O direito a entender
A televisão mostrou-nos imagens do acolhimento dispensado por Israel a militantes do Hamas em perigo de vida na sequência dos violentos confrontos havidos com militantes da Fatah. Na verdade, se bem olhei e entendi, o tal acolhimento não terá sido nada de espectacularmente simpático: pareceu-me ver uns sujeitos de indumentária reduzida ao mínimo e de mãos atadas atrás das costas, mas se de qualquer modo se tratava de lhes salvar as vidas, tudo bem, ali estavam uma vez mais sinais da tradicional hospitalidade israelita. Aliás, se porventura me engano na interpretação das imagens peço desculpa, mas talvez mais este eventual erro seja consequência de a TV explicar mal as coisas que nos mostra, certas coisas, ou mesmo não as explicar de todo. Tenho para mim como certo que, para lá de trazer a nossas casas imagens e sons dos quatro cantos do mundo, a televisão tem o dever complementar de nos explicar o que eles significam, a que realidade correspondem, como e porquê as coisas acontecem. Parece-me mesmo que esse dever é extensivo a todas as estações de televisão, independentemente de o chamado serviço público (que há-de corresponder a utilidade pública) estar formalmente confiado a umas e não a outras: na verdade, toda a TV há-de ter uma componente de serviço público que, de resto, é indispensável à sua legitimação. E creio que mesmo o doutor Balsemão, cavaleiro andante da televisão privada em Portugal, é desta mesma opinião. O que só o honra, naturalmente, por mais que a prática da estação que de facto lhe pertence quase sempre pareça ser um outro assunto, distância que aliás não espanta porque nem todos se resolvem a praticar a unidade da teoria e da prática. Voltemos, porém, às imagens dos militantes do Hamas e, partindo delas para generalizar, à extrema penúria de dados explicativos que, se a televisão condescendesse em fornecer, permitiriam que entendêssemos os acontecimentos para lá da superfície. Neste caso, como aliás em muitos outros, é como se a TV apenas nos servisse a casca e se dispensasse de nos servir a polpa do fruto. O que não parece muito bem.
Perguntas, respostas
A cobertura que a televisão portuguesa tem feito da terrível tragédia palestiniana é paradigmática deste comportamento que de facto recusa aos telespectadores o direito de entender embora lhes forneça, por vezes copiosamente, informações avulsas, muitas vezes chocantes, até significativas. No que se refere à situação actual, sabe a generalidade dos telespectadores portugueses, ou pelo menos aquela fracção que se interessa um pouco pelo que vai pelo mundo, que os palestinianos estão cindidos em duas grandes forças, a Fatah, com um respeitável currículo histórico, e o Hamas, mais exigente perante a já velha agressão de Israel.
Esta cisão talvez não tivesse de conduzir a consequências trágicas e tendencialmente funestas para a causa palestiniana, mas a instalação de uma situação de guerra civil entre elas surge como obstáculo gigantesco à criação do Estado Palestiniano, objectivo tão justo que não há figura política que se atreva a contestá-lo. Sendo assim, surge naturalmente a pergunta: como se tornou possível esta cisão com a dimensão a que chegou e as consequências que tem? Pergunta que se complementa com uma outra, ou melhor, com mais algumas: quem ganha esta situação fratricida nas fileiras palestinianas; quem tem força política (e não só) para estimular divisões, intrigar, sabotar acordos? Não é preciso ser o Hércules Poirot para responder à pergunta acerca do ganhador: é, evidentemente, Israel. E quanto a quem tem poderes e força para semear discórdias entre combatentes por uma Palestina independente (e provavelmente pouco pró-americana), para sabotar acordos no plano diplomático e tecer intrigas pela mão de serviços secretos, também não é grande mistério: são, obviamente os Estados Unidos. Aliás, há quanto a isso documentação e depoimentos concludentes, mas quem o sabe bem é o jornalista José Goulão, especialista em assuntos do Médio Oriente que há muito tempo ninguém vê nos ecrãs dos televisores. Também quanto a esta presença preciosa a TV segue o mesmo caminho: conceder-nos o direito de ver algumas imagens, recusar-nos o direito de entender. Talvez pela mesma razão dos maus velhos tempos: por ainda não estarmos maduros para aceder a uma informação completa. E não apenas à sua casca.
Perguntas, respostas
A cobertura que a televisão portuguesa tem feito da terrível tragédia palestiniana é paradigmática deste comportamento que de facto recusa aos telespectadores o direito de entender embora lhes forneça, por vezes copiosamente, informações avulsas, muitas vezes chocantes, até significativas. No que se refere à situação actual, sabe a generalidade dos telespectadores portugueses, ou pelo menos aquela fracção que se interessa um pouco pelo que vai pelo mundo, que os palestinianos estão cindidos em duas grandes forças, a Fatah, com um respeitável currículo histórico, e o Hamas, mais exigente perante a já velha agressão de Israel.
Esta cisão talvez não tivesse de conduzir a consequências trágicas e tendencialmente funestas para a causa palestiniana, mas a instalação de uma situação de guerra civil entre elas surge como obstáculo gigantesco à criação do Estado Palestiniano, objectivo tão justo que não há figura política que se atreva a contestá-lo. Sendo assim, surge naturalmente a pergunta: como se tornou possível esta cisão com a dimensão a que chegou e as consequências que tem? Pergunta que se complementa com uma outra, ou melhor, com mais algumas: quem ganha esta situação fratricida nas fileiras palestinianas; quem tem força política (e não só) para estimular divisões, intrigar, sabotar acordos? Não é preciso ser o Hércules Poirot para responder à pergunta acerca do ganhador: é, evidentemente, Israel. E quanto a quem tem poderes e força para semear discórdias entre combatentes por uma Palestina independente (e provavelmente pouco pró-americana), para sabotar acordos no plano diplomático e tecer intrigas pela mão de serviços secretos, também não é grande mistério: são, obviamente os Estados Unidos. Aliás, há quanto a isso documentação e depoimentos concludentes, mas quem o sabe bem é o jornalista José Goulão, especialista em assuntos do Médio Oriente que há muito tempo ninguém vê nos ecrãs dos televisores. Também quanto a esta presença preciosa a TV segue o mesmo caminho: conceder-nos o direito de ver algumas imagens, recusar-nos o direito de entender. Talvez pela mesma razão dos maus velhos tempos: por ainda não estarmos maduros para aceder a uma informação completa. E não apenas à sua casca.