Carlos Carvalhas solidário com população algarvia

«Uma verdadeira tragédia»

Miguel Inácio
O secretário-geral do PCP percorreu no domingo os concelhos do Barlavento algarvio mais fustigados pelas chamas. Solidarizando-se com as populações atingidas, Carlos Carvalhas recordou as proposta do Grupo Parlamentar do PCP na Assembleia da República visando a prevenção e o combate aos fogos.

São perdas incalculáveis, que não se pagam apenas com dinheiro

«Uma paisagem lunar», foi assim que Carlos Carvalhas qualificou, com profunda tristeza, o interior do Barlavento algarvio. Numa iniciativa promovida pela Direcção Regional do Algarve, os eleitos do PCP nas assembleias e juntas de freguesia, que acompanhavam o secretário-geral do PCP, percorreram no domingo os cinco concelhos mais atingidos pelos fogos.
O ponto de encontro foi Odiáxere, uma pequena aldeia situada à beira mar, a quatro quilómetros de Lagos. Passavam poucos minutos das nove da manhã, já a caravana, composta por algumas dezenas de pessoas, se preparava para aquela que foi uma visita de solidariedade com as populações mais visadas pelos incêndios.
À medida que a delegação do PCP entrava no interior da região algarvia, o cenário tornava-se cada vez mais dantesco. O verde das árvores e dos arbustos misturava-se com o negro dos fogos e o cheiro a queimado tornava o ar cada vez mais denso e irrespirável.
Na primeira paragem, em Bensafrim, outras dezenas de pessoas juntam-se à comitiva comunista. Enquanto se bebia um café, para além dos incêndios, comentava-se a preocupação da população com o próximo Inverno. «As cheias vão voltar ao Algarve», dizia uma das pessoas.
Minutos depois, porque se corria contra o tempo, a caravana dirigiu-se para Marmelete, já no concelho de Monchique. O cenário não podia ser pior. De um lado e outro da estrada, ao longo de 22 quilómetros, sem interrupções, apenas área ardina. Nem as imagens da televisão conseguiram exprimir o drama que se abateu sobre o Algarve.
Agora já não se houve o chilrear dos pássaros, apenas o resmalhar do que resta das árvores, constata-se. «É uma verdadeira tragédia», afirma o presidente da Junta de Freguesia de Marmelete, que se reuniu com Carlos Carvalhas, a quem deu a conhecer ter ardido por completo 90 por cento da área total da freguesia.
Após a reunião, foi oferecido ao PCP uma garrafa de medronho e um frasco de mel, produtos tradicionais da região, que dificilmente poderão ser adquiridos nos próximos anos.

Falta de meios

Terminada a visita a Marmelete era tempo de seguir viagem. O destino da comitiva era desta vez Montes de Cima, concelho de Portimão. A meio do caminho, Carlos Carvalhas deparou-se com o desespero de um homem, agricultor de profissão, que perdeu tudo, inclusive a sua casa. «Ardeu tudo, mas do que eu tenho mais pena é da vinha», dizia ele, de lágrimas nos olhos, referindo-se ao seu sustento.
Quando o sol já denunciava o início da tarde, Carlos Carvalhas terminou o périplo pelo Algarve nos Bombeiros Voluntários de Silves. Os soldados da paz, pela voz do seu comandante, queixaram-se da falta de meios e da idade das viaturas - que mais pareciam peças de museu. «Devia haver um apoio mais eficaz aos bombeiros», lamentou o comandante da corporação, afirmando que, em relação à catástrofe algarvia, «os bombeiros fizeram tudo o que puderam». Atento às preocupações expostas pelos Bombeiros Voluntários de Silves, o secretário-geral do PCP prometeu denunciar estes e outros problemas na Assembleia da República.
A visita dos eleitos do PCP terminou com um almoço no «Retiro dos Pescadores», um restaurante perto da bonita cidade de Silves. A ementa, essa, não podia ser melhor: galinha caseira com grão. Ao repasto, que a todos agradou, segui-se o café e um «mosquito» (um pequeno copo de medronho), acompanhado por uma boa dose de conversa. Falou-se de tudo um pouco, a nível nacional e internacional, mas, para os comunistas, o fundamental «é poderem estar juntos numa altura de grande dificuldade».

Dar voz às populações
Assumir responsabilidades

Num cenário completamente desolador, em conversa com os jornalistas, Carlos Carvalhas falou sobre a tragédia que ocorreu no Barlavento algarvio. «O sentimento da população é de grande tristeza e de grande preocupação, mas também de descrença», afirmou, lembrando as cheias que atingiram o Algarve, há seis anos, e o facto de pessoas ainda não terem recebido qualquer indemnização.
A desertificação é outra das questões que preocupam o secretário-geral do PCP, principalmente na freguesia de Marmelete, concelho de Monchique. «Até agora, Marmelete tem conseguido travar a desertificação mas, se não houver respostas concretas, a população começa a deslocar- se», afirmou.
Notoriamente emocionado com o que viu, Carlos Carvalhas falou ainda das pequenas questões que devem ser vistas na especificidade da própria região. «No Algarve há agora o problema do medronho. Segundo o Ministério da Agricultura, não está previsto qualquer apoio para estes produtores, com a ideia que daqui a três anos o medronheiro rebenta. É certo que rebenta, mas durante estes anos não vai haver produção e mesmo depois o medronheiro precisa de vários anos para dar fruto. É necessário dar-lhes algum apoio», sublinhou. O problema dos produtores de mel, «que não têm agora sítio para pôr as colmeias», foi outros dos problemas focados pelo secretário-geral do PCP.
Interrogado sobre o que o PCP pode fazer para colmatar esta situação, Carlos Carvalhas disse: «Procuramos dar voz às populações na Assembleia da República e alertar a opinião pública e naturalmente o Governo para as questões específicas, para a necessidade de dar respostas imediatas. É neste sentido que o PCP está a fazer esta visita, prestando solidariedade às populações, mas também para depois, junto das instituições, dar voz a estas mesmas populações».

