantiveram-se como oposição os que estão tão preocupados como as forças imperialistas que perdem a capacidade de mandar na América Latina como seu quintal. Mas estes se enfraquecem na medida em que a aliança no governo favorece alguns sectores económicos como os bancos e mesmo grandes empresas exportadoras que antes pertenciam ao bloco mais conservador. A aliança dos contrários é uma proposta arriscada, corajosa para quem a entende como estratégica na soma de forças para destronar a velha elite. Carregam a companhia dos que nem sempre pretendem fortalecer o poder do povo que ainda está à margem dos benefícios institucionais e até criam obstáculos que atraiçoam o caminho da mudança progressista. Tem início um caminho de luta permanente para manter o povo participante da dinâmica política e desenvolvendo uma nova consciência de cidadania mediante o grande esforço para que aquela população marginalizada, analfabeta, habituada a ser escravizada e injustiçada pelos que manipulam as instituições do Estado, alcance a sua condição de cidadania que implica em dignidade e independência para vencer os que detinham o poder até agora.
Fortalecer o Estado
que representa(rá) a Nação
Ao contrário do neocapitalismo que há décadas vem reduzindo o Estado ao «mínimo», privatizando as empresas e os recursos nacionais, mesmo aquela maioria que viveu (e ainda vive) à margem do Estado, sem apoio institucional por não dispor da documentação e da formação exigida a todo cidadão, sobrevivendo às custas do trabalho informal e perseguido como ilegal, ou que trabalhou como escravo sem documentos e sujeito a todo tipo de exploração exercida por grandes empresas poderosas, mesmo essa parcela do povo que sempre foi abandonada pelo Estado e humilhada por fortes preconceitos sociais, reconhece que a nação precisa de instituições competentes para formar e dar melhores condições de vida aos cidadãos. Essa população marginalizada defende o Estado que administra as riquezas do país sem delegar funções a entidades privadas e estrangeiras cujo interesse é elitista.
São necessárias muitas alterações na actuação do aparelho do Estado para que possa cumprir a vontade política de desenvolver o país e refundar a nação. Os cidadãos têm que conhecer todos os detalhes do Estado e reivindicar adaptações à nova realidade que é a favor da maioria. A capacidade de refundar uma nação e defender um Estado que foi formado para defender os interesses de uma elite mandante e exploradora exige uma forte consciência política e a capacidade de despojamento pessoal que só quem verdadeiramente já sentiu o sofrimento da exclusão social e tem a grandeza ética para pacientemente seguir resolvendo passo a passo as contradições que persistem numa fase de transformação dentro de um sistema antagónico. Muitos o fazem com a experiência de luta política revolucionária em que atravessaram grandes derrotas mas tiveram confiança em prosseguir o mesmo caminho, outros têm fé em que as boas intenções geram energias positivas a quem luta com honestidade e coragem, outros admiram as condutas éticas que estão na base da justiça e do respeito pelos direitos humanos. A absorção dos que vivem na informalidade é reconhecida pela nova política governamental que se expande pela América Latina. O que antes era punido pelas instituições e existia clandestinamente como ilegal e subterrâneo, hoje recebe várias formas de ajuda do próprio Estado e das organizações comunitárias para que possam adquirir as condições de formalidade institucional. Há muitas décadas o trabalho informal ocupa mais de 50% da população activa nos vários países latino-americanos. Não têm registro dos trabalhadores, que ficam fora do sistema previdenciário, não pagam impostos como empresa, misturam-se facilmente com um comércio clandestino que circula internacionalmente sem qualquer vigilância e, muitas vezes, sob o controlo do crime organizado.
No Brasil, onde Lula lançou a campanha Fome Zero, o governo entrou em contacto com os que só sobrevivem informalmente. Levou-lhes alimento mensal mas também inscreveu-os em um cadastro que serve de base ao sistema de ensino para as crianças, ao de saúde na atenção pública, ao registo civil, ao apoio para a formação de cooperativas artesanais ou para a venda de produtos agrícolas directamente ao mercado sem o obstáculo dos atravessadores, agora deu início aos cursos para formação profissional, para o apoio com o microcrédito para estimular a empresa individual ou familiar. É uma fase transitória de convívio do Estado, nas suas funções sociais de apoio ao cidadão, e o setor informal que se encontrava marginalizado na sociedade e aos poucos vai sendo incluído na vida institucional do país.
