O efeito retroactivo

Correia da Fonseca
Porque foi solidário e corajoso, talvez também porque se lançou a fazer o que poucos ou nenhuns outros tinham feito, muitas vezes Ernesto «Che» Guevara foi chamado de «herói romântico». Não é uma designação em princípio antipática, longe disso, mas a questão é que frequentemente é usada para sugerir uma qualificação conotada com um certo idealismo quixotesco mas tonto, com raízes na sensibilidade mas não em convicções sólidas, informadas, racionais. Na verdade, isso de ser romântico está muito desvalorizado ao nível do senso comum, dir-se-ia que um pouco como ser poeta, e quase integra uma sabedoria largamente partilhada: o convencimento de que românticos ou poetas não podem ou não devem ser tomados como exemplos «práticos», por muito que a sua evocação possa servir para enfeitar retóricas em momentos a condizer. Por estas e talvez por outras, acorri um dia destes ao canal Odisseia, distribuído por cabo, para não perder um anunciado telefilme acerca de Ernesto «Che» Guevara. Não o fiz sem algumas cautelas, pois bem se sabe que o cabo está cheio de programas feitos por quem, embora dando por adquirido que o comunismo faleceu, não resistem à tentação de lançar sobre a sua suposta sepultura mais umas bem cheias pazadas de terra inevitavelmente reforçadas com muito estrume, não vá o defunto reerguer-se. É claro que o mal dessa gente é que o defunto não está em nenhuma cova, e se em meados do século XIX percorria a Europa, como então foi assinalado por um texto célebre e fundamental, percorre agora o mundo inteiro. De qualquer modo e cautelas à parte, sintonizei o Odisseia e não me arrependi: de uma ponta à outra, o telefilme era sério, justo e fundamentado. Não vi que fosse transmitida a data da sua feitura, mas não seria recente, bem antes pelo contrário. Não importa: um trabalho honesto sobre um tema importante não ganha rugas facilmente. Só no final descobri que trazia a assinatura de dois jornalistas portugueses, Cândida Pinto e José Manuel Cyrne. Que os autores estivessem ao abrigo da eventual acusação de serem gente ao serviço de Moscovo ou de Havana agradou-me porque, como é óbvio, esse facto reforçava a credibilidade do seu trabalho mesmo perante olhares cépticos ou hostis.

O «Che»

O telefilme revelou-se sereno, objectivo, naturalmente tocado por uma implícita simpatia por um homem que trocara tudo, país de origem, família, carreira, para se entregar à defesa dos outros e a um projecto de justiça. Mas não era exactamente um trabalho apologético. Em dada altura, uma frase da locução deixou entrever uma opinião pelo menos crítica em relação ao que Cuba seria uns anos mais tarde, mas não chegou a assumir um travo hostil. Foram-nos contados os antecedentes de Ernesto Guevara, sobretudo através de familiares seus, e referida em poucas palavras a sua viagem através da América do Sul que, como se sabe, contribuiu decisivamente para a sua indignada tomada de consciência perante a opressão generalizada a que as populações estavam votadas. Depois a sua chegada a Cuba, a integração no pequeno grupo que iria fazer a glória de um país, a sua íntima e relevante colaboração com Fidel. Aprendi então uma coisa que talvez devesse já saber mas desconhecia: que a palavra «Che», com que passou a ser tratado, significa «amigo». Mais tarde, depois de falado o seu trabalho como dirigente, como ministro, foi-nos contada a sua decisão de ir combater a opressão capitalista/imperialista noutros lugares, primeiro em África, depois na Bolívia onde seria assassinado. Porém, a dado passo veio uma informação fundamental: a de que, antes mesmo da sua chegada a Cuba, Guevara lera Marx e também Lenine. Significava isto que as opções tomadas por ele não haviam decorrido apenas de pulsões emocionais mas também de aprendizagens, de razões. Isto é: que Ernesto «Che» Guevara não foi apenas o «herói romântico» abundantemente evocado e mesmo louvado, mas sim o homem consciente, herói completo, sensível e também marxista convicto, vertente esta frequentemente omitida. Assim, o trabalho que os dois jornalistas portugueses produziram em data que não consegui saber restituía a Ernesto «Che» Guevara a sua inteira dimensão. Fiquei-lhes grato, com efeito retroactivo.


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