A NATO na Ásia

«Obrigado Alemanha!»

Rui Paz

É provável para breve a conclusão de um entendimento sobre a repartição dos despojos da guerra

Em Agosto, a Alemanha e a Holanda transferiram formalmente para a NATO o comando das tropas estrangeiras em Cabul. Pela primeira vez, desde a sua constituição há 54 anos, a NATO intervém assim oficialmente fora da chamada zona «euro-atlântica» como força de ocupação. O comando das tropas da Aliança foi assumido pelo general alemão Götz Gliemeroth. A Alemanha detém um dos maiores contigentes de tropas na capital afegã e continua a ser depois dos Estados Unidos um dos principais sustentáculos e beneficiários do regime corrupto de Karsai. No acto de transmissão do comando em Cabul, o ministro da Defesa do gabinete de Schröder, Peter Struck, defendeu o aumento da presença militar alemã no Afeganistão, repetindo que os interesses de Berlim também se defendem no Hindukush, e alvitrou a possibilidade da Alemanha participar militarmente na ocupação do Iraque.

Se a confusão dos deputados da coligação governamental foi grande, o regozijo do presidente americano não foi menor. «Obrigado Alemanha!» rejubilaram no dia seguinte os media ao descreverem a reacção de George Bush. De facto, o presidente, no seu rancho no Texas, não só salientou a grande importância da participação militar da Alemanha no Afeganistão, expressando a sua admiração por a contribuição de Berlim ser «mais ampla e robusta do que os EUA esperavam» mas concluiu ainda que era «com o maior prazer» que manifestava o seu «agradecimento pessoal ao chanceler Schröder».

Em Setembro o chanceler visita oficialmente Washington. E enquanto o ministro da Defesa iniciava em Cabul o ritual do beija-mão à Casa Branca, os empresários alemães encontraram-se em Petersberg para estudar as perspectivas de investimento no Iraque, exactamente na mesma sala em que a Alemanha e os Estados Unidos «elegeram» Karsai presidente do Afeganistão. É pois provável que esteja para breve a conclusão de um entendimento sobre a repartição dos despojos da guerra contra Bagdad. Segundo o noticiário da ZDF (2.9.03), a última proposta norte-americana apontava para que as empresas alemãs ficassem com a rede de abastecimento de água, o fornecimento de máquinas e a indústria alimentar,

Entretanto o americano Thomas C. Forley, chefe do grupo NTC, um dos principais patrocinadores da campanha eleitoral do presidente Bush, assumiu o controlo do sector empresarial do Estado no Iraque com a excepção de dois bancos e da indústria petrolífera (já entregue à Halliburton, a companhia ligada ao vice-presidente Dick Cheney). Forley terá poder de decisão sobre o destino de 200 empresas com cerca de 500 mil trabalhadores. Segundo a Administração Americana, o amigo íntimo do presidente irá «verificar a situação económica de cada unidade e apresentar um plano de privatização». O grupo dirigido por Forley é célebre nos EUA pelo culto desses «valores» supremos das «democracias ocidentais» como a liquidação maciça de postos de trabalho e o pagamento de baixos salários. Washington e Berlim sabem que os lucros da «guerra contra o terrorismo»
podem ser fabulosos. O maior problema reside em criar condições que permitam aos agressores trocar a farda de invasores pelo smocking de «investidores».

Para quem durante décadas de guerra fria foi bombardeado pela propaganda da chamada «defesa do mundo livre», o novo conceito estratégico e o avanço da NATO até ao coração da Ásia confirmam claramente o papel desempenhado pela Aliança militar enquanto instrumento para a imposição dos interesses das classes dominantes e do capitalismo global. Não é por acaso que os analistas mais esclarecidos provenientes dos mais diversos quadrantes políticos descobrem diariamente novas formas para caracterizar a Organização Militar de Bruxelas, tais como «escolta do petróleo», «braço armado do novo colonialismo», «legião estrangeira do Pentágono»...


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