Educação física, nova escola e desporto popular (III)

A. Mello de Carvalho
A função que a educação física e, naturalmente o desporto, assumem na vida criança e do jovem que frequentam a sua escola, assume um significado bem mais importante, complexo e profundo, do que aquilo que normalmente se pensa entre nós.
A forma como a nossa escola encara este problema é singularmente redutora devido à predominância de uma visão que não coloca a criança no centro das suas preocupações e valoriza, quase em exclusivo, o acto de ensino recusando a perspectiva de uma educação integral. A forma como aqui se coloca o problema é bem diferente da habitual, podendo até chocar pela abertura de novas perspectivas. A verdade é que é indispensável considerar a educação física como uma forma essencial de construção da força de trabalho e de contribuição para a sua reprodução futura. Vista desta forma, a justificação clássica da melhoria da saúde da criança e do jovem está presente, mas é largamente ultrapassada, para assumir um significado muito mais vasto, referido à formação cultural polivalente da juventude, e à criação de novas respostas às necessidades extremamente moventes da sociedade contemporânea (adaptação permanente a novas formas de trabalho, movimento criativo, adaptabilidade a novas situações, manutenção alargada de diferentes capacidades psico-físicas, etc.).
Através desta função garante-se a resposta simultânea a dois tipos de necessidades do ser humano: às do presente, no ser em crescimento, e às do futuro, entendendo o indivíduo como um elemento produtor com uma capacidade adaptativa superior. Tomada em conta esta última perspectiva, não deixa de ser significativo que se verifiquem, nas correntes doutrinárias dominantes, dois fenómenos contraditórios: por um lado, defende-se o valor económico do desporto, mas ao mesmo tempo, limita-se a «formação» desportiva à formação de um novo mercado de consumo renegando, quase por completo, a sua função educativa. Facilmente se compreende que a perspectiva aqui defendida nega esta contradição e defende uma forma completamente diferente de entender a presença do desporto na vida da criança e do jovem. A criança é um «aqui e agora» que tem de encontrar resposta para as suas necessidades no presente. Mas é também «futuro em potência» e as respostas a esta questão têm de o tomar na devida conta. Desta forma, a função da formação desportiva (e da educação física) adquire um significado novo, de carácter essencial, obedecendo a uma perspectiva que nada tem a ver com as análises habituais atrás mencionadas pois não se refere ao consumo das actividades, mas ao desenvolvimento mais completo das aptidões do ser em crescimento e à elevação da capacidade produtiva do indivíduo a partir do presente projectando-se no futuro.

De facto, em torno da formação generalizada dos jovens, sob o ponto de vista da sua capacidade motora, o que está em jogo é muito mais do que o próprio desporto, ao contrário daquilo que pensa a generalidade das federações desportivas, da opinião pública e das próprias escolas. Nesta perspectiva, é através desta função que, durante a formação geral dos jovens, lhe deve ser garantida a formação, desenvolvimento e aperfeiçoamento das capacidades motoras essenciais para o desempenho «aberto» para o futuro da profissão, a construção das bases da sua saúde e da forma de manter a sua capacidade de trabalho. Ao mesmo tempo esta acção tem de responder às necessidades actuais de movimento, de actividade lúdica, de estruturação de capacidades e de resposta à evolução da maturação na perspectiva do seu desenvolvimento físico, psicológico e social. Ao mesmo tempo é indispensável contribuir para a estruturação de um processo cultural, de que a cultura física e, dentro desta, a cultura desportiva, são parte inevitável e importante. Está em causa o seu futuro como trabalhador, como indivíduo e como cidadão, se é que esta separação possui algum sentido. Mas, ao mesmo tempo, estão em causa os seus direitos de ser humano em crescimento, com necessidades próprias no presente da sua vida.
Também por estas razões, as funções da educação física e do desporto encontram uma tripla justificação: referindo-se a todas as crianças e adolescentes, deveria ser obrigatória, na pior das hipóteses, até aos 18 anos, estando directamente integrada no processo educativo, seja dentro da escola, seja dentro da empresa, como ser em permanente desenvolvimento, como produtor em formação e como factor sociabilizador dentro da comunidade. Evidentemente que a resposta a estas três justificações impõe uma simultânea transformação da escola, do clube, do ambiente, do trabalho, do tipo das relações do jovem com a comunidade e da própria concepção da formação. O projecto é indispensável para o futuro seja qual for a sociedade que tivermos. É demasiado ambicioso e vasto, dizem uns, utópico até. Quanto a nós, parece-nos que o que se pretende é a imobilidade oportunista do habitual «deixa andar», de forma a que os interesses diferenciados que comandavam o processo educativo possam continuar a comandar toda a dinâmica social.


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