Benditas contas-correntes!...
Arrumada a um cantinho da Concordata de 1940 pode ler-se que o Estado português não só reconhece à Igreja Católica o direito à isenção do pagamento de um vastíssimo leque de taxas fiscais e contribuições como também a isenta do dever da prestação pública das suas contas anuais. A Igreja Católica portuguesa assume, deste modo, a invejável dimensão de um gigantesco off-shore cotado nos mercados mundiais. Praticamente sem fiscalização efectiva do Estado, o Direito Canónico põe e dispõe de um imenso parque imobiliário, de fundações e da compra e venda de valores que tanto podem ficar no país como serem exportados para destino incerto, visto que a Concordata vigora segundo um acordo diplomático firmado entre Portugal e o Estado do Vaticano. Na base destas imunidades, a Igreja Católica instalou no país uma imensa malha de empresas subsidiárias, ditas humanitárias mas com objectivos lucrativos e não lucrativos, distinção que lhe permite receber subsídios do Estado e, simultaneamente, ocultar os lucros da respectiva exploração comercial. É o caso, por exemplo, das misericórdias, das escolas católicas ou de centenas de Irmandades e movimentos laicos da «sociedade civil» apenas regidos pelo direito canónico mas subsidiados pelos fundos públicos.
A «cortina de silêncio» ameaça ruir...
Muito recentemente começou a esboçar-se nalguma imprensa portuguesa a tendência para tratar a Igreja de forma crítica, como qualquer outra instituição. É uma reacção saudável, em grande parte desencadeada pela rápida degradação dos mitos e tabus religiosos. É um «sinal dos tempos».
Por exemplo, sabemos agora através das «fugas» permitidas nos órgãos de comunicação portugueses, alguma coisa do que vai acontecendo com os negócios da Igreja. Veja-se o caso exemplar dos Salesianos de S. João Bosco. A história é breve e envolve milhões.
Na área de Vendas Novas os salesianos possuem vastos terrenos. Decidiram portanto rentabilizá-los construindo e transaccionando um lote de 415 apartamentos. A câmara municipal aprovou o projecto e tudo diria que os salesianos iriam começar a construir. Mas vieram tempos de crise na região. Havia em Vendas Novas 700 andares para venda que não tinham compradores. Loucura seria insistir no projecto.
Foi então que sobreveio um golpe de teatro. Sócrates, sempre atento ao cheiro dos negócios, abandonou a ideia do aeroporto na Ota e transferiu-a para o projecto de Alcochete que fica, por estrada, a escassos 20 minutos de percurso. Num abrir e fechar de olhos, os terrenos dos salesianos valorizavam-se em muitos milhões. Tão grande é o volume do investimento que os religiosos ainda pensaram em criar uma empresa – a «Salvita» – para gerir a empreitada dos apartamentos. Recuara, depois, por boas razões: os salesianos fazem voto de pobreza e, nestes termos, tornar-se-ia arriscado surgirem como capitalistas perante a opinião pública. Aliás, a Ordem tem em curso outros ambiciosos projectos ligados ao turismo, sobretudo em Évora e no Minho onde administra uma rede de hotéis e pousadas.
Não se pense que são somente os salesianos que exploram o negócio do mercado religioso. Fátima recebe anualmente cerca de 5 milhões de peregrinos que deixam nos cofres da Igreja, todos os anos, qualquer coisa como 700 milhões de euros. E não é apenas o Santuário que alimenta as fortunas patriarcais. O «turismo religioso» atrai as classes mais endinheiradas e permite a circulação de interesses entre ramos financeiros muito distintos, da banca à construção civil ou da restauração ao pequeno comércio local. Há grandes investimentos em jogo.
