Ventos que sopram de Espanha ...
É frequente distrairmo-nos e esquecermos o que se passa no país vizinho. Regra geral, a culpa é nossa, devida à carga histórica negativa que nos separa de Espanha, mas também pode resultar (e quase sempre é assim) de uma atitude pensada pelos poderes estabelecidos na política e na comunicação social. Os povos não são alertados e quando a notícia lhes é dada não têm tempo nem espaço para reflexão.
Assim aconteceu recentemente com factos gravíssimos ocorridos em Espanha e que envolveram grandes grupos portugueses e símbolos nacionais. Tratou-se da realização, a poucos dias das eleições legislativas espanholas, de uma grande missa campal, convocada pelo arcebispado de Madrid e minuciosamente preparada, envolvendo delegações católicas de muitos países europeus, de entre os quais Portugal. O tema central dessa missa era, oficiosamente, a defesa da Família Cristã. Mas rapidamente a cerimónia litúrgica transformou-se em manifestação política reaccionária com o Vaticano e a Igreja a ingerirem-se, sem escrúpulos, nos assuntos do Estado e do povo espanhóis. O Papa – através de uma mensagem - e as formações católicas estrangeiras mais fundamentalistas e sectárias, estiveram presentes no país vizinho para dizerem ao povo espanhol que leis queriam ver aprovadas ou não, e em que sentido devia ser exercido o direito de voto. A Comunicação Social portuguesa pouco realce deu a estes acontecimentos que se enquadram, no entanto, numa estratégia global desenvolvida pelo eixo capitalista/clerical contra os direitos dos povos. Com a cumplicidade de muitos responsáveis «laicos».
Lá e cá más fadas há ...
Os relatos dos jornais espanhóis permitem entrever as minúcias da preparação desta missa. O acto reuniu dois milhões de assistentes aos quais a organização garantiu alojamento, serviços de segurança e de saúde, alimentos, e transportou em aviões, em comboios expressos e em 1200 autocarros. Foi tudo menos uma manifestação espontânea do povo católico espanhol.
No exterior, no plano do mega-espectáculo, o Papa enviou aos celebrantes uma equívoca mensagem pastoral onde o teológico se mistura com o político; beatificou os padres católicos franquistas mortos durante a guerra civil; e empossou no lugar de Superior-Geral da ultrapoderosa Companhia de Jesus um padre espanhol com a imagem mediática do lutador pelos pobres. Estava montado o esquema habitual que combina componentes conspirativas e demagogia. O segredo das «revoluções de veludo».
A marca pessoal do papa Ratzinger está bem patente em todas estas venenosas manobras. A verdade é que na católica Espanha a Igreja regista uma grave queda de influência entre a população. Os casamentos religiosos cedem lugar aos casamentos civis ou às uniões «de facto». O baptismo católico, até aqui da ordem dos 100% dos recém-nascidos, baixou para a fasquia dos 57% e continua a decrescer. E é justamente nas regiões onde a Igreja registava maior influência (Catalunha, Vascongadas, Navarra) que este descrédito católico mais se faz sentir. Os espanhóis parecem aderir rapidamente a um novo conceito de secularização dos princípios que regem as relações entre a Igreja e o Estado. Ajuda-os nesse sentido a lista infindável dos escândalos que borbulham nas ordens, nas sacristias, nas ONGS confessionais, na banca eclesiástica, etc. Ainda há poucos dias, o Bispo de Tenerife declarou, a respeito da pedofilia que corrói o clero católico, ser culpa das crianças que «provocam» os padres. Por estas e por outras, a percentagem dos católicos praticantes espanhóis desceu em flecha e situa-se, actualmente, nos 24% da população. Por isso, Ratzinger dá a mão ao clero ultra-reaccionário e procura dividir para reinar. Através da polémica tenta abrir brechas na esquerda espanhola. Cria em Espanha uma task force (força de ataque) constituída pela Companhia de Jesus e pelo Opus Dei.
Como já não tem no país número suficiente de seguidores incondicionais, importa os seus manifestantes de países estrangeiros.
Tem sido denunciado, desde há muitos anos, que o Vaticano alimenta em relação à Península Ibérica, um projecto megalómano, baseado na recristianização ou nova evangelização dos povos ibéricos. Gradualmente. Ganhando ascendente político, dominando no mundo financeiro, instalando governos da Democracia Cristã, consolidando mercados e destruindo a actual rede paroquial para substituí-la por uma só diocese gigantesca, directamente obediente ao papa. Uma diocese forte, digna da Europa global. Seria o regresso aos tempos áureos, quando a Igreja dominava as almas e, sozinha, somava tesouros. Foi o que Andrea Ricardo, fundador da Comunidade de Santo Egídio e amigo de peito de Mário Soares terá querido referir quando exclamou, do alto do púlpito da grande missa campal: «Não estamos aqui para defendermos a sociedade de mercado. Num mundo onde tudo se compra e vende, a Família é um espaço gratuito. O mundo precisa de mais família para valorizar o princípio universal da gratuitidade».
