Governo cede a protestos da população
Depois dos muitos e justos protestos da população, o Centro Interpretativo e as Grutas do Escoural, classificada como monumento nacional e encerrada, pelo Governo, desde Abril de 2007, vão, finalmente, reabrir este mês. «Não é a solução ideal», no entanto, «é um passo importante», afirmou Carlos Pinto Sá, presidente da Câmara de Montemor-o-Novo, no final de mais uma concentração de protesto e reivindicação, que se realizou naquela localidade.
Não é possível continuar a encerrar serviços, sobretudo no interior do país
A importância cultural da Gruta do Escoural é indesmentível, não só para o concelho de Montemor-o-Novo e para o distrito de Évora, mas também no plano nacional. Encontrando-se numa região rica em monumentos megalíticos, trata-se da única cavidade conhecida no território português com pinturas e gravuras rupestres datadas do Paleolítico Superior, tendo sido classificada como Monumento Nacional em 1963. Em toda a Península Ibérica existem apenas dois monumentos com estas características, encontrando-se o outro perto de Mérida (Espanha).
Também no plano económico é inegável a importância deste monumento pelo contributo que dá a uma região tão fortemente procurada no que respeita ao turismo cultural. As cerca de 20 mil visitas realizadas anualmente atestam bem essa importância, sobretudo se tivermos em conta que esta afluência se regista sem grande promoção ou publicidade e que cerca de metade dos visitantes vêm fora de Portugal.
Foi precisamente reconhecendo a importância daquele monumento que foi instalado um Centro Interpretativo na Vila do Escoural, infra-estrutura obviamente necessária à compreensão do monumento em causa e factor da sua valorização e dignificação.
No entanto, há cerca de um ano, o Centro Interpretativo e a Gruta encontram-se encerrados devido à inexistência de, no mínimo dois funcionários que assegurem as visitas e o funcionamento do Centro Interpretativo. A decisão de não contratar novos técnicos, após o fim do contrato daqueles que ali se encontravam, foi tomada pelo Ministério da Cultura.
Agora, face aos justos protestos e reclamações por parte de quem assim vê frustrada a visita a um monumento daquela importância e cria-se a imagem de um país que não valoriza nem dignifica devidamente o seu património histórico e cultural, o Governo voltou a trás e anunciou a sua reabertura para amanhã, 18 de Abril.
«O compromisso que o director regional da cultura nos fez é que as Grutas e o Centro Interpretativo vão reabrir de terça-feira a sábado, na parte da tarde. Vai ser colocada, aqui, na freguesia, uma viatura para que o trabalhador do Centro Interpretativo possa depois acompanhar as pessoas às grutas e, um dia por semana, no caso de haver grupos, escolas, reformados, haver um arqueólogo para os acompanhar», informou Carlos Pinto Sá.
O presidente da Câmara de Montemor-o-Novo alertou, por outro lado, para a intensão do Governo de encerrar outros serviços públicos na região. «Não é possível continuar a encerrar serviços, sobretudo no interior do país, porque as pessoas são obrigadas a sair do interior e fugir para o litoral», lamentou, acrescentando: «Há mais de um ano, fomos os primeiros a fazer, no concelho, uma manifestação para protestar contra a tentativa de encerramento do Serviço de Atendimento Permanente (SAP) da Urgência do Hospital de Montemor-o-Novo».
«Desenvolvemos esta luta porque sabíamos que tínhamos razão, porque aquele é um serviço essencial para a população», afirmou Carlos Pinto Sá, adiantando: «Não só conseguimos que o SAP não encerrasse como se criou um Serviço de Urgência Básica, a ser implantado no nosso concelho dentro de pouco tempo».
Resistir e lutar
Na freguesia, o Executivo PS pretendia também encerrar o posto médico, da GNR e privatizar os CTT do Escoural. «Temos sabido resistir e estivemos sempre unidos na continuidade destes serviços. O mesmo não podemos dizer do posto médico de S. Brissos, que tem impedido o acesso à saúde de uma centena de habitantes, na maioria reformados e idosos», afirmou Virgílio Rosa, presidente da Junta de Freguesia do Escoural.