Ainda recentemente um facto (que a Igreja bem gostaria de não ver debatido) veio confirmar a enorme dimensão do negócio. Pela mão de José Roquete, o polémico banqueiro, os bispos regressam aos bancos da escola. Os grandes patrões católicos vão ensinar à hierarquia como organizar as dioceses nos moldes das holdings neoliberais. Os cursos decorrem em Fátima e iniciam-se com uma arenga do próprio José Roquete subordinada ao tema esclarecedor «Critérios e modos de organização, gestão e liderança numa Igreja-Comunhão». Um assunto que comove o ateu mais empedernido e obriga o presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores a apontar para a importância do modelo de gestão capitalista: «Imagine-se o que é gerir um património como o da Igreja, com tantos bens. Claro que isso pode ser feito de uma forma mais exigente! Hoje, as dioceses têm áreas incomensuráveis que exigem dos nossos bispos uma enorme capacidade de gestão e decisões diárias difíceis... É preciso adoptar algumas linhas de orientação para que a Igreja cumpra cada vez melhor a sua missão que é aproximar-se das pessoas e difundir a sua mensagem»...
Preto no branco!
A «cortina de silêncio» ameaça ruir...
Muito recentemente começou a esboçar-se nalguma imprensa portuguesa a tendência para tratar a Igreja de forma crítica, como qualquer outra instituição. É uma reacção saudável, em grande parte desencadeada pela rápida degradação dos mitos e tabus religiosos. É um «sinal dos tempos».
Por exemplo, sabemos agora através das «fugas» permitidas nos órgãos de comunicação portugueses, alguma coisa do que vai acontecendo com os negócios da Igreja. Veja-se o caso exemplar dos Salesianos de S. João Bosco. A história é breve e envolve milhões.
Na área de Vendas Novas os salesianos possuem vastos terrenos. Decidiram portanto rentabilizá-los construindo e transaccionando um lote de 415 apartamentos. A câmara municipal aprovou o projecto e tudo diria que os salesianos iriam começar a construir. Mas vieram tempos de crise na região. Havia em Vendas Novas 700 andares para venda que não tinham compradores. Loucura seria insistir no projecto.
Foi então que sobreveio um golpe de teatro. Sócrates, sempre atento ao cheiro dos negócios, abandonou a ideia do aeroporto na Ota e transferiu-a para o projecto de Alcochete que fica, por estrada, a escassos 20 minutos de percurso. Num abrir e fechar de olhos, os terrenos dos salesianos valorizavam-se em muitos milhões. Tão grande é o volume do investimento que os religiosos ainda pensaram em criar uma empresa – a «Salvita» – para gerir a empreitada dos apartamentos. Recuara, depois, por boas razões: os salesianos fazem voto de pobreza e, nestes termos, tornar-se-ia arriscado surgirem como capitalistas perante a opinião pública. Aliás, a Ordem tem em curso outros ambiciosos projectos ligados ao turismo, sobretudo em Évora e no Minho onde administra uma rede de hotéis e pousadas.
Não se pense que são somente os salesianos que exploram o negócio do mercado religioso. Fátima recebe anualmente cerca de 5 milhões de peregrinos que deixam nos cofres da Igreja, todos os anos, qualquer coisa como 700 milhões de euros. E não é apenas o Santuário que alimenta as fortunas patriarcais. O «turismo religioso» atrai as classes mais endinheiradas e permite a circulação de interesses entre ramos financeiros muito distintos, da banca à construção civil ou da restauração ao pequeno comércio local. Há grandes investimentos em jogo.
Ainda recentemente um facto (que a Igreja bem gostaria de não ver debatido) veio confirmar a enorme dimensão do negócio. Pela mão de José Roquete, o polémico banqueiro, os bispos regressam aos bancos da escola. Os grandes patrões católicos vão ensinar à hierarquia como organizar as dioceses nos moldes das holdings neoliberais. Os cursos decorrem em Fátima e iniciam-se com uma arenga do próprio José Roquete subordinada ao tema esclarecedor «Critérios e modos de organização, gestão e liderança numa Igreja-Comunhão». Um assunto que comove o ateu mais empedernido e obriga o presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores a apontar para a importância do modelo de gestão capitalista: «Imagine-se o que é gerir um património como o da Igreja, com tantos bens. Claro que isso pode ser feito de uma forma mais exigente! Hoje, as dioceses têm áreas incomensuráveis que exigem dos nossos bispos uma enorme capacidade de gestão e decisões diárias difíceis... É preciso adoptar algumas linhas de orientação para que a Igreja cumpra cada vez melhor a sua missão que é aproximar-se das pessoas e difundir a sua mensagem»...
Preto no branco!