Para bom entendedor, meia palavra basta!... Gratuitidade, voluntariado, reconciliação, caridade, obediência, temor, aceitação, perdão, renúncia à luta de classes, são conceitos básicos da gramática capitalista e clerical.
Assim aconteceu recentemente com factos gravíssimos ocorridos em Espanha e que envolveram grandes grupos portugueses e símbolos nacionais. Tratou-se da realização, a poucos dias das eleições legislativas espanholas, de uma grande missa campal, convocada pelo arcebispado de Madrid e minuciosamente preparada, envolvendo delegações católicas de muitos países europeus, de entre os quais Portugal. O tema central dessa missa era, oficiosamente, a defesa da Família Cristã. Mas rapidamente a cerimónia litúrgica transformou-se em manifestação política reaccionária com o Vaticano e a Igreja a ingerirem-se, sem escrúpulos, nos assuntos do Estado e do povo espanhóis. O Papa – através de uma mensagem - e as formações católicas estrangeiras mais fundamentalistas e sectárias, estiveram presentes no país vizinho para dizerem ao povo espanhol que leis queriam ver aprovadas ou não, e em que sentido devia ser exercido o direito de voto. A Comunicação Social portuguesa pouco realce deu a estes acontecimentos que se enquadram, no entanto, numa estratégia global desenvolvida pelo eixo capitalista/clerical contra os direitos dos povos. Com a cumplicidade de muitos responsáveis «laicos».
Lá e cá más fadas há ...
Os relatos dos jornais espanhóis permitem entrever as minúcias da preparação desta missa. O acto reuniu dois milhões de assistentes aos quais a organização garantiu alojamento, serviços de segurança e de saúde, alimentos, e transportou em aviões, em comboios expressos e em 1200 autocarros. Foi tudo menos uma manifestação espontânea do povo católico espanhol.
No exterior, no plano do mega-espectáculo, o Papa enviou aos celebrantes uma equívoca mensagem pastoral onde o teológico se mistura com o político; beatificou os padres católicos franquistas mortos durante a guerra civil; e empossou no lugar de Superior-Geral da ultrapoderosa Companhia de Jesus um padre espanhol com a imagem mediática do lutador pelos pobres. Estava montado o esquema habitual que combina componentes conspirativas e demagogia. O segredo das «revoluções de veludo».
A marca pessoal do papa Ratzinger está bem patente em todas estas venenosas manobras. A verdade é que na católica Espanha a Igreja regista uma grave queda de influência entre a população. Os casamentos religiosos cedem lugar aos casamentos civis ou às uniões «de facto». O baptismo católico, até aqui da ordem dos 100% dos recém-nascidos, baixou para a fasquia dos 57% e continua a decrescer. E é justamente nas regiões onde a Igreja registava maior influência (Catalunha, Vascongadas, Navarra) que este descrédito católico mais se faz sentir. Os espanhóis parecem aderir rapidamente a um novo conceito de secularização dos princípios que regem as relações entre a Igreja e o Estado. Ajuda-os nesse sentido a lista infindável dos escândalos que borbulham nas ordens, nas sacristias, nas ONGS confessionais, na banca eclesiástica, etc. Ainda há poucos dias, o Bispo de Tenerife declarou, a respeito da pedofilia que corrói o clero católico, ser culpa das crianças que «provocam» os padres. Por estas e por outras, a percentagem dos católicos praticantes espanhóis desceu em flecha e situa-se, actualmente, nos 24% da população. Por isso, Ratzinger dá a mão ao clero ultra-reaccionário e procura dividir para reinar. Através da polémica tenta abrir brechas na esquerda espanhola. Cria em Espanha uma task force (força de ataque) constituída pela Companhia de Jesus e pelo Opus Dei.
Como já não tem no país número suficiente de seguidores incondicionais, importa os seus manifestantes de países estrangeiros.
Tem sido denunciado, desde há muitos anos, que o Vaticano alimenta em relação à Península Ibérica, um projecto megalómano, baseado na recristianização ou nova evangelização dos povos ibéricos. Gradualmente. Ganhando ascendente político, dominando no mundo financeiro, instalando governos da Democracia Cristã, consolidando mercados e destruindo a actual rede paroquial para substituí-la por uma só diocese gigantesca, directamente obediente ao papa. Uma diocese forte, digna da Europa global. Seria o regresso aos tempos áureos, quando a Igreja dominava as almas e, sozinha, somava tesouros. Foi o que Andrea Ricardo, fundador da Comunidade de Santo Egídio e amigo de peito de Mário Soares terá querido referir quando exclamou, do alto do púlpito da grande missa campal: «Não estamos aqui para defendermos a sociedade de mercado. Num mundo onde tudo se compra e vende, a Família é um espaço gratuito. O mundo precisa de mais família para valorizar o princípio universal da gratuitidade».
Para bom entendedor, meia palavra basta!... Gratuitidade, voluntariado, reconciliação, caridade, obediência, temor, aceitação, perdão, renúncia à luta de classes, são conceitos básicos da gramática capitalista e clerical.