Gambozinos

Anabela Fino
O marxismo-leninismo «é uma fórmula mágica, uma espécie de gambozinos do pensamento revolucionário». A lapidar sentença é de Eduardo Prado Coelho (EPC), que na sua crónica de terça-feira, no «Público», mandou às malvas os seus presumíveis discernimento e honestidade intelectual para conseguir chegar à brilhante conclusão de que a Festa do Avante! «existe fora do tempo», pois tanto «podia ser hoje como podia ter sido no final do século XIX».
A dedução de EPC baseia-se no facto de, num dos muitos debates realizados na Festa, se ter citado Lenine a propósito dos «ruidosos renovadores» da época, os quais, dizia, «não ensinaram ao proletariado nenhum processo de luta, ensinaram a teoria das concessões».
Sendo de admitir que EPC conhece um pouco de história, certamente já terá verificado que, contextos à parte, os argumentos da chamada «renovação» se repetem quase a papel químico em todos os processos em que os ditos renovadores decidem ser chegada a hora de mudar de rumo, mudar de nome, mudar de símbolos, mudar de ideais. Porquê então esta pretensa ironia? Porque EPC não gosta de um hífen muito particular: o que une marxismo e leninismo. Porque o grande pecado do PCP é afirmar-se marxista-leninista.
Não deixa de ser curioso que um professor catedrático afirme, sem pestanejar, que «não há hoje, em qualquer parte do mundo, um único pensador que seja marxista-leninista», escandalizando-se com o facto de, aparentemente, só o PCP não ter dado por isso.
Falta-nos, naturalmente, o rotundo discurso de EPC e a sua não menos rotunda sabedoria, mas ocorre-nos, ao lê-lo, as palavras de Marx sobre os muitos filósofos que se dedicaram a interpretar o mundo, para logo nos lembrar que a grande questão é transformá-lo. Não é essa, obviamente, a opção de EPC, que prefere visitar a Festa do Avante! através das páginas dos jornais em vez de meter pés a caminho e ir observar in loco esse estranho fenómeno, que ano após ano leva centenas de milhar de pessoas à grande festa dos comunistas. Se o fizesse, descobriria que os visitantes são pessoas de todas as idades, com uma presença cada vez mais forte da juventude, e não apenas idosos militantes, como subrepticiamente sugere; que a «espécie de regresso desesperado a Estaline» - como diz na crónica ter-se notado na Festa - se traduziu na venda de camisolas que os jovens acharam muito «cool»; ou que a pretensa «intolerância» dos comunistas não impede que gente de todos os partidos e sem partido nenhum conviva fraternalmente e debata livremente as suas ideias.
Numa prosa que destila tanta desonestidade intelectual nem os gambozinos se salvam. É provavelmente um trauma de infância, que só podemos lamentar, mas que não justifica o recurso soez a tão poética figura do imaginário colectivo, ritual de iniciação de gerações inteiras, para escamotear uma tendência muito renovadora para o anticomunismo primário.
Os gambozinos não merecem que lhes mandemos EPC. Deixemo-lo à caça dos hífens, sentado à secretária. Talvez um dia descubra que a vida está lá fora, nas festas que são de luta e nas lutas que podem ser uma festa.


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