Sobre as Grutas e do Centro Interpretativo, o autarca do Escoural lamentou o encerramento «temporário», há cerca de um ano, «do mais antigo monumento que representa a presença humana em época histórica». «Foi-nos sempre dito que se tratava de uma situação temporária, no entanto já se passaram 11 meses e os portões continuam encerrados», acentuou, frisando: «Porque queremos viver aqui, porque queremos desenvolver a nossa terra, porque temos direito ao trabalho, porque defendemos um mundo melhor, é urgente ultrapassar esta decisão. É uma exigência acolher, com dignidade, os cerca de 20 mil visitantes, por ano, que visitam a nossa freguesia e querem conhecer a gruta.»
Alentejo desprezado pelos sucessivos governos
Para os comunistas, o encerramento das Grutas e do Centro Interpretativo do Escoural retirou à vila e ao concelho de Montemor-o-Novo um motivo de atracção turística que poderia contribuir para o seu desenvolvimento económico, como aliás bem atestam as cerca de 20 mil visitas anuais registadas no último ano de abertura ao público.
«Estamos a falar de um interior de um país desertificado, de uma freguesia e de um concelho que tem assistido a encerramentos sucessivos de serviços públicos, nomeadamente dos CTT's e da GNR, de um património cultural único e ímpar, na Península Ibérica», comentou, ao Avante!, João Pauzinho, responsável pela Direcção de Organização Regional de Évora.
O comunista lembrou ainda que no concelho, «onde já não existe indústria nem emprego», este património poderá «potenciar o emprego e o desenvolvimento económico». «Não estamos a falar de nenhum investimento astronómico», precisou.
Por seu lado, Vitalina Sofia, da Comissão Concelhia de Montemor-o-Novo alertou para o estado de «ruína» de outros monumentos. «O Castelo de Montemor-o-Novo, um dos com maior extensão de muralha do país, ao longo dos anos têm-se degradado muito. Conseguiram-se pequenas intervenções, no entanto, existe uma muralha que ameaça ruir», relatou.
Para João Pauzinho esta situação é um «contra senso». «Nos últimos meses temos recebido mega-investimentos na área do turismo, estamos a falar de largos milhões de euros e de milhares de turistas que vão estar aqui nas imediações (Alqueva, Reguengos de Monsaraz, entre outros), mas depois o que vemos são campos de golfe e grandes empreendimentos. Tudo o que é o nosso património cultural, o que nos distancia dos outros resortes, está ao abandono», criticou.
Para o PCP, continuou, «o turismo no Alentejo só conseguirá se desenvolver de uma forma sustentada se ele for diferenciador e potenciador do que existe cá e não de uma forma quase igual ao resto do mundo. Os campos de golfe, a médio prazo, vão dar buraco.»
População exige reabertura das grutas
«Não temos mais nada»
Para Raquel Maria Cachochas, as grutas e o Centro Interpretativo têm um grande valor para a Freguesia de Santiago do Escoural. «É importante para as pessoas que aqui passam, turistas e não só, e para os de cá da terra. Nós aqui não temos mais nada», lamentou. Para além disso, realçou, «as grutas são bem bonitas e devem ser visitadas por toda a gente».
Escoural
«Eternidade a cada instante»
Em Santiago do Escoural prepare-se para uma viagem de centenas de milhares de anos, até ao Paleolítico, através da Gruta do Escoural.
O sítio arqueológico do Escoural apresenta como ponto fulcral a gruta, cavidade natural formada num afloramento granítico implantado numa vasta faixa de calcários, numa zona de verdadeira encruzilhada localizada entre as bacias hidrográficas do Tejo e do Sado e a peneplanície alentejana. Encontrando-se parcialmente selada por um espesso manto estalagmítico, a gruta é constituída por várias salas e galerias que atestam, grosso modo, cerca de 50 mil anos de história, ilustrados pelas representações gráficas realizadas no seu interior.
A primeira ocupação remonta ao Paleolítico Médio, quando grupos de caçadores-recolectores neandertalenses utilizaram a gruta como abrigo temporário durante a prática da caça, cujo alvo principal deveriam ser, entre outros, o auroque, o veado e o cavalo, a julgar pelos vestígios osteológicos aí encontrados.
Durante o Paleolítico Superior (35 000 - 8 000 a.C.), o espaço da gruta sofreu um reaproveitamento, surgindo, então, um santuário rupestre concebido por grupos anatomicamente considerados modernos. Data precisamente desta época a utilização das paredes do seu interior como suporte de realização de diversos motivos artísticos, inseridos no vasto universo da denominada Arte Pré-histórica.
