Informação atlântica

Correia da Fonseca
Não foi a televisão que me informou de que o presidente Saakashvili da Geórgia, antes de o ser, foi advogado numa importante firma de advocacia de Nova Iorque. Parecendo-me uma informação importante, tive pena de que a TV, que me conta quase tudo acerca da gravidez de vedetas de Hollywood, tivesse aparentemente omitido este dado. Aliás, também não foi pela televisão que eu soube, há já bem mais que um bom par de anos, que o pai de Lech Walesa era ou havia sido emigrante nos Estados Unidos como tantos outros polacos. Não é que informações destas expliquem tudo ou quase tudo, longe disso, mas não poderá talvez dizer-se que são totalmente insignificantes, tanto e de tal modo que a informação em geral e a televisiva em especial deva esquecê-las, se não premeditadamente suprimi-las. É claro que Saakashvili poderia ter feito precisamente a mesma coisa, ou ainda pior, mesmo que nunca tivesse saído de Tblissi, mas exactamente por isso não valeria muito a pena esquecer o seu passado como quem quer evitar suspeitas que os factos poderão reforçar. Também, como toda a gente recordará, o arcebispo Marcinkus, braço direito de João Paulo II, o papa de quem se diz (e aplaude) que ajudou a derrotar o comunismo do Leste Europeu havia sido arcebispo de Nova Iorque. Pelos vistos, Nova Iorque parece ser um bom sítio como lugar de estágio para quem queira vir, depois, para a Europa combater os infiéis. Mas a escassa ou nenhuma informação da comunicação social, e sobretudo da TV que é o que aqui mais interessa, acerca da carreira norte-americana de Saakashvili teria pouca importância se quanto ao resto se tivesse assistido a um noticiário asseado, isento e respeitador da verdade dos factos. Infelizmente, porém, não foi isso que aconteceu, que vem acontecendo, e por isso o que bem podia ser um esquecimento irrelevante corre o risco de ser olhado com uma outra dimensão bem mais grave. É nestes momentos que a comunicação social justifica o apodo de manipulação social e se arrisca a que a sua imagem se torne feia, porca e má. Mesmo que seja eficaz a enganar muita gente, o que é uma outra vertente da questão.

Uma estátua em Gori

Como saberão os mais atentos, ou até os que ao caso tiverem dispensado uma atenção mínima, o chamado conflito da Geórgia começou por o presidente Saakashvili, aparentemente encorajado pela visita de Condoleza Rice fizera dois ou três dias antes, decidiu que as tropas da Geórgia entrassem na Ossétia do Sul, território de maioria étnica russa que, embora integrado no estado georgiano, se pretende autónomo. Anote-se de passagem que esta visita de Rice a Tblissi nas vésperas do ataque à Ossétia me lembrou, mas admito que apenas a mim, a visita de Kissinger a Jacarta nas vésperas da invasão indonésia de Timor. O facto é que a iniciativa de Saakashvili até foi publicamente considerada por vários dirigentes ocidentais precipitada e excessiva. Isto não impediu, porém, que rapidamente os media ocidentais/atlânticos arrancassem com um sistemático trabalho supostamente informativo que, perante a intervenção de tropas russas para defesa da população russa e dos reconhecidos direitos da Ossétia a um estatuto de autonomia, passaram a tratar a Rússia como agressora e a Geórgia de Saakashvili como agredida. Por acaso, não há muito tempo forças norte-americanas haviam desenvolvido exercícios militares em cooperação com a Geórgia, um milhar de soldados da Geórgia estava no Afeganistão decerto a ajudar os norte-americanos a encontrar Bin Laden (em face da alegada «agressão» russa terão voltado à Geórgia transportados por aviões USA), mas nada disso é muito falado. O que é falado, filmado, comentado, é o efeito do «ataque» russo. Enviados especiais abordam vítimas da guerra deixando sempre, mais sugerida que afirmada, a pretensa responsabilidade russa. Tudo começa a passar-se como se no Ocidente estivesse esquecido que a URSS já não existe, que a Rússia actual não é comunista, pelo que regressam as campanhas mediáticas de desinformação e aldrabice. É a fidelidade atlântica em todo o seu esplendor. Talvez a alguns olhares mais minuciosamente atentos e mais sensíveis tenha impressionado uma estátua de Estaline que permanece erecta em Gori. Mas não há que ter medo, o homem morreu mesmo. A força o povo russo é que parece que não.


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