O fascismo em «prime time»

Correia da Fonseca
Antes do mais, entendamo-nos quanto a um ponto que não é irrelevante: não duvido nem um poucochinho dos bons sentimentos, da generosidade e da pulsão para praticar o bem da senhora dona Maria Estefânia Anacoreta, figura centralíssima do documentário intitulado «A Voz da Saudade» que a RTP1 transmitiu no passado domingo, às 21 horas, quando talvez muitos telespectadores acorressem àquele canal na expectativa de voltarem a recolher os preciosos ensinamentos que aos domingos e àquela mesma hora o professor Marcelo distribui pelos seus fiéis e também pelos infiéis. Porém, pelos vistos o professor continuava em férias e, digamos que em seu lugar, surgiu-lhes o relato das generosas aventuras da senhora dona Maria Estefânia em terras de África, então ditas do Ultramar. Tudo quanto levou a senhora para tão longes terras foi o seu bom coração que a estimulou a levar aos soldados que, como no documentário se ouviu, ali se bateriam «por Deus, pela Pátria e pela Família», célebre trilogia, o reconforto da voz dos seus familiares. Assim, não ponho em dúvida os excelentes sentimentos da senhora. Mas sei, como é fácil saber a quem a isso se disponha, que bons sentimentos e outros pacíficos méritos individuais não garantem a bondade da causa a que se dedique uma senhora ou um cavalheiro. Abundariam os exemplos que comprovariam essa distinção, mas não quero misturar o nome de dona Maria Estefânia com os nomes tristemente célebres de famosos criminosos que foram excelentes chefes de família e/ou dotados executantes da melhor música sacra que sempre lhes despertava os mais acrisolados arroubos religiosos. dona Maria Estefânia voava para África com o único fito de levar alegria aos jovens que para África tinham sido mandados. Cumprida a missão, voltava para Portugal, então designada por «Metrópole», e os jovens lá ficavam. Para matar ou para morrer, isso depois se veria.

A honra da Pátria

Porém, para lá dos bons sentimentos de dona Maria Estefânia, o que aconteceu no canal principal da estação pública de televisão e em pleno «prime time» foi a transmissão de um extenso documentário abundantemente revelador da acção supostamente generosa e patriótica do famigerado Movimento Nacional Feminino, feudo de dona Cilinha Supico Pinto para apoio moral às tropas enviadas para defender a ocupação colonial-fascista de territórios africanos numa guerra injusta e criminosa apoiada em falácias teóricas insustentáveis. É certo que o documentário insinuava a dada altura que o relacionamento entre dona Maria Estefânia e o MNF não seria o melhor, mas não se tratava de nenhuma divergência de facto relevante mas antes, tanto quanto se percebeu, de pequeninas dificuldades frequentes entre mulheres. Quanto ao que seria de facto importante, lá vimos e ouvimos a dona Supico a arengar o patrioteirismo dos opressores; lá vimos e ouvimos uma outra e decerto excelente senhora, por sinal com mau aspecto, a debitar pela mesma cartilha; lá vimos até o doutor Salazar rodeado de uma espécie de harém ideológico que seguramente lhe assegurava o suposto apoio das «mães portuguesas» à guerra infame e inútil em que ele porfiava. E o pior é que não vimos nem ouvimos uma única referência, uma só imagem, que lembrassem os que se batiam pela independência dos seus povos ou se arriscavam para contrariar a sangueira que, além do mais, manchava o nome de Portugal. Porque, não nos deixemos enganar, a dignidade não estava do lado das armas portuguesas, por muita valentia e generosidade que elas tenham exigido. No documentário, ouviu-se por mais de uma vez falar da «honra da Pátria» que os militares portugueses estariam a defender. Infelizmente, porém, a honra da Pátria ardia de cada vez que uma palhota africana era incendiada, cada vez que mães negras eram assassinadas ou um guerrilheiro era torturado. A honra da Pátria foi salva pelos que sempre se opuseram à guerra iníqua e finalmente pelos que lhe puseram termo. É claro que dona Maria Estefânia não sabia nada destas coisas. Sabiam-no decerto, porém, os autores do documentário e os que decidiram transmiti-lo em «horário nobre» do canal principal da estação pública de TV. E, porque o sabiam, a opção que tomaram ingressa inevitavelmente no seu currículo e ali fica como uma nódoa. Sanguinolenta.


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