No epicentro destas representatividades encontra-se sempre o elemento faunístico, com especial destaque para os equídeos e os bovídeos, geralmente pintados a negro. Está ainda presente um outro conjunto de componentes realizados a encarnado, com uma carga simbólica que só com dificuldade poderemos tentar interpretar em virtude de conectarem-se, muito provavelmente, a uma imagética e espiritualidade muito próprias, das quais se perderam, há muito, os registos.
Entretanto, foi somente com a emergência do Neolítico (5 000 a.C. - 3 000 a.C.), que a gruta foi transformada em cemitério das comunidades de agricultores e pastores localizadas nas suas imediações. O ritual funerário é composto pela deposição do morto no seu interior, à superfície, acompanhado de espólio constituído por diversos artefactos, tais como vasos cerâmicos, machados e enxós em pedra polida, lâminas e lamelas em sílex, além de diferentes tipos de adornos realizados em osso e concha.
Terão sido estes mesmos grupos populacionais que, aproveitando as lajes calcárias do exterior da gruta, gravaram diversos motivos esquemáticos e animais estilizados, formando um santuário rupestre ao ar livre no cerro que se lhe sobrepõe.
Quando, no final do Neolítico, a gruta foi encerrada, o seu espaço começou a ser habitado por comunidades do Calcolítico (2 000 a.C.), construindo-se um povoado fortificado, assim como um tholos megalítico de falsa cúpula, situado a uma distância de cerca de 600 metros, caracterizado por uma câmara circular, corredor e átrio de acesso ao seu interior.
Os diferentes espólios encontrados, quer em contexto habitacional como funerário, parecem evidenciar a prática agrícola, pastorícia e mineira, às quais se dedicariam estas populações.
Tendo sido descoberta ocasionalmente a 17 de Abril de 1963, deu-se de imediato início a uma campanha de escavações da responsabilidade do Museu Nacional de Arqueologia, ao mesmo tempo que o sítio era classificado como Monumento Nacional em 25 de Outubro do mesmo ano, e adquirido pelo Estado Português em 1998.
Sítios de interesse
Para além da Gruta do Escoural muito existe ainda para ver. A quatro quilómetros da vila, na aldeia de S. Brissos, encontramos a Anta-capela de Nª Srª do Livramento, um curioso exemplo da cristianização tardia de um monumento pagão. Integrada na Herdade da Anta, este imóvel, de interesse público, foi transformado em templo religioso, no século XVII. Na aldeia de São Brissos podemos ainda visitar a Igreja do mesmo nome. Os seus 15 painéis parietais, representando o Apostolado e os bispos de Évora: S. Manços, S. Jordão e S. Brissos, formam uma composição interessante, de onde sobressaem as expressões ingénuas dos personagens e os tons quentes dos frescos. Pode-se ainda encontrar a Igreja Paroquial e os Fornos de Carvão.
Também no plano económico é inegável a importância deste monumento pelo contributo que dá a uma região tão fortemente procurada no que respeita ao turismo cultural. As cerca de 20 mil visitas realizadas anualmente atestam bem essa importância, sobretudo se tivermos em conta que esta afluência se regista sem grande promoção ou publicidade e que cerca de metade dos visitantes vêm fora de Portugal.
Foi precisamente reconhecendo a importância daquele monumento que foi instalado um Centro Interpretativo na Vila do Escoural, infra-estrutura obviamente necessária à compreensão do monumento em causa e factor da sua valorização e dignificação.
No entanto, há cerca de um ano, o Centro Interpretativo e a Gruta encontram-se encerrados devido à inexistência de, no mínimo dois funcionários que assegurem as visitas e o funcionamento do Centro Interpretativo. A decisão de não contratar novos técnicos, após o fim do contrato daqueles que ali se encontravam, foi tomada pelo Ministério da Cultura.
Agora, face aos justos protestos e reclamações por parte de quem assim vê frustrada a visita a um monumento daquela importância e cria-se a imagem de um país que não valoriza nem dignifica devidamente o seu património histórico e cultural, o Governo voltou a trás e anunciou a sua reabertura para amanhã, 18 de Abril.
«O compromisso que o director regional da cultura nos fez é que as Grutas e o Centro Interpretativo vão reabrir de terça-feira a sábado, na parte da tarde. Vai ser colocada, aqui, na freguesia, uma viatura para que o trabalhador do Centro Interpretativo possa depois acompanhar as pessoas às grutas e, um dia por semana, no caso de haver grupos, escolas, reformados, haver um arqueólogo para os acompanhar», informou Carlos Pinto Sá.