Valorizar a produção,
o trabalho e a criatividade
Uma das grandes contradições enfrentadas pelos que lutam por uma nação verdadeiramente democrática que inclui a participação popular sem desigualdade, é que o Estado elitista que herdamos valoriza o capital acima do trabalho e da criatividade dos que produzem. Defrontam-se os defensores do crescimento da riqueza, do lucro, com os que lutam para desenvolver as forças nacionais que serão capazes de criar uma riqueza bem dividida colectivamente.
Vivemos bombardeados pela propaganda que enche a vista com imagens de riqueza fácil e prometem soluções mágicas que transformam pobre em rico mediante o consumo de um produto fantástico. A base dessa produção consumista é um elevado investimento de capital que por meio da técnica alcança uma eficácia e eficiência de custo inferior ao que se deveria suportar para utilizar o trabalho humano. Evidentemente, esta produção cumpre apenas a meta económica mas não a social que promoverá o desenvolvimento da nação como um todo, incluindo a sua população.
O Estado, assim, estará beneficiando sobretudo os sectores financeiros – bancos, grandes indústrias quase sempre estrangeiras, ricos empresários (sócios estrangeiros) – em detrimento da grande massa trabalhadora que é substituída por máquinas e técnicas, para engrossar o exército de desempregados que cresce no mundo inteiro. Com esta visão exclusivamente financeira, de lucro, o Estado deixa de avaliar o custo do desemprego e as consequências nefastas para a população que ficará sem recursos para habitação, alimentação, educação e saúde, que irão sobrecarregar os orçamentos das instituições do próprio Estado (previdência, saúde, escolas, habitação etc.) limitando a capacidade desses serviços atenderem convenientemente a população que depende dos serviços públicos.
O sistema mundial, que tem por meta o maior lucro, gera contradições com as responsabilidades de desenvolvimento ecológico, social, e consequentemente, com a formação de seres humanos livres do stress, da violência, do egoísmo, da ambição de poder para dominar e explorar os seus semelhantes. Os grandes problemas que hoje assustam as populações: a extinção de espécies, a destruição do planeta, o aumento da criminalidade, a injusta distribuição da riqueza que gera a fome, a ambição financeira que promove as guerras, têm a sua raiz comum na visão financista que predomina nas estratégias políticas dos Estados.
Muitas são as iniciativas de fortalecimento das comunidades organizadas em torno de metas realistas de desenvolvimento social e económico, com o fomento de pequenas produções locais e da participação popular no controlo do governo local. Não se trata de uma visão medieval contra o Estado mas sim de fortalecimento da consciência e do desenvolvimento da cidadania que, com a união a nível nacional, poderá promover a mudança necessária na estratégia política não submissa à elite que domina o poder que está sob o controle das finanças.
Todos os sectores produtivos são importantes, a começar pelo trabalho individual que resulta na criação de produtos para a sobrevivência e também as produções para exportação, pois a comercialização internacional necessita trocar as suas pelas que não tem capacidade de criar. As quinquilharias e mesmo as máquinas cuja finalidade é substituir a mão-de-obra local não devem ser consumidas sem uma avaliação do nível de desenvolvimento alcançado pela sociedade que as absorve, para que não pese com obstáculo à produção existente. A China, com a sua população de mais de mil milhões de habitantes, e recém-saída da miséria feudal legada pelo colonialismo, hoje tem carência de mão-de-obra porque os seus jovens vão para os cursos profissionais. Todos trabalham para produzir o que o comércio interno e externo quiser comprar. O Estado investe na formação para a produção, não no lucro às custas do desenvolvimento social.