Apurar responsabilidades

O secretário-geral do PCP destacou a necessidade de uma política séria de ordenamento florestal. «Os fogos combatem-se no Inverno. É no Inverno que se deve pensar na prevenção e na vigilância», afirmou Carlos Carvalhas. E não são precisos novos planos como diz o Governo, sublinhou, «o PCP apresentou uma legislação na Assembleia da República, em Outubro do ano passado, que foi aprovada por unanimidade» mas que não foi levada à prática.
Carlos Carvalhas considerou ainda que o Governo foi negligente na questão dos fogos, não apenas porque cortou na prevenção mas porque fez ouvido de mercador aos avisos de que este Verão poderia ser muito perigoso para a floresta. «Todos diziam que este Verão seria muito seco, com elevadas temperaturas e em vez de se aumentar a prevenção e a vigilância até houve cortes. Esses cortes pagaram-se caro, como se está a ver», criticou o secretário-geral do PCP.
«São perdas incalculáveis, que não se pagam apenas com dinheiro», continuou, afirmando que só o tempo e uma planificação com participação do Estado, «e naturalmente com respostas sérias», poderá colmatar este holocausto que queimou Portugal.
Sobre a polémica entre os bombeiros e o Coordenador do Centro Nacional de Operações de Socorro, Carlos Carvalhas apenas disse que a «culpa não deve morrer solteira». «O PCP não disse que o Governo é responsável pelas condições climatéricas, ou pela incúria dos governos PSD e PS, mas é responsável pela vigilância, em relação à prevenção, como nós chamámos à atenção, por não ter dado resposta à resolução aprovada por unanimidade», continuou, manifestando-se revoltado «quando olhamos para tudo isto».

Crise assola o País

Carlos Carvalhas acusou ainda o PS de omitir as responsabilidades de anteriores governos nesta matéria. «Lamentamos que não tenha tido uma palavra em relação aos seus governos, à responsabilidade dos governos socialistas nas questões dos incêndios», frisou, referindo-se ao discurso de Ferro Rodrigues, durante a rentrée socialista que, curiosamente, se realizou sábado em Portimão.
O secretário geral do PCP lamentou também a convergência que disse haver entre PS e PSD na revisão do sistema eleitoral, «no sentido do retrocesso e do negativo». E acusou ainda o actual Governo de ter «responsabilidades graves na crise que assola o país», pela sua «uma política errada, injusta, cega que tem vindo a contrair a economia». Mais, sublinhou, não são as remodelações que resolvem os problemas: «O problema não é o ministro “A” ou “B”, é a política geral de retrocesso que é responsável por esta crise».
Quanto à recusa do ministro da Saúde em comentar as mortes provocadas pela recente vaga de calor - mais de 1300 pessoas -, Carlos Carvalhas disse apenas «que a fuga à responsabilidade começa a ser uma doença nacional».

Um mar de chamas

Cerca de 23 por cento da área do concelho de Silves ardeu, o que faz deste município o mais afectado pelos incêndios que devastaram cinco concelhos do barlavento algarvio. O balanço das cinco autarquias atingidas - Silves, Monchique, Lagos, Aljezur e Portimão - aponta para um total de 50 mil hectares de área ardida.
Na passada semana, as chamas que deflagraram em Silves chegaram a cercar a cidade, ameaçando o estabelecimento prisional e algumas casas que não arderam por milímetros.
As situações mais periclitantes, no concelho de Silves, ocorreram nas zonas do Falacho, onde foi evacuada uma clínica de recuperação para toxicodependentes, e Olelouca, onde o fogo cercou algumas habitações.
O segundo concelho mais fustigado pelas chamas foi o de Monchique, onde arderam cerca de 15 mil hectares de floresta, ou seja, 35 por cento da área total.
Foi ainda em Monchique que se registou o maior número de casas totalmente destruídas pelo fogo (16), o que equivale a igual número de agregados familiares desalojados.
Marmelete, uma das freguesias do concelho, com cerca de mil habitantes, foi dos locais mais fustigados pelas chamas, tendo ardido cerca de 90 por cento da sua área total.
Também Casais e Ribeira de Canas foram locais muito afectados pelo fogo.
Nos restantes três concelhos - Portimão, Lagos e Aljezur - a quantidade de área ardida é muito semelhante, mais de 5 mil hectares cada.


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