O presidente da Câmara de Montemor-o-Novo alertou, por outro lado, para a intensão do Governo de encerrar outros serviços públicos na região. «Não é possível continuar a encerrar serviços, sobretudo no interior do país, porque as pessoas são obrigadas a sair do interior e fugir para o litoral», lamentou, acrescentando: «Há mais de um ano, fomos os primeiros a fazer, no concelho, uma manifestação para protestar contra a tentativa de encerramento do Serviço de Atendimento Permanente (SAP) da Urgência do Hospital de Montemor-o-Novo».
«Desenvolvemos esta luta porque sabíamos que tínhamos razão, porque aquele é um serviço essencial para a população», afirmou Carlos Pinto Sá, adiantando: «Não só conseguimos que o SAP não encerrasse como se criou um Serviço de Urgência Básica, a ser implantado no nosso concelho dentro de pouco tempo».
Resistir e lutar
Na freguesia, o Executivo PS pretendia também encerrar o posto médico, da GNR e privatizar os CTT do Escoural. «Temos sabido resistir e estivemos sempre unidos na continuidade destes serviços. O mesmo não podemos dizer do posto médico de S. Brissos, que tem impedido o acesso à saúde de uma centena de habitantes, na maioria reformados e idosos», afirmou Virgílio Rosa, presidente da Junta de Freguesia do Escoural.
Sobre as Grutas e do Centro Interpretativo, o autarca do Escoural lamentou o encerramento «temporário», há cerca de um ano, «do mais antigo monumento que representa a presença humana em época histórica». «Foi-nos sempre dito que se tratava de uma situação temporária, no entanto já se passaram 11 meses e os portões continuam encerrados», acentuou, frisando: «Porque queremos viver aqui, porque queremos desenvolver a nossa terra, porque temos direito ao trabalho, porque defendemos um mundo melhor, é urgente ultrapassar esta decisão. É uma exigência acolher, com dignidade, os cerca de 20 mil visitantes, por ano, que visitam a nossa freguesia e querem conhecer a gruta.»
Alentejo desprezado pelos sucessivos governos
Para os comunistas, o encerramento das Grutas e do Centro Interpretativo do Escoural retirou à vila e ao concelho de Montemor-o-Novo um motivo de atracção turística que poderia contribuir para o seu desenvolvimento económico, como aliás bem atestam as cerca de 20 mil visitas anuais registadas no último ano de abertura ao público.
«Estamos a falar de um interior de um país desertificado, de uma freguesia e de um concelho que tem assistido a encerramentos sucessivos de serviços públicos, nomeadamente dos CTT's e da GNR, de um património cultural único e ímpar, na Península Ibérica», comentou, ao Avante!, João Pauzinho, responsável pela Direcção de Organização Regional de Évora.
O comunista lembrou ainda que no concelho, «onde já não existe indústria nem emprego», este património poderá «potenciar o emprego e o desenvolvimento económico». «Não estamos a falar de nenhum investimento astronómico», precisou.
Por seu lado, Vitalina Sofia, da Comissão Concelhia de Montemor-o-Novo alertou para o estado de «ruína» de outros monumentos. «O Castelo de Montemor-o-Novo, um dos com maior extensão de muralha do país, ao longo dos anos têm-se degradado muito. Conseguiram-se pequenas intervenções, no entanto, existe uma muralha que ameaça ruir», relatou.
Para João Pauzinho esta situação é um «contra senso». «Nos últimos meses temos recebido mega-investimentos na área do turismo, estamos a falar de largos milhões de euros e de milhares de turistas que vão estar aqui nas imediações (Alqueva, Reguengos de Monsaraz, entre outros), mas depois o que vemos são campos de golfe e grandes empreendimentos. Tudo o que é o nosso património cultural, o que nos distancia dos outros resortes, está ao abandono», criticou.
Para o PCP, continuou, «o turismo no Alentejo só conseguirá se desenvolver de uma forma sustentada se ele for diferenciador e potenciador do que existe cá e não de uma forma quase igual ao resto do mundo. Os campos de golfe, a médio prazo, vão dar buraco.»
População exige reabertura das grutas
«Não temos mais nada»
Para Raquel Maria Cachochas, as grutas e o Centro Interpretativo têm um grande valor para a Freguesia de Santiago do Escoural. «É importante para as pessoas que aqui passam, turistas e não só, e para os de cá da terra. Nós aqui não temos mais nada», lamentou. Para além disso, realçou, «as grutas são bem bonitas e devem ser visitadas por toda a gente».