A inflação, o desperdício, a poluição
Complicadas teorias são apresentadas pelos financistas para explicar a inflação como se houvesse uma virose misteriosa movendo o sistema económico mundial a ser combatida com fórmulas financeiras. Nada falam sobre o desperdício que resulta do hábito crescente de consumismo que o chamado «mercado livre» e a dita «liberdade de imprensa» alimentam para escoar quinquilharias e luxo inúteis ao desenvolvimento nacional e pessoal. Ao contrário, estimulam os cidadãos a investirem no mercado de capitais que traz astronómicos lucros aos bancos, prendendo os usuários em uma bola de neve que cresce com as taxas bancárias e os impostos que aparentemente justificam o uso do dinheiro investido «protegendo-o» da sequência de crimes que ocorrem nas sociedades.
Todos os produtos, mesmo o arroz e feijão que são a base alimentar dos brasileiros, têm o preço inflacionado pelo uso de energia na mecanização da produção, no transporte do produto, e pelos derivados do petróleo que entram nos herbicidas e na feitura das embalagens. O preço dos alimentos, que é baixo para cobrir os custos enfrentados pelo produtor, sobe em 60% até chegar ao mercado de consumo. E, algumas vezes, por agregarem conservantes nocivos à saúde (não esquecemos que a Nestlé e a Parmalate foram processadas por tratarem o leite estragado com soda cáustica para parecer fresco) ainda elevam mais ainda o preço por «terem maior validade». Isto para não referir o que o consumidor gastará com os remédios para tratar os estragos causados por essa indústria que corre atrás do lucro com eficácia e eficiência exclusivamente comerciais.
Multiplica-se o lixo e a poluição, criados pelo mesmo «mercado livre» e divulgado pelo sistema publicitário que usa a «imprensa livre» em benefício de grandes empresas lucrativas que dominam as políticas económicas nacionais. No Brasil, onde uma campanha pela Fome Zero arduamente vai retirando milhões de cidadãos da miséria e da exclusão social, multiplicam-se as propagandas de novos carros que custam tanto ou mais que uma casa urbana. Apesar do insolúvel problema da poluição urbana que deriva da circulação dos carros e mata mais que graves doenças, as indústrias dão facilidades financeiras, com o apoio das empresas bancárias e de seguros, para que as frotas já imensas sejam renovadas aumentando o entupimento do trânsito nas cidades. Essas grandes contradições, que afectam a saúde, a vida diária dos cidadãos, a educação, a segurança, são omitidas pelos que só falam e mostram o crescimento económico, a riqueza proporcionada por lucros fáceis, ocultando os milhões de trabalhadores desempregados, os milhares de mortos pela poluição e acidentes nas ruas, o stress que leva o ser humano à loucura e à violência.
Os depósitos de lixo crescem em todas as cidades, invadem rios e praias, envenenam o solo agrícola, dispersam focos de doenças fatais. O combate possível a esse mal também é feito a nível comunitário e individual. Vagarosamente os exemplos de reciclagem mostram ao país e ao mundo que devemos reaproveitar os materiais desperdiçados às toneladas pela população que foi condicionada a comprar inutilidades ou excessos de produtos pelo todo poderoso «mercado livre». Soberanamente os financistas, que impõem as suas teorias à estratégia da política económica nacional, assistem às cenas de pessoas retirando comida dos lixões e desempregados carregando lixo reciclável às costas, recomendam o investimento em importações e fabricação nacional de inutilidades descartáveis que aumentam o volume do lixo e da poluição, oferecendo crédito com altos juros.
Todos os esbanjamentos no consumo, o lixo crescente e a poluição, enriquecem as grandes empresas financeiras e a indústria que elas alimentam. E hoje sabemos que essa produção de dejectos promove ainda a destruição do ambiente, da saúde humana, da sobrevivência do Planeta. As explicações complicadas que os teóricos das finanças dizem ser conceitos de economia menosprezam o que acima se disse, como «simplismo». Mas a verdade é mesmo simples e transparente.
Não é a civilização que está em crise, é o poder da elite que mantém a má distribuição da renda e os obstáculos ao desenvolvimento das nações com todas as consequências nefastas que a humanidade e o Planeta sofrem. Os sinais de mudança estão em marcha na América Latina, em cada nação com as condições deixadas pela sua história.