Escoural
«Eternidade a cada instante»
Em Santiago do Escoural prepare-se para uma viagem de centenas de milhares de anos, até ao Paleolítico, através da Gruta do Escoural.
O sítio arqueológico do Escoural apresenta como ponto fulcral a gruta, cavidade natural formada num afloramento granítico implantado numa vasta faixa de calcários, numa zona de verdadeira encruzilhada localizada entre as bacias hidrográficas do Tejo e do Sado e a peneplanície alentejana. Encontrando-se parcialmente selada por um espesso manto estalagmítico, a gruta é constituída por várias salas e galerias que atestam, grosso modo, cerca de 50 mil anos de história, ilustrados pelas representações gráficas realizadas no seu interior.
A primeira ocupação remonta ao Paleolítico Médio, quando grupos de caçadores-recolectores neandertalenses utilizaram a gruta como abrigo temporário durante a prática da caça, cujo alvo principal deveriam ser, entre outros, o auroque, o veado e o cavalo, a julgar pelos vestígios osteológicos aí encontrados.
Durante o Paleolítico Superior (35 000 - 8 000 a.C.), o espaço da gruta sofreu um reaproveitamento, surgindo, então, um santuário rupestre concebido por grupos anatomicamente considerados modernos. Data precisamente desta época a utilização das paredes do seu interior como suporte de realização de diversos motivos artísticos, inseridos no vasto universo da denominada Arte Pré-histórica.
No epicentro destas representatividades encontra-se sempre o elemento faunístico, com especial destaque para os equídeos e os bovídeos, geralmente pintados a negro. Está ainda presente um outro conjunto de componentes realizados a encarnado, com uma carga simbólica que só com dificuldade poderemos tentar interpretar em virtude de conectarem-se, muito provavelmente, a uma imagética e espiritualidade muito próprias, das quais se perderam, há muito, os registos.
Entretanto, foi somente com a emergência do Neolítico (5 000 a.C. - 3 000 a.C.), que a gruta foi transformada em cemitério das comunidades de agricultores e pastores localizadas nas suas imediações. O ritual funerário é composto pela deposição do morto no seu interior, à superfície, acompanhado de espólio constituído por diversos artefactos, tais como vasos cerâmicos, machados e enxós em pedra polida, lâminas e lamelas em sílex, além de diferentes tipos de adornos realizados em osso e concha.
Terão sido estes mesmos grupos populacionais que, aproveitando as lajes calcárias do exterior da gruta, gravaram diversos motivos esquemáticos e animais estilizados, formando um santuário rupestre ao ar livre no cerro que se lhe sobrepõe.
Quando, no final do Neolítico, a gruta foi encerrada, o seu espaço começou a ser habitado por comunidades do Calcolítico (2 000 a.C.), construindo-se um povoado fortificado, assim como um tholos megalítico de falsa cúpula, situado a uma distância de cerca de 600 metros, caracterizado por uma câmara circular, corredor e átrio de acesso ao seu interior.
Os diferentes espólios encontrados, quer em contexto habitacional como funerário, parecem evidenciar a prática agrícola, pastorícia e mineira, às quais se dedicariam estas populações.
Tendo sido descoberta ocasionalmente a 17 de Abril de 1963, deu-se de imediato início a uma campanha de escavações da responsabilidade do Museu Nacional de Arqueologia, ao mesmo tempo que o sítio era classificado como Monumento Nacional em 25 de Outubro do mesmo ano, e adquirido pelo Estado Português em 1998.
Sítios de interesse
Para além da Gruta do Escoural muito existe ainda para ver. A quatro quilómetros da vila, na aldeia de S. Brissos, encontramos a Anta-capela de Nª Srª do Livramento, um curioso exemplo da cristianização tardia de um monumento pagão. Integrada na Herdade da Anta, este imóvel, de interesse público, foi transformado em templo religioso, no século XVII. Na aldeia de São Brissos podemos ainda visitar a Igreja do mesmo nome. Os seus 15 painéis parietais, representando o Apostolado e os bispos de Évora: S. Manços, S. Jordão e S. Brissos, formam uma composição interessante, de onde sobressaem as expressões ingénuas dos personagens e os tons quentes dos frescos. Pode-se ainda encontrar a Igreja Paroquial e os Fornos de